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terça-feira, 5 de junho de 2018

Uma fotografia, de vez em quando... (107)


Mais do que a preocupação estética ou artística, a obra fotográfica da francesa Thérèse Rivière (1901-1970) serviu de apoio objectivo, sobretudo, aos seus trabalhos etnográficos centrados, principalmente, na Argélia, então francesa, e em particular no estudo da etnia berbere.



A sua primeira profissão foi, na Michelin, como desenhadora industrial. Mas a sua paixão pela etnografia fê-la atravessar o Mediterrâneo e colher impressionantes testemunhos do viver dos nativos argelinos, com quem conviveu de perto. O resultado dos instantâneos captados (mais de dois milhares de fotografias), integrou, em pequena parte, o acervo de uma exposição, em 1943, no Musée de l'Homme.



Thérèse Riviére, durante parte da ocupação alemã, na II Grande Guerra, fez também parte da Resistência francesa.

domingo, 4 de junho de 2017

Centralizando a questão


É sempre avisado desconfiar daqueles que, com cândida singeleza e puritanamente, se confessam apolíticos. Na maior parte dos casos, são meros Tartufos disfarçados. E, ainda mais, é preciso desconfiar dos que afirmam que não há já razão ideológica para a existência, em política, de Esquerda e de Direita. Esses, ou são pobres de espírito (e será deles, como diz o Novo Testamento, o reino dos céus...), ou escondem objectivos inconfessados de infiltragem insidiosa, para catequizarem e se insinuarem, com mais simpatia, no país aborígene dos ignorantes e inocentes.
Dito isto, eu penso que, em muitos aspectos, a Esquerda conserva, em si, alguns sentimentos de culpa em relação às questões essenciais do mundo, alguma incomodidade, e tem, muitas vezes, uma excessiva gentileza democrática para resolver com objectividade determinadas situações. Aí, normalmente, a Direita é menos subjectiva, mais rude, mas também mais eficaz. Por exemplo, a Guerra. Relembro a hesitação democrática de Mendès France, comparada com o realismo de De Gaulle (Argélia). Ou Kennedy e Johnson, democratas, em confronto com o pragmatismo de Nixon, republicano, que acabou com a guerra do Vietname.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Uma louvável iniciativa (34)


Ora, aqui está um "Bom Dia" dado pelo Café Nicola, em pacotinho doce de açúcar.
Como as editoras, a banca, também as firmas transformadoras de  café se juntaram em grandes conglomerados, absorvidas umas pelas outras - é assim a voragem capitalista gulosa de crescimento desmedido. E o café Nicola, que foi o meu preferido anos e anos, já não é escolhido, provado e comprado pelo velho (e já falecido) sr. Albuquerque que, quase artesanalmente, combinava 50% de grãos de Robusta, com 50% de Arábica. Creio que é a Nestlé, hoje, quem faz isso, mas industrialmente.
Se bem compreendi a ideia desta colecção de 30 pacotinhos, ela destina-se a celebrar a diáspora portuguesa pelo mundo. Este 22/30 dá os bons dias aos 450 portugueses que vivem (e trabalham?) na Argélia. Se for essa a ideia, é uma louvável iniciativa...

domingo, 29 de abril de 2012

2 poemas traduzidos de Tahar Djaout


Tahar Djaout (1954-1993), poeta, jornalista e romancista argelino, de língua francesa, sempre defendeu um estado laico para a sua pátria. Pela defesa e intransigência das suas ideias, foi vítima de um atentado levado a cabo pela Front islamique du salut (FIS), tendo morrido pouco tempo depois.
Os dois poemas (1989?) pertenciam a uma colectânea intitulada Pérennes. Seguem na versão portuguesa.

História

classificar a galeria de esqueletos.

refazer as datas à sua maneira.

apagar o precedente.

o patriotismo é um ofício.

Geografia

a esperança
e o seu pescoço longilíneo
de besta insaciável.

a promessa
e o seu sabão
que vai ungir as feridas.

o discurso
e o seu glossário
de vitaminas.

a paciência
e as salas de espera
obstruídas.

a cidade está imóvel
com medo de perturbar os ministérios
e a quietude dos epitáfios.

sexta-feira, 2 de março de 2012

O fim dos Impérios


Tudo indica, por artigos nos jornais, livros e dossiês de revistas recentemente saídos, ou em destaque, que a França se prepara, após 50 anos da independência da Argélia (3 de Julho de 1962), para reavaliar o que representou, na sua História, o acontecimento, os traumatismos e o regresso dos pieds-noirs ao continente europeu.
O fim dos impérios teve para quase todos os países europeus, acontecimentos semelhantes, inícios parecidos ou paralelos, e fins praticamente iguais. O desastre de Diên Biên Phu, na Indochina francesa, em 1954, pode bem comparar-se à anexação de Goa, Damão e Diu, em Dezembro de 1960, pela União Indiana; o início da insurreição da Argélia, ao começo das hostilidades em Angola, no ano de 1961. O regresso dos pieds-noirs (200.000) à ponte aérea dos retornados (cerca de 500.000) de Angola, principalmente.
Não sei se alguma vez se fará, em Portugal, um debate alargado e profundo sobre o período e as guerras coloniais. Tirando o excelente programa televisivo de Joaquim Furtado, alguns (poucos) romances sobre o tema, além de muitos poemas de Fernando Assis Pacheco, reflectindo a sua experiência pessoal de guerra, não há muito mais - creio. Temos uma forma diferente de lamber as feridas. E não temos nenhum corajoso Baltasar Garzón, para questionar o passado, até às ultimas consequências. E valeria a pena?

sábado, 2 de abril de 2011

Notas de Leitura I: Camus - "O Primeiro Homem"

O silêncio sobre a guerra da Argélia atravessa o texto em surdina: um eco de explosões e de brutalidade corta o bafo do sol mediterrânico e o peso da noite africana fechando-se rápida; na escrita de O Primeiro Homem desenha-se uma linha de melancolia e de ressonâncias bíblicas de que só a verdade é capaz.

O retrato difuso de um pai desconhecido, reinventado na figura do professor primário, por um protagonista simultaneamente criança, adolescente e adulto; a mãe que a pretexto de não ouvir traduzia o amor num olhar de silêncio com cristais de alheamento; o tio, surdo, que transformava o afecto em gestos; a avó que fazia do instinto de sobrevivência uma forma de sabedoria: recordações quase secas de passado, tenacidade e pobreza.

Por isso, mais do que a imagem improvável de Henry Cormery, morto em 1914 na batalha do Marne, Jacques Cormery quis, afinal, construir a sua própria memória, expurgando-a dos confortos da ilusão.

Os fios da realidade, que o tecido frágil da ficção não oculta, revelam-nos também, por força da incompletude e da intrínseca imperfeição desta derradeira narrativa de Camus, não apenas a oficina do escritor, a simplicidade dos seus materiais, a sua recorrência, mas, sobretudo, o modo como o fluxo da escrita confere a esses materiais simples a profundidade e o excesso próprios da vida, que se abre e se desenrola entre a chaga flor.

Quase não há análise psicológica em O Primeiro Homem, apenas registos de comportamento, e a diferença de Camus, o seu desajustamento relativamente ao ar do tempo, a frescura desta narrativa - que, recorde-se, foi encontrada na sua pasta, aquando do acidente que o vitimou em 4 de Janeiro de 1960 - está, porventura, nesse silêncio e nessa reserva, no reconhecimento da impenetrável obscuridade da natureza humana, oscilando entre o afecto e a indiferença, entre a crueldade e a compaixão, entre a contenção e a revolta. E é exactamente no sublinhar dessa estranheza, dessa dimensão algo bipolar no homem e na natureza, dessa alternância de luz e de sombra, que se encontra o melhor deste texto de Camus: uma forma de religiosidade sem crença, de generosidade laica, de amor sem objecto, que nasce da ânsia de viver e se alarga a uma espécie de fraternidade cósmica.


A pobreza é a circunstância, a condição “que não se escolhe mas que pode guardar-se”. E é no modo de encarar a pobreza, enquanto “fábrica de heroísmos mudos para a história” e onde nasce “a vergonha de ter vergonha” que O Primeiro Homem nos dá a ver, mais em forma de discurso do que em forma de romance – pois de que serviria contar a história da pobreza que não se escolhe e não dizer, de viva voz, com a veemência das palavras, o modo como a pobreza se guarda - , a maneira como, apesar do filtro burguês da educação, o pudor da coragem e o orgulho de ser capaz bastam para que o homem regresse sempre, sem trair, aos fundamentos da sua circunstância e aí reencontre, entre o rigor e a poesia, como sístole e diástole, o pulsar certo do coração da vida.

Tudo como se a virtude da pobreza tocasse a raiz de uma outra forma de aristocracia e alcançasse o luxo do despojamento sem a ganância da posse, num estado de acomodação da revolta transformada em destreza física, inteligência e emoção. Eis o retrato de Jacques Cormery e, porque não, do próprio Albert Camus.

Pela forma como excede o tecido da ficção e testemunha uma visão do mundo, por vezes incómoda nos seus silêncios, mas que cinge a condição humana na sua realidade mais profunda, em que o escrever e o pensar se conjugam e se confundem no vigor de um mesmo acto e na intimidade de um mesmo gesto, O Primeiro Homem escapa, por assim dizer, às demasias do tempo. Dir-se-ia que uma certa nudez ilumina, sem a querer explicar, a obscuridade que nos torna íntimos de nós e confere a este texto de Camus o eco de um registo clássico, uma espécie de triunfo da imperfeição, ao surpreender, nas marcas da sua incompletude, o momento em que, como diria René Char, “a lucidez é a ferida mais próxima do sol”.
Post de H.N.

PS: um agradecimento efusivo, embora discreto, a H.N. pela sua colaboração privilegiada, no Arpose.