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quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Do que fui lendo por aí... 66

 


Venade, Casa da Ramada,
Sábado, 15 de Abril de 1995

O grande acontecimento do dia de hoje, sábado, foi o aparecimento de uma poupa, com a crista que o Aquilino,  por sistema, compara ao pente das sevilhanas, a esgravatar na terra do campo da vizinha Glória.

Mário Cláudio (1941), in Diário Incontínuo (pg. 150).

domingo, 30 de junho de 2024

Memória 149

 

Por mero acaso e num zapping saudoso, demorei-me talvez um pouco mais na tv, atento, na visão do filme Doutor Jivago (1965) de David Lean (1908-1991), baseado no romance homónimo de Boris Pasternak (1890-1960). O escritor russo obtivera o prémio Nobel em 1957, polémico, numa altura em que o galardão nórdico tinha ainda uma certa credibilidade e era garantia de qualidade, embora nem sempre de isenção política. O poeta não fora sequer autorizado a sair da URSS, para receber o prémio.
Editado pela Bertrand (1965) o romance, traduzido da versão italiana por Augusto Abelaira, tinha um prefácio de Aquilino Ribeiro e uma antologia poética, no final, em versão de David Mourão-Ferreira - foi um sucesso de venda, na altura, naturalmente. Consumi a minha Mãe para comprar o livro, que não era barato, mas acabei por nunca o ler todo. O filme é que me ficou na memória. O elenco era imponente: Julie Christie, Omar Sharif, Geraldine Chaplin, Rod Steiger, Alec Guiness, Ralph Richardson...
Não esquecendo a banda sonora de Maurice Jarre.

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Divagações 190



Esta semana começou, finalmente, com um dia soalheiro, mas que pouco durou. Embora o azul regressasse. Pois que, na passada, depois das orvalhadas tipo S. João, amanhecia sempre por entre nevoeiros espessos que convidavam a perdermo-nos ao sair para a rua.
Coincidiu, nessa altura, que eu tentasse localizar, em data, o ano de publicação de algumas obras de Aquilino Ribeiro (1885-1963). Ora, ao contrário da Portugália, muito precisa nesse tipo de informações , ou da Relógio D'Água, a Bertrand nem sempre fornece, no livro, esses dados importantes. Suspeito das razões e, se não fosse Aquilino dar nota da data do final da escrita de algumas das suas obras, ou na dedicatória ou prefácio inicial, teríamos ainda mais dificuldade  em situá-las. A Editora Bertrand prefere falar de milheiros do que dos anos de publicação. E, deste modo, até podemos ficar perdidos pelo nevoeiro do tempo...



terça-feira, 1 de agosto de 2023

Adagiário CCCLVI



Da galinha, a preta, da pata, a parda, da mulher, a sarda.*

* Aquilino Ribeiro (1885-1963) refere este provérbio em Terras do Demo.

sábado, 1 de outubro de 2022

Adagiário CCCXLI




Grande é o Marão e não dá palha nem grão.


in O Homem da Nave (pg. 17), de Aquilino Ribeiro (1885-1963).

sábado, 24 de setembro de 2022

Esquecidos (11)



Se gosto de pensar que, como poeta, Vitorino Nemésio (1901-1978) ainda é lido e apreciado, tenho grandes dúvidas que como prosador seja muito frequentado, hoje em dia. Como contista ou romancista, o autor açoriano, do ponto de vista de riqueza vocabular, está muito próximo de Camilo ou de Aquilino.
De fazer inveja aos plumitivos de agora, que são muito poupados quanto a dicionários e seu uso.
Fortuitamente, reli recentemente o segundo conto (I'm very well, thank you!) do livrinho, em imagem, da colecção Mosaico. São apenas 8,5 páginas de prosa, mas por lá encontrei 11 palavras que deconhecia. Fazendo uso de vários dicionários, consegui deslindar 7 palavras. Ficaram-me porém ainda 4 vocábulos por decifrar. 
Que aqui vão, para quem souber:
1. trancador
2. papejar
3. areúscos
4. estreloiço.
Serão regionalismos açorianos? É o que fiquei por saber...

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Recomendado : oitenta e oito


Passa hoje mais um aniversário (12 de Fevereiro de 1929) sobre o nascimento do escritor Nuno Bragança, falecido prematuramente em 1985. Obra curta, vida cheia, os seus dois últimos livros são já prematuros. A qualidade da sua escrita, e a originalidade da sua prosa grangearam-lhe uma fugaz popularidade entre os leitores, sobretudo, em 1969, aquando da saída de A Noite e o Riso, que é porventura o mais conhecido romance de Nuno Bragança. 


Prefiro-lhe, no entanto, a sua segunda obra (Directa, 1977), talvez mais clássica e menos experimentalista, cujo final comparo, em qualidade, com o bem arquitectado início de A Casa Grande de Romarigães (1957), de Aquilino Ribeiro. Pegue-se por onde se lhe pegar, venho recomendar a quem gosta de ler, que abra um dos livros de Nuno Bragança. E faça a experiência da sua leitura. Não se arrependerá, por certo. 



quarta-feira, 13 de maio de 2020

Da leitura 37


Nem sempre percepciono e avalio, com suficiente concentração e rigor, pelo início de um livro a sua qualidade literária. Primórdio que serve de amostra e, muitas vezes, antecipa o futuro gosto de leitura, ou o seu contrário. Mas só por muito embotado das meninges e indiferente, é que passaria despercebido, a alguém, o singular princípio de Cenas Contemporâneas, de Camilo, ou a construção prodigiosa da floresta de Aquilino, nas primeiras páginas de A Casa Grande de Romarigães - creio eu. 
Pois, embora não sendo genial, não me pareceu mal o início de uma biografia de Justin Kaplan (1925-2014), que ele fez sobre o grande poeta norte-americano Walt Whitman (1819-1892). E como gostei do primeiro parágrafo, aqui o vou traduzir, para melhor o apreciarem:

Na Primavera de 1884 o poeta Walt Whitman comprou uma casa na desinteressante cidade de Camden, New Jersey, e com a idade de sessenta e cinco anos dormiu sob o seu próprio teto pela primeira vez na sua vida. ...

(excerto, para versão portuguesa, de Walt Whitman - A Life (Simon and Schuster, NY, 1980).

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Uma louvável iniciativa 56


A classificação de escritor regionalista funciona para muita gente como um anátema. E, nessa medida, João de Araújo Correia (1899-1985) está na mesma linha que um Aquilino ou um Tomaz de Figueiredo, o que, no meu modesto entender, é uma lídima tradição portuguesa.
O jornal Público tem vindo a fazer acompanhar, as Terça-feiras, de um bónus que é um livro de escritores médicos. Ontem, calhou a vez de Araújo Correia. Cada volume - edição fac-similada da primeira publicada - custa 6,90 euros. Que me parece um preço justo.
Aqui fica a informação a quem possa interessar.

terça-feira, 23 de julho de 2019

Já não há prosas silvestres


As novas gerações, maioritariamente, abandonaram os campos, as vilas e aldeias. Dificilmente os jovens reconhecerão, hoje, o cheiro do estrume de cavalo ou saberão identificar, à vista ou pelo cantar, um rouxinol. Longe vai o tempo dos romances bucólicos de Júlio Dinis ou da tensa ironia rural da prosa camiliana, feita a transição adequada de Aquilino e depois do paroxismo ideológico dos neo-realistas, que também se mudaram para ficções citadinas, um pouco mais tarde. Ainda que alguns jovens artistas alternativos, agora, talvez por razões de sossego, poupança e marca distintiva de diferença, possam habitar Santiago do Cacém ou Ourique, Vila do Conde ou Bobadela, é de Nova Iorque, Veneza, Trieste ou Reiquiavique que eles gostam de falar, para se darem a ares de cosmopolitas e viajados. Mas também com os potenciais leitores se deve passar o mesmo. Embora seja sempre gratificante batermo-nos, rija e saudosamente, com as poesias e prosas límpidas e autênticas de um J. Riço Direitinho, agrónomo, ou de um Pires Cabral, transmontano, ainda vivos, que são talvez os últimos abencerragens desses cenários de ruralidade literária portuguesa de antanho, ainda que presente.
Mas aos novos, falta muitas vezes o nervo, as causas, a ossatura do real e até verdadeiros motivos para prosas maiores. Perdeu-se, entretanto, o cheiro das urbes, dos cafés fumarentos e linguarudos, da exiguidade das caves suburbanas que ainda povoam alguns dos romances de Cardoso Pires e Nuno de Bragança, por exemplo. E parece que nada se ganhou em troca. Até a poesia é etérea e voltou a ser domínio e obra de finos nefelibatas ou de obesas associadas das casas de Sta. Zita.
Desse abandono dos campos, em parte, se herdou também essa fogueira cíclica dos incêndios desmesurados no Interior português. E eu pergunto-me se algum destes novos prosadores seria capaz de ensaiar alguma novela de jeito com cenário sobre esse flagelo maior e real que, todos os anos, nos atinge nessas zonas rurais de quase total ermamento. Mas será isso deveras importante?
No plano intelectual é bem provável que não...

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Da riqueza e das dificuldades da língua portuguesa


Comecei a ler Aquilino já tarde. Creio que pelos idos de 70. Mas já me habituara a identificá-lo pelas capas sóbrias das suas obras, editadas pela Bertrand. Na Póvoa e por Agosto, costumava ver um advogado, frente ao mar e reclinado na sua cadeira de lona, absorto em leituras aquilinianas; o pai do meu amigo Chico, que era médico, também não dispensava, nas férias balneares, o seu Aquilino, repimpado frente ao Atlântico poveiro.
Quando me iniciei nas leituras aquilinianas não estranhei muito o seu vocabulário luxuriante. Já frequentava Guimarães Rosa, nessa altura, bem como o minhoto Tomaz de Figueiredo, para não falar de Camilo, que caprichava em usar as palavras exactas. O transmontano, médico também, João de Araújo Correia, veio mais tarde à minha mão. Também ele purista, terrunho, rico em aplicar tesouros e termos quase esquecidos em tudo aquilo que escrevia.
Há dias, comprei mais um livro dele, de contos (23) curtos, distribuidos por 97 páginas. Usado custou-me apenas 2,50 euros. Pequena monta para tanta riqueza lexical. Logo, nas duas primeiras e breves narrativas, me deparei com 6 estranhas palavras de que só conhecia, por vaga ideia, três delas. Que aqui deixo:
1. lambisqueira
2. galhipo
3. madrigueira
4. estriga
5. prear
6. calipígia.
Tenho grandes dúvidas que as novas gerações sejam atraídas para estas leituras, que lhes serviriam de enriquecimento notório da sua limitada língua portuguesa que, resumidamente, praticam. Sempre frenéticos e à procura de qualquer novidade estridente, estas antiqualhas devem parecer-lhes odiosas. Mas, com isso, estarão cada vez mais condenadas aos grunhos quotidianos do costume. E é pena!

para a Maria Franco, que é fã de Araújo Correia, com estima.

terça-feira, 24 de julho de 2018

A facilidade e o entretenimento


Com a ligeireza característica que é apanágio da reflexão bloguística, vou escrever uma blasfémia (só para alguns) foleira: Eça é melhor que Camilo. Que tenho grandes dúvidas em subscrever.
Predominantemente, como em todos os países europeus, e até finais do século XIX, a literatura portuguesa situou-se em cenários rurais, onde, aliás, grande parte da população vivia.
Eça, por cá, foi a grande excepção, Camilo, a regra.
Depois, o neo-realismo do sul da Europa, sobretudo, acabou por prolongar essa agonia.
É evidente que há grandes romances de cenário rural, por esse mundo. De Lampedusa, de Steinbeck, até de Mauriac. Mas tão só de grandes escritores, que, em Portugal, não são muitos. Façamos então justiça a Camilo e a Aquilino, cada vez menos lidos. Pelos mimosos citadinos lusitanos.

sábado, 16 de setembro de 2017

Divagações 125


Eu creio que os escritores, ditos regionalistas, estão em queda livre, nas preferências dos leitores.
E também sempre achei que Aquilino Ribeiro (1885-1963) estava para a Beira Interior, assim como Tomaz de Figueiredo (1902-1970) se posicionava para o Minho. Sem comparar qualidades.
O que eu não esperava, é que pudesse vir a comprar, em S. Martinho de Anta, e sob o alto patrocínio de Miguel Torga (1907-1995), um voluminho simpático e bonito sobre a vida e obra do autor de Nó Cego (1950). Mas assim foi, e bem, que o livro é merecedor e o romancista bracarense, também.



Conheci-o, de vista, já lisboeta adaptado, em meados dos anos 60, no Café Ceuta (Av. da República), perorando a uma mesa do canto, entre o poeta Mendes de Carvalho (1927-1988) e a, depois, actriz, Maria do Céu Guerra (1943). Falaria do Minho, com certeza, e das suas andanças passadas, dos seus cães e caçadas, mas também da sua meninice, naquele seu muito próprio vocabulário antigo e riquíssimo de que os seus livros estão engrinaldados. Eu não trocaria os seus Tiros de Espingarda (1966) por quantos tordos já se publicaram; nem o Dicionário Falado (1970), interessantíssimo, eu trocaria pela prosa deslavada do mãezinha caxineiro. Que a prosa de Figueiredo é como prata de lei... Desconto-lhe a poesia, que é fracotinha.



Pois, do Centro Miguel Torga, lá trouxe esta monografia sobre as andanças de Tomaz de Figueiredo, para matar saudades do seu linguajar minhoto, genuíno. E fiz muito bem. Regalei-me...

quinta-feira, 23 de março de 2017

Aquiliniana, sobre batatas


Rudimentar, mas sábia e talvez útil, esta informação agrícola colhida em Aquilino Ribeiro (1885-1963), no seu Cinco Réis de Gente (1948), assim:

"- Como se obtêm essas batatas, ó abade? Por intercessão dos santos... ou que milagre é este?
- Não é milagre, meu ilustre amigo. Qualquer pecador da serra tem esta regalia.
- Pois olhe, eu na quinta, apesar de todos os adubos, não consigo nada que se pareça.
- Não consegue, não. São privativas deste solo pobrinho. O segredo está nos três quindins: terra granita, água granita, e caganita, com perdão de Vossa Excelência."

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Da antiga Porcalhota (Amadora)


É pelos antigos, quase sempre, que nós descobrimos coisas novas para enriquecer a nossa sabedoria. Da Amadora, que fora Porcalhota até 1907, sabia eu. E não era novidade que o nome sujava o brio dos seus moradores, para lhe quererem mudar o seu topónimo para coisa mais asseada...
Mas, porquê Porcalhota?
Pois fui encontrar a explicação em Aldeia, de Aquilino Ribeiro (1885-1963), de forma muito linear, lógica e compreensiva. Aqui ficam, por isso, as palavras do Mestre:
"... Em pecuária se cifrava a primeira riqueza da aldeia. Numa parte da serra, comunal desde a pedra de arranque ao mato galego, pastava o gado lanígero, na outra os suínos. Chamava-se dar porcos ao fintão, confiá-los a tanto por cabeça a um guardão que todas as manhãs vinha, tangia a sua corna de chifre, e abalava com as varas para o monte. No século XVIII ainda se usavam tais contratos nos arredores de Lisboa; daí Porcalhota, pastagem dos ditos. ..."

domingo, 12 de junho de 2016

Apontamento 79: Abóboras [não] no Telhado, mas na varanda a leste



Embora tenha escolhido, ontem à noite, um livro de Aquilino Ribeiro para reler, não quero falar das Abóboras no Telhado. As nossas, como mostra a fotografia, estão a espalhar-se num recanto da varanda a leste.

Sem ter experiência anterior, parece que já há vários rebentos de flores. Se assim for, não sei como possa segurar, depois, as ditas abóboras, porque vieram de uma “mãezinha” bem grande. Aliás, o caso foi assim.

Antes do Natal, e para fazer os meus bolinhos de Jerimú, recebi uma enorme abóbora-menina. Abri-a e aproveitei quase tudo. No meio, descobri umas pevides com a casca aberta e rebentos já “verdinhos”. Ora, resolvi pôr pevides num vaso vazio, mas com terra, na varanda.

Surpresa das surpresas. Há umas três semanas, a nossa abóbora não pára de crescer e tomar conta de um espaço da varanda. Hoje foi o dia de colocar novos tutores para ver se ela se disciplina na sua ânsia de procurar novos caminhos.

E Bom Domingo !

Post de HMJ

quarta-feira, 16 de março de 2016

Uma perspectiva transversal da literatura portuguesa, de Óscar Lopes, a propósito de Aquilino


A sistematização ampla de sintomas e a caracterização geral do perfil e temáticas, que pontuam e definem a literatura portuguesa, são raras. No entanto e do meu ponto de vista, a análise a que Óscar Lopes (1917-2013) procede, ao abordar a obra de Aquilino Ribeiro (1885-1963), na Colóquio-Letras 85 / Maio de 1985, parece-me uma exemplar sinopse. Daí a transcrição, que faço a seguir, de um excerto nuclear das palavras de Óscar Lopes:

"...Outro exemplo, e esse é que faz ao caso, é o seguinte: há na literatura portuguesa uma grande carência de tudo o que seja expressão exuberante da simples alegria de viver, de viver, viver, mesmo apesar e através das maiores agruras ou tragédias. A saudade e a tristeza são o grande emblema da nossa lírica e da nossa novelística, e já contra elas se levantava D. Duarte, que tinha costela inglesa. Ver os grandes dramas individuais ou colectivos como uma grande festa para os olhos, para os sentidos, para o corpo e para a inteligência, para a inteligência e para a fantasia, não é típico da atitude literária portuguesa, embora, evidentemente, ocorra aqui ou além em Fernão Lopes, Gil Vicente, n'Os Lusíadas e na Peregrinação de Mendes Pinto. A atitude literária portuguesa típica é a de meditar sobre as razões de se ser triste, sobre as contradições do nosso contentamento descontente, sobre o além (ou a ausência causal) de todas as nossas insatisfações. Tipicamente, o poeta ou ficcionista português não se permite um espectáculo, um conflito, um enredo, sem a competente retórica justificativa, sem que tudo isso sirva de pretexto a um encarecimento, uma apologia, uma lição de doutrina ou moral. A alegria em estado puro e ainda por cima bem consciente de si, a perfeita reconciliação com a natureza de que nascemos ou da natureza que connosco se descobre e refaz, ou seja, aquilo a que se chama o naturalismo do Renascimento, ou o aspecto por assim dizer solar (e não lunar) do naturalismo do séc. XIX, o próprio saborear da vitalidade humana a contas com as misérias e prepotências do mundo, tal como se espelha na novela picaresca espanhola, pode dizer-se que tudo isso irrompeu em força, e subitamente, nas letras portuguesas com Aquilino Ribeiro, e com uma exuberância ou diversidade de manifestações que contrasta com a raridade dos hossanas portugueses ao Sol, com o coro quase geral dos poetas da lua e da sombra, salvas poucas e pouco variegadas excepções em que, ao tempo de Aquilino Ribeiro, uma geração antes e outra geração depois, eu destacarei CesárioVerde, Almada-Negreiros e Miguel Torga. ..."

domingo, 31 de janeiro de 2016

As cidades e as serras


A actual ficção portuguesa é, retintamente, urbana. Talvez pela negativa. Houve tempo em que eu pensava que, prosa e poesia, lusas, seriam eternamente bucólicas, campestres, verdejantes ou acastanhadas pelo Outono. Mas o neo-realismo excedeu as medidas, saturou, numa obrigação ideológica que pouco tinha de natural. Entretanto, as populações foram abandonando o campo e as serras interiores, para os trocarem pela terra prometida das cidades. Seminários e Escola do Exército (Academia Militar) forneciam, também, o trampolim necessário ao desígnio dos mais ambiciosos e inteligentes, embora fatidicamente pobres: assim, Aquilino, assim, Vergílio Ferreira...
Ficaram, no entanto e actualmente, em alguma da literatura portuguesa, vestígios residuais: um lado muito provinciano de ver a vida, um apetece-me estar em paraísos artifíciais, uns piercings caracterizantes de mais nada, um ronceiro hábito de cafés cosmopolitas, uma fome de séculos, uma miopia de civilização natural, um lado patego e irreal de imaginar as metrópoles mais emblemáticas. E uma enxúndia barroca de palavras que ainda cheira a estrume e folhas mortas, na sua origem, agora artificial, irrealista, irrelevante. Porque não era assim, dantes, nem lembrava o falso, quando de cenários se falava, ou de viver se escrevia.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Mais um ex-libris


É este o terceiro ex-libris que, por aqui, se apresenta com destaque. Anteriormente, nos ocupámos dos de Aquilino Ribeiro e Georges Simenon, de forma casual.
Franz Paul de Almeida Langhans (1908-1973?), historiador e heraldista, foi personagem secundário do anterior regime. Filho de mãe portuguesa e pai de origem alemã, chegou a ser secretário particular de Salazar, de 1951 a 1961, cargo que abandonou para integrar os quadros superiores da Fundação Gulbenkian. A sua obra mais conhecida é, talvez, Casa dos vinte e quatro... (1948), que teve prefácio de Marcelo Caetano.
O livrinho, que ostenta o barroco ex-libris de Langhans, é uma magnífica antologia (Oxford University Press, 1956) do plurifacetado escritor inglês G. K. Chesterton, feita pelo galês D. B. Wyndham Lewis (1891-1969), que também assina um documentado prefácio.

Os melhores agradecimentos a H. N..