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quinta-feira, 20 de março de 2025

Idiotismos 52

 

É minha convicção que o léxico vernáculo português cada vez será mais reduzido, em benefício do inglês ou do vocabulário espúrio norte-americano. Creio que isto terá começado de forma mais acentuada, pelos anos 60 do século passado, no Algarve, sobretudo a nivel comercial, alastrando depois para outras áreas.
A proximidade temporal da Páscoa, levou-me, entretanto, a consultar um pequeno opúsculo, de Américo Cortez Pinto (1886-1979), que aborda, de forma competente palavras relacionadas com esta época religiosa: 
1. Pascácio* que, inicialmente, significava "o que nasceu na Páscoa"; ou cara de Páscoa.
2. Pasconso*, composto de Páscoa e Sonso.
3. Sonso, finalmente, talvez proveniente do espanhol "zonzo", mas também com o significado de sem sal. Do latim insulsu. Ou ainda: artificial, disfarçado e mentiroso.
Aqui ficam, assim, alguns esclarecimentos complementares sobre estes vocábulos relacionados com a Páscoa.

* estas duas palavras, na minha juventude, eram também aplicadas a pessoas limitadas ou palermas.



segunda-feira, 1 de abril de 2024

Revivalismo Ligeiro CCCXXVII


Além da canção Penina (1968) que resultou da passagem de The Beatles (Paul McCartney) pelo Algarve, ficou também este Ciao, Porto, muito obrigado (1960), da estadia e exibições de Marino Marini (1901-1980) e do seu conjunto pela Invicta. Recordo que, apesar da pobreza ou simplicidade da melodia e letra, esta música, nos anos 60, era até muito tocada em bailes de província, pelo menos, e entre os adolescentes da época.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Contra a Corrente: Abater o ABACATE !

 


Seja permitida uma opinião pessoal: o abacate, "coqueluche" recente de gentinha, embora de cheiro bastante duvidoso próximo da água do bacalhau demolhado, nunca entrou na minha área de preferência. Até, porque não gosto, de todo, modas que não têm sustentabilidade.

Não costumo comprar, por uma questão de saúde mental, bananas da América do Sul - pretensamente biológica - havendo, à porta, bananas da Madeira e dos Açores.

Com efeito, ficava bem ao Governo em Exercício limitar a produção de abacates, destinados a meia dúzia de clientes, salvaguardando, isso sim, os pomares de citrinos do Algarve. 

Oxalá que o Governo em Gestão tome a última medida a salvaguardar a produção nacional contra as espécies invasoras, sem igual, nem futuro !

Prefiro laranja a esta mal-cheirosa papa.

Poste de HMJ 

domingo, 27 de agosto de 2023

Vai sempre a tempo...



Como dizia George Steiner (1929-2020) vale sempre a pena não morrer hoje, pela curiosidade de ler o jornal de amanhã (quando os jornalistas ainda tinham alguma qualidade profissional, acrescentaria eu). Pois, nessa mesma perpectiva e neste último mês, aprendi o nome e provei duas novas qualidades de frutos, que eu não conhecia de todo.




Foram eles: a pêra coche e os figos orelha mula. Estes últimos de pequena produção e originários do Algarve. A pêra, rijinha e o figo dulcíssimo. Por aqui ficam as imagens.



domingo, 28 de agosto de 2022

Uma fotografia, de vez em quando... (162)



Fulvio Roiter (1926-2016) nasceu e morreu em Veneza, cidade italiana de que deixou inúmeros registos visuais bem sucedidos. Editou cerca de um centena de livros de fotografia, tendo recebido, em 1956, o prestigiado Prémio Nadar, pela sua obra Ombrie. Um tema recorrente dos seus instantâneos é o contraste entre a nitidez (proximidade) e o vago da neblina de uma certa desfocagem (da distância).




De Veneza, do Brasil à Andaluzia, passando pelo Algarve, Fulvio Roiter deixou-nos alguns belos e significativos testemunhos que justificam que aqui o recordemos.




terça-feira, 9 de julho de 2019

Algaravias (12, e último)


Tenho a ideia que, das antigas províncias portuguesas, as nortenhas (Minho e Trás-os-Montes) são as mais ricas em regionalismos locais, bem como uma parte das Beiras, o Alentejo e o Algarve. Todas elas integraram já as respectivas temáticas, aqui no Arpose.
Por hoje, se finalizam os regionalismos algarvios, recolhidos e seleccionados da obra Dicionário do Falar Algarvio do Falar Algarvio, de Eduardo Brazão Gonçalves, como se seguem.

1. Umbigada - extremidade do aparelho urinário dos animais, especialmente referido a suínos e bovinos.
2. Untura - sova.
3. Vairinha - mulher irrequieta, leviana, de pouco assento.
4. Veranilho - tempo quente e seco de curta duração, especialmente o verão de S. Martinho.
5. Vergalheira - aparelho genital dos machos corpulentos, como cavalos, bois, etc.
6. Xaraval - grande quantidade.
7. Zambareta - desequilibradamente.
8. Zangarilho ou Zingarilho - indivíduo muito alto.
9. Zaro - diz-se de uma variedade de figos redondos e pardos.
10. Zurreira - fumarada.


sexta-feira, 21 de junho de 2019

Algaravias (11)


Desta vez, seguem-se, penúltimos, alguns regionalismos iniciados por s e t, seleccionados da obra Dicionário do falar algarvio, da autoria de Eduardo Brazão Gonçalves.

1. Sagorro - casmurro, bicho-de-mato; pessoa de maneiras pouco polidas; zorro.
2. Salapica - termo utilizado para designar as pessoas ruivas com sardas.
3. Salso - embirrento; maçador.
4. Sementão - animal de cobrição.
5. Sògueiro - sonso; que pratica actos que não seriam de esperar; manhoso.
6. Talamoncada - pancada forte.
7. Tàpiço - avental.
8. Toira - tacho.
9. Traçana - o que gosta de criticar, de dizer mal dos outros.
10. Triosga - bebedeira.

terça-feira, 4 de junho de 2019

Algaravias (10)


O primeiro regionalismo algarvio deste poste despertou-me algumas dúvidas, por o ter relacionado com o cherne e com o episódio da falecida esposa dum nosso ex-primeiro ministro que, repentista e desprevenida, numa entrevista, o comparou, em qualidade, a esse exemplar piscícola da costa portuguesa. Ora, barroso é também conhecido por gata-lixa, um tubarão de águas profundas. E, por isso, nada terá a ver com o ex-presidente da Comissão Europeia.
Demos então seguimento aos regionalismo algarvios começados por q e r. A fonte é a mesma dos postes anteriores, que temos vindo a registar.

1. Quelme - peixe também conhecido por barroso.
2. Quilhada - variedade de ameijoa durázia.
3. Rabalão - diz-se da criança irrequieta, traquina, travessa.
4. Rafègada - pé-de-vento; redemoínho; rabanada; refega.
5. Ramalhudo ou rasmalhudo - diz-se dos olhos grandes, pretos, pestanudos e com sobrancelhas grossas.
6. Restelar - apanhar os frutos secos caídos antes de serem varejados.
7. Rètoica - lábia; palavreado; retórica.
8. Rilar - fazer comichão; causar prurido.
9. Riosca - baloiço.
10. Russol - o véu gorduroso que envolve os intestinos do porco e que se derrete para produzir banha.

domingo, 19 de maio de 2019

Algaravias (9)


No seguimento da temática, damos hoje sequência a palavras começadas por n, o e p, que foram seleccionadas do livro Dicionário do falar Algarvio, de Eduardo Brazão Gonçalves. Assim:

1. Negregado - pessoa muito brincalhona.
2. Nhoifa - medo; cagufa; cagoifa.
3. Nuvresia - grande quantidade, sobretudo de aves, como que formando uma nuvem.
4. Ondespôjinho - há muito pouco tempo; há poucochinho; agora mesmo.
5. Òvado - diz-se do peixe e do marisco que tem ovas, ou de qualquer coisa que está repleta.
6. Pagela - montinho de peixe.
7. Pailão - homem mole, pouco activo; paspalhão; imbecil.
8. Panga - indivíduo amaricado; mulherengo.
9. Papas moiras - papas de milho feitas em água em que se dá uma leve cozedura aos chouriços de sangue.
10. Pelgona - mulher obesa, ociosa e que nem sempre guarda rigor à castidade.
11. Pote barrilote - homem gordo e baixo.

sábado, 20 de abril de 2019

Algaravias (7)


De palavras iniciadas por j e l, se compõe o poste, hoje.
Os termos seleccionados foram, como habitualmente, recolhidos e seleccionados da meritória obra Dicionário do falar Algarvio, de Eduardo Brazão Gonçalves.

1. Jantar de couve - cozido de repolho com carne de porco.
2. Jorra - vinho ou aguardente da pior qualidade.
3. Junetia - brincadeira ou partida sem graça, feita com intuitos de tormento e requintes de crueldade; judiaria.
4. Laborda - porcalhão, sobretudo usado para classificar crianças.
5. Larião - rato grande; ratazana; leirão.
6. Lecantina - choradeira, cantilena.
7. Liorna - confusão; enredo; barafunda; complicação; sarilho.
8. Lobeiro - favorável; ameno; agradável.
9. Ludras (águas...) - águas turvas, sujas, lodosas.

terça-feira, 9 de abril de 2019

Algaravias (6)


Em sequência da temática em epígrafe, hoje, abordamos regionalismos iniciados por g, h e i:

1. Gafeiroso - diz-se de qualquer coisa, pessoa ou animal de má qualidade.
2. Gamarra - bebedeira, embriaguês.
3. Gaudilho - figo seco ou torrado.
4. Garofes - coisa nenhuma; a ponta de um corno; uma pouca de merda.
5. Gavino - estouvado.
6. Gravalhuco - homem da cidade, bem vestido, bem falante, com dinheiro.
7. Groja - vozeirão; voz forte; garganta forte.
8. Hortalejo - pequena horta; quintal.
9. Ingrementes -  somente.
10. Izelação ou zalação - grande comichão.

terça-feira, 26 de março de 2019

Algaravias (5)


Com palavras começadas por f, damos prosseguimento à pequena selecção, que temos vindo a fazer, baseada na obra Dicionário do Falar Algarvio (1988), de Eduardo Brazão Gonçalves.
Um pequeno aspecto, para que gostaria de chamar a atenção é que, algumas vezes, estes regionalismos têm um lado brejeiro que revela um típico humor popular, mas também sinais de um lirismo singelo e castiço muito original. Dou como exemplo deste último, o regionalismo número 5.
Pois aqui vão eles:

1. Faanca - acto de descansar.
2. Fachadenta - diz-se da mulher com presença, com desembaraço, atirada para a frente.
3. Falcata - designação benévola de coxo.
4. Fandelga - pessoa reles, desprezível.
5. Fazer meia azul - namorar.
6. Fofeiro - cu; nádegas.
7. Fraldisqueiro - lampeiro, espevitado.
8. Fungão - rapazinho maçador, insistente.
9. Fura-pasto - homem activo, enérgico, audacioso, atrevido.
10. Fusca - pândega, divertimento.

quinta-feira, 14 de março de 2019

Algaravias (4)


Do Algarve, recordo com particular apreço Lagos, a Praia da Falésia e Vila Real de Santo António. Os areais circunvizinhos de Monte Gordo e os camaleões da sua mata, que eu julguei não haver em Portugal, até ver alguns rapazes a vendê-los pelas ruas, encavalitados nos seus ombros.
Destes regionalismos algarvios seguintes, começados por d e e, é que eu não conhecia nenhum...

1. Dar as inaiças - diz-se quando uma criança tem uma birra e bate com os pés no chão.
2. Desentòvada - mulher que não se arranja, desmazelada.
3. Despacha-recados - pessoa que ouve aqui e conta além; alcoviteira.
4. Divertir águas - urinar.
5. Dornilha - tigela de madeira em que se faz o gaspacho.
6. Embeque - empecilho, estorvo, obstáculo.
7. Empelochar - inchar; criar pressão.
8. Engrúmio - raquítico; enfezado.
9. Esgravulha - pessoa irrequieta, desassossegada.
10. Estronfar - ensarilhar; confundir; dizer uma coisa pela outra.

sábado, 2 de março de 2019

Algaravias (3)


Se uma língua se renova constantemente e, muitas vezes no presente, por força de neologismos oriundos das novas tecnologias, também não é menos verdade que muitas palavras se vão perdendo, na memória dos povos. Daí serem úteis as monografias de regionalismos locais, como este Dicionário do Falar Algarvio, de Eduardo Brazão Gonçalves, donde retiramos, hoje, algumas palavras iniciadas por c:

1. Cabaço de azinho - pessoa pouco inteligente.
2. Caçapos - dedos gordos.
3. Cagolho - pessoa pequena.
4. Calão - barco empregado especialmente na pesca do atum.
5. Caneiras - pernas magras.
6. Carrinho de molas - designação dada ao gesto obsceno que se faz encolhendo os dedos indicador e anelar ao mesmo tempo que se deixa o dedo médio bem esticado.
7. Chalão - grosseiro, arruaceiro; da beira-mar.
8. Charrinho alimado - diz-se de pessoa magra e débil.
9. Chorrilho - almece; nome do soro que escorre do queijo quando apertado no cincho.
10. Condelipa - designação para conquilha, na região de Lagos. *

* esta palavra deriva, por corruptela, de Conde de Lippe (1724-1777). Já abordei o assunto, aqui no Arpose, a 31 de Março de 2017, em Curiosidades 63.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Algaravias (2)


Da obra anteriormente referida, de Eduardo Brazão Gonçalves, damos hoje sequência a alguns regionalismos algarvios com palavras começadas por b.

1. Bagacinha - grainha de uva.
2. Bajôja - mal arranjada, desleixada.
3. Barbelidos - nome que se dá às bolhas em movimento, sobretudo na água do mar.
4. Barranho - homem baixo, atarracado, molengão.
5. Bolacha suína - designação jocosa para tremoço.
6. Boletreira - azinheira.
7. Boque - pequena cova no chão para o jogo do berlinde.
8. Brunhol ou bolinhol - espécie de filhó muito fofa e pouco larga.
9. Burro de chamiças - pessoa a quem se faz trabalhar muito; mouro de trabalho; burro de carga.
10. Buzaranha - ventania repentina; indivíduo vaidoso.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Algaravias (1)


O termo, que usei como título para esta temática, em bom rigor significa (segundo Houaiss): "fala ou escrita árabe; linguagem muito confusa, incompreensível; charabiá." Perdoe-se-me a utilização algo espúria da palavra.
Usando de alargada liberdade poética, usei-a para classificar regionalismos de origem algarvia, que constam do Dicionário do falar Algarvio (1988), obra a todos os títulos notável, da autoria de Eduardo Brazão Gonçalves (1903- ?), natural de Boliqueime.
É desta obra que, paulatinamente, irei seleccionar algumas expressões que me pareçam mais interessantes, para constarem desta temática já antiga no Arpose, mas desta vez dedicada ao Algarve. A sequência será alfabética, naturalmente, como sempre tem sido.
Comecemos, então:

1. Abaixaneira - dor de barriga violenta e prolongada, disenteria.
2. Acegar - açular; incitar cães a morderem, ou pessoas a lutarem ou discutirem.
3. Afegão de ganas - apertão de goelas.
4. Alcarnó - bacio; penico.
5. Alfaqueque ou Alfaquete - peixe-galo.
6. Alforges - testículos.
7. Almarjão - pessoa alta, encorpada, forte.
8. Amorcegado - aborrecido; triste; mal disposto; tonto; mal desperto.
9. Atuneiro ou Atunzeiro - pescador que se dedica à pesca do atum; barco preparado especialmente para a pesca do atum.
10. Avoão ou Corta-vento - nome dado a uma variedade de andorinha de cor muito escura e de voo muito rápido; alvão.
11. Azebibe ou Azebio - líquido meloso ou melaço que sai do olho dos figos. Tem a mesma origem de acepipe: vem do árabe az-zebib = passa de uva. Também se diz alzebibe e milhã ou melhã.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Glosa 10


Hoje, no jornal Público, Rui Tavares dedica, a propósito da Catalunha, o seu texto de crónica à singularidade de Portugal ser o único (?) país europeu de fronteiras definidas, desde longe, e sem quaisquer tentações de derivas centrífugas, dentro do seu território.
Realmente, foi bom termo-nos arrumado em 1249, através das últimas conquistas de praças algarvias (Faro, Loulé, Albufeira...), por parte do nosso único rei bígamo, D. Afonso III (1210-1279). Mas não devemos esquecer o sábio D. Afonso X, de Leão e Castela, que, generosamente e num gesto de avô babado, desistiu das pretensões ao Reino dos Algarves, a favor do jovem príncipe D. Dinis, seu neto. Pelo tratado de Badajoz, em 1267.
Ora, imagine-se que D. Afonso X não tivesse tido esse rasgo de generosidade familiar... Ou, até mesmo, que algum Filipe castelhano e futuro se lembrasse de reclamar da defenestração abusiva do colaboracionista Miguel de Vasconcelos, nos idos de 1640... Lá tinhamos o caldo entornado.
Por agora, mais vale esquecer Olivença, assim como a pouco lembrada tomada de Madrid e Salamanca, pelo nosso valoroso Marquês das Minas, em 1706. Mais vale ficarmos calados e aconchegados neste nosso pequenino rectângulo peninsular, quase milenar e sossegado...


sexta-feira, 4 de abril de 2014

Uma louvável iniciativa (26)


Do campino ribatejano ("...que até na sua pobreza nunca sabe mendigar...", António Botto) à estilizada algarvia, passando pela ceifeira alentejana, mais três pacotinhos de açúcar que, no verso, trazem 3 receitas da doçaria tradicional portuguesa: os Arrepiados de Almoster, o Dom Rodrigo, do Algarve, e as Queijadas de Requeijão alentejanas.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Em louvor de Mértola


Com propriedade geográfica e histórica cronológica, eu poderia dizer que fui conhecendo Portugal, de forma quase clássica. Se Évora se atravessou no meu caminho nos anos 60, só em 1975 atingi o Algarve. Mas só em 1976 visitei Mértola, que logo me encantou. Era ainda um pequena vila, quase abandonada, não ganhara espaço na agenda arqueológica e turística que, mais tarde, Cláudio Torres lhe viria a dar, num amor sem freio de dedicação e vida. Porque essa alcantilada terra alentejana, confluência de tantos interesses e culturas mediterrânicos (e vestígios indeléveis fenícios, gregos, romanos, árabes e, finalmente, portugueses), merecia-o. Dessa primeira visita, em 1976, recordo nítida uma ânfora (romana?) enorme, a frescura de um pátio interior, num Agosto inóspito, e um insólito quintal duplex e alcantilado, em dois patamares, alto sobre um Guadiana exíguo. 
Lá voltei, anos mais tarde, roído de saudades, para estadia mais demorada em casa modesta de turismo rural, com cozinha gigantesca enxameada de compotas campestres, para barrar o pão honesto do pequeno almoço, sobre o rio. Devia ser Junho, e o mês portou-se bem, equilibrado em temperaturas. Do outro lado, no "Casa Amarela", ficou-me no goto e na memória gustativa, um "Borrêgo à Pastora", rústico e simples, com aromas suavíssimos de ervas desconhecidas e mágicas de mouras encantadas. Uma selvagem perdiz estufada a preceito, uma mugem ribeirinha e fresca que trouxemos. Mas também as muralhas, os vestígios da História, que vimos, um lindo tapete de lã artesanal e a simpatia das gentes da vetusta Myrtilis. Tudo estava mais bonito e continuava despretencioso e simples.
Nunca fui a Cancun, nem à Praia das Galinhas, nem à cosmopolita Nova Iorque, para me gabar aos colegas de trabalho, depois das férias, em Setembro ou Outubro. Nem irei. De Portugal, e das cidades antigas, creio que só me falta conhecer Pinhel - digo-o com pena, porque nunca lá estive. Mas aos que não conheçam, recomendo Mértola, vivamente. No Alentejo e sobre o Guadiana. 

para H. N., cordialmente.

sábado, 13 de outubro de 2012

Críptica : o Araújo do Sul

No Norte, araújo é um argueiro no olho - idiotismo regional. Uma coisa a mais, um incómodo que o vento traz. Como as moscas parvas, selvagens, de fim de estação, que pousam, insistentemente, em nós. Como as sanguessugas e os vampiros. Sugam, principalmente. Vivem do trabalho dos outros. Tanto pode ser da actividade de Manuel Loff, como da de Rui Ramos ou da de Henrique Cayatte, mas tentam, sobretudo, ganhar de outros, a notoriedade que, por si só, e pela sua mediocridade não conseguem. E transcrevem imenso!
No Sul, são outra coisa. Sejam eles do Algarve, de Lisboa, de Sta. Bárbara de Nexe. Sejam acessores, ajuntadores de cavacos, camaleões, "pimps". Podem disfarçar-se de jornalistas, historiadores de domingo, júlios dantas ("pim!"), copiadores, não deixam de ser redundantes, hipócritas, cobardes, obsoletos. Desprezíveis, em suma. Argueiros dispensáveis - para voltar ao Norte.

P. S. : o poste tem endereço único.