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domingo, 24 de setembro de 2017

Bibliofilia 157


Para quem, embora por breves anos, teve que se submeter ao RDM, as suas exigências legislativas não deixavam, nalguns aspectos, de ter alguns pormenores ritualistas, insólitos e caricatos. Em pleno séc. XIX, ainda dele constava a obrigatoriedade, por exemplo, dos sargentos saberem ler e escrever, porque, na altura, muitos dos fidalgos, em postos superiores, eram analfabetos...
Creio que o mais recente Regulamento de Disciplina Militar foi actualizado em 2009.
E, se hoje nos servimos da prata da casa, no que à organização das forças armadas diz respeito, não podemos esquecer o genovês Micer Manuel Passanha ou Pessanha que, no tempo do rei D. Dinis, veio reorganizar a nossa Marinha. Ou o alemão Conde de Schaumbourg Lippe (1724-1777) que dotou o Exército português do que julgo ter sido, em 1763, o seu primeiro RDM, escrito.



De há muito que eu ambicionava possuir este Regulamento para o Exercicio, e Disciplina dos Regimentos de Infantaria..., do Conde de Lippe. Só que era livro sempre muito disputado, e que saía caro, em leilões. E tinha preços muito altos, em alfarrabistas, que excediam o valor da minha curiosidade marcial. Sendo que a figura do Conde Reinante me fosse simpática, mais não fora por ter dado o nome à famosa Sopa de Lipes ou Condelipas (José Quitério dixit), no Algarve, por muito ele a apreciar. Feita à base de Conquilhas, talvez da Ria Formosa.



Pois saíu barata a feira, afortunadamente. Que o livro, tirante a encadernação desgastada, que HMJ prontamente restaurou, é de papel encorpado e tem o miolo impecável. Dei por ele 18 euros, que foram muito bem empregues. E não sendo da primeira edição, permite-me consultar o RDM, na perfeição, cá por casa. Agora, desportivamente, e que já não estou sujeito, há muito, à servidão militar...

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Memória 38 : Camilo Pessanha


O desejo de aniquilamento ou, com mais rigor, de apagamento, é uma das matrizes mais constantes da poesia de Camilo Pessanha (1867-1926). Já o gravara, em epígrafe, no início de "Clepsidra": "...No chão sumir-se como faz um verme..." Não sei se essa vontade parte da desesperança de um amor desencontrado por uma ascendente do poeta António Osório, ou se, com o próprio ópio - de que usava e abusava -, era apenas uma expressão exterior que correspondia a um desejo mais profundo, a uma acédia (vide: Cioran e Fernando Pinto de Amaral), que já crescera com ele. Que sabemos nós dos poetas e dos homens? Que lemos, quando lemos os poetas, senão a nós mesmos, também? Procurando, talvez (e tantas vezes), uma sobreposição imprecisa, o ajuste com o nosso negativo fotográfico (revelado), um reequilíbrio, uma certeza - sobre a Vida.
Ainda descendente desse Almirante Pessanha que veio de Itália, no tempo de el-rei D. Dinis, para reorganizar a nossa Marinha, as idas e vindas que Camilo Pessanha fez (não muitas, aliás) de e para Macau, terão talvez suscitado, no seu olhar visionário, uma sobreposição genética e ancestral com o seu antepassado medieval. No dia de aniversário do seu nascimento, foi assim a razão de ter optado por este belo soneto.

Singra o navio. Sob a água clara
Vê-se o fundo do mar, de areia fina...
- Impecável figura peregrina,
A distância sem fim que nos separa!

Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente cor-de-rosa,
Na fria transparência luminosa
Repousam, fundos, sob a água plana.

E a vista sonda, reconstrói, compara.
Tantos naufrágios, perdições, destroços!
- Ó fúlgida visão, linda mentira!

Róseas unhinhas que a maré partira...
Dentinhos que o vaivém desengastara...
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos...