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quinta-feira, 30 de julho de 2020

Memória 136


Ainda bem que o jornal Público, de hoje, pela voz escrita do jornalista Viriato Teles, nos lembra Mário Castrim (1920-2002), na véspera do dia de centenário do seu nascimento.
Ao contrário do que pensava quem não o conhecesse pessoalmente, a imagem que dele passava era a de um intransigente agressivo, pelas suas diárias críticas de televisão.
Nada mais errado. No contacto directo, era um homem afabilíssimo, sabia ouvir, flexível nas coisas que não pertenciam ao núcleo duro daquilo que eram as suas convicções mais íntimas e profundas.
E, na sua simplicidade, cultura, sentido crítico apurado era, também, um grande pedagogo. Que faz muita falta, sobretudo hoje, em que estas qualidades ou virtudes são inexistentes ou residuais...


Um abraço amigo à Alice, se por aqui passar, por mero acaso.

domingo, 28 de julho de 2013

Alice


Sabe bem, como ontem me aconteceu, rever uma cara amiga, mesmo que tenha sido na RTP2, em entrevista ao "Bairro Alto". Alice Vieira (1943) mantém a vivacidade transbordante e a alegria de viver, que sempre lhe conheci, bem como o sentido solidário de estar com os outros.
Mas deixou também alguns apontamentos pitorescos que me fizeram sorrir. Desde as mutilações "politicamente correctas" que se fizeram, e têm feito, às obras de Enid Blyton (a cerveja de gengibre, que os jovens bebiam, transformada em limonada, para não chocar as almas cristãs e sensíveis), até à tradutora portuguesa que achava que as criancinhas não tomavam banho e, por isso, de tantas em tantas páginas, intercalava um banho, que não existia no livro original - devia ser muito limpa, esta senhora...
E, depois, aquela carta do despedimento do jornal onde escrevia (DN?), em que se desculparam dizendo: que gostariam de ter uma "informação mais aconchegante" (bonito!). Alice não percebeu, na altura, mas poucos dias depois, ao ler um título da primeira página desse jornal (dizia: "Professor badalhoco viola aluna") compreendeu o alcance do "aconchegante".

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Os meus títulos do dia

Aqui fica uma estreita selecção das notícias que me pareceram mais importantes, no jornal Público de hoje:
- Alice Vieira põe em causa rigor no Plano de Leitura.
- MP arquiva suspeitas de juízes sobre Sócrates.
- A agressão dirigida a pessoas no poder pode aumentar, tal como os suicídios.
- Já falta comida na mesa dos espanhóis.
Mas também me parece útil transcrever um parágrafo clarividente de Rui Tavares, inserto na sua crónica intitulada "Estúpida Europa". Assim: "...Os nomes dos lugares mudaram, a linha mudou também. Antes a cortina de ferro dividia a Europa em duas metades pela longitude: Leste de um lado e Oeste do outro. Agora as duas metades estão divididas pela latitude, entre Norte e Sul, por uma cortina da dívida. ..."
Até porque as ditaduras podem ter muitas formas...

sábado, 2 de junho de 2012

Um poema de Alice Vieira


2
eu gostava de poder dizer
que entrei no teu corpo como um pássaro
espreitando de invisíveis ruínas
e que o som da tua voz bastava
para me salvar

mas de nada serve inventar palavras
quando as palavras que inventamos
não passam de frágeis lugares de exílio
dos gestos inventados fora de horas
delimitando o espaço de tantas mortes prematuras
de que jurámos ressuscitar um dia

- quando os deuses se lembrassem
de acordar ao nosso lado

Nota: nem toda a gente saberá que o primeiro livro publicado por Alice Vieira (1943) era de poesia, e se intitulava "De estarmos vivos" (1964). No entanto, o grande sucesso de "Rosa, Minha Irmã Rosa", publicado no ano de 1979, de algum modo a "condenou" a vir a ser uma autora de referência na área da literatura infanto-juvenil. Não sei até que ponto, a Poesia não terá perdido com isso...

domingo, 6 de novembro de 2011

Retratos (5) : M. Castrim


Não era alto, mas entroncado e de aspecto sólido. Óculos grossos, botas normalmente, e um sorriso ligeiro e amigável sempre a despontar nos lábios. Sabia ouvir. Nascera em Ílhavo a 31 de Julho de 1920, e eu sempre me dei bem com os nativos de Leão. O Mário (pseudónimo de Manuel Nunes da Fonseca) claudicava de uma das pernas - sequela de uma tuberculose óssea durante a adolescência -, e apoiava-se  numa pequena bengala, ao andar. Conheci-o em 1964 ou 1965. A minha memória obstina-se em situar, alguns dos nossos encontros, no Calhariz, ou porque ele viesse do elevador da Bica, ou porque se tivesse apeado do 28. Mas seriam coincidências a mais... No entanto ele dava aulas na Escola Ferreira Borges, e o local faz algum sentido.
De qualquer forma, percorremos ambos, algumas vezes, a Rua Luz Soriano, até chegarmos ao DL. Depois, com vagar, subíamos as escadas, até à sala do DL-Juvenil. Frequentemente nos cruzamos com o F. Assis Pacheco, a descer. As reuniões eram à segunda-feira, de tarde, e foram muitas vezes encontros angustiosos, porque a Censura tinha cortado quase tudo das provas do "Juvenil", que lhe eram mandadas previamente para o "nihil obstat". E, nestes casos, havia que seleccionar segundas escolhas (textos, poemas...) para que as páginas não ficassem vazias, no dia seguinte. De uma vez, foi um texto meu, inócuo, que foi riscado integralmente pela Censura, só porque tinha, em epígrafe, uma frase (ou verso?) de Sophia Andresen.
O Mário era de uma afabilidade extrema e ninguém o poderia imaginar, se o conhecesse apenas dos textos contundentes e aguerridos, que escrevia no "Diário de Lisboa", de crítica à televisão. No "Juvenil" houve, muitas vezes, reuniões tumultuosas lideradas pelo Nuno Rebocho, que se opunha à sábia moderação do Mário. O Nuno, em tenra juventude, literariamente queria atacar e destruir o regime (Estado Novo) através da poesia. Grande parte dos seus poemas, berrantemente, se intitulavam "Manifesto (I, II, III...)" e, aí, o Mário, paciente, prudente e moderado, procurava conter, racionalmente, a ira adolescente do Rebocho.
Eramos tratados por "amigos", na sua voz bem timbrada, suave e afável, que nunca se alterava. E, na sua justa medida, o Mário era um verdadeiro chefe, na tribo. E foi assim até 1968, quando fui para a tropa.
Ao Mário, foram chegando, primeiro a Alice. Depois, a Catarina e o André. Depois, a morte, em 2002.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Retratos (2) : o Catitinha


Diziam que tinha sido advogado, mas que deixara de praticar porque tivera um desgosto, mas de concreto quase nada se sabia dele. Vinha inesperadamente, mas as crianças, na praia, sabiam que ele vinha sempre, pelo Verão. De Norte a Sul, pelo litoral, de Vila Praia de Âncora até à Figueira, pensava eu, até que soube que a Alice Vieira também o conhecera em Cascais: era o Catitinha. Sempre aperaltado de cerimónia, à torreira do sol, tantas vezes, sempre de gravata, bengala de castão de prata, cabelo crescido e espesso, todo branco, já nos anos 40 do século passado. Parecia um Pai Natal, fora de época, e sem barbas. Tez queimada pelo sol marítimo e, sempre, com o seu longo apito de metal que tocava, sincopado, para anunciar a presença. Chegou a comer lá em casa, pelo menos, uma vez, tinha modos urbanos e palavra serena, mas não me lembro da conversa desse almoço.
As famílias costumavam convidá-lo para comer e dormir, porque era pessoa educada e de bons costumes. Mas o seu terreno ideal eram as praias, onde multidões de crianças o seguiam em algazarra feliz, ao longo do litoral das barracas, em paralelo ao mar. E ele sempre apitando, a espaços. De vez em quando o grupo parava para a fotografia da praxe. O Catitinha era muito fotogénico e posava, com ares profissionais, de modelo habituado. Fazia o percurso das praias, de norte a sul, por comboio, ao que se dizia. Também constava que o seu amor pelas crianças se devia à morte da única filha, que fora atropelada, muito jovem ainda. Nunca soube donde ele era e julgo que ninguém sabia, ao certo.
Tinha os seus mistérios de intimidade que ajudavam a fortalecer o seu carisma natural. Mas todas as crianças tinham nele uma confiança inabalável, e segura. E os pais, também. A sua figura, alta e forte, parecia a de um profeta bíblico, de cabelos ao vento...  

sábado, 20 de março de 2010

Duplo Aniversário





Beniamino Gigli (1890-1957), grande cantor italiano, nasceu a 20 de Março.

Alice Vieira (1942), amiga de juventude e do "DL-Juvenil", também nasceu nesta data. Como ela dizia, no seu livro de estreia literária "De Estarmos Vivos" (1962): "(recordar só é bom / quando para lá do silêncio há um pássaro deslumbrado)". Parabéns, Alice!