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domingo, 25 de agosto de 2013

Idiotismos 23


Se a palavra frete é consensual para significar, na sua origem, o preço a pagar por um serviço de transporte de mercadoria ou pessoas em viagem, já a expressão fazer um frete abarca um sentido mais amplo e, porventura, um pouco diferente e de índole abstracta ou psicológica. Hoje em dia, a expressão popular significa: cumprir uma tarefa incómoda ou não apetecida, fazer um favor, contrariado, aturar qualquer coisa ou pessoa aborrecida, por boa educação, dever ou obrigação moral.
Mas diz-nos Carvalho Costa ("Gente de Portugal...") que, em Tolosa, concelho de Nisa, fazer um frete é: levar um presente aos noivos na ocasião ou vésperas da boda - o que não deixa de ser, pelo menos, estranho e curioso...
É também ponto assente que a palavra frete, inicialmente, terá tido uma conexão com o transporte marítimo e deve a sua difusão (no inglês, freight) mundial ao seu uso na marinha mercante britânica. Concordante, aliás, com o que regista o Dicionário de Morais: "...ajuste que faz o dono, arrais, capitão de navio ou barco, sobre o preço que se há-de levar por alguma carga ou pessoa...".

domingo, 30 de junho de 2013

Idiotismos 20


Virá de longe a origem, de algum modo, depreciativa da expressão popular pôr a careca à mostra, e daí também o facto do uso das cabeleiras, em várias épocas da história, para esconder a calvície. Mas também a punição aos vencidos de batalhas, antigamente, a quem, como castigo, lhes cortavam os cabelos. Castigo máximo o brado ad libitum, do chefe de trupe conimbricense, que permitia aos integrantes rapar totalmente o cabelo ao caloiro prevaricador, que fora apanhado a desoras, na rua. Ou a canção de Martins Soares, no Cancioneiro da Vaticana:
"praz-me con el, per tregoa lhe dey,
que a nem mate, mays trosquiarey
como quem trosquia falso traedor."
Ainda nas velhas perlengas infantis, o sentido infamante à criança que aparecia com cabelo curto, a quem as outras arremedavam:
Quem te tosquiou
que as orelhas te deixou,
por trás e por "diente"
como o burro do Vicente.
Alexandre de Carvalho Costa, no seu livro "Gente de Portugal...", lembra também o que custou a D. João I de Castela, em Aljubarrota, ter sido derrotado pelos "chamorros", que era a alcunha que os espanhóis, pejorativamente, davam aos portugueses, por usarem o cabelo cortado muito curto.
Na Idade Média, cortavam os cabelos às mulheres adúlteras, mas também, muitas vezes, como marca de infâmia, aos judeus, aos mouros e aos ciganos.
Hoje, a expressão tem o valor mais leve, e alterado, de: desmascarar, contar os antecedentes menos nobres de alguém, ou falar das fraquezas d'outrem. Valha-nos isso!

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Idiotismos 19


Ontem, ao re-comentar um comentário, aqui no Blogue, utilizei uma palavra que faz parte de uma expressão popular e que, não lhe sabendo a origem, acho, pelo menos foneticamente, muito sugestiva. Trata-se da expressão dar-lhe um tranglomango, e fui procurá-la nos alfarrábios que por cá tenho.
Embora não cabalmente, valeu-me, uma vez mais, Alexandre de Carvalho Costa que, nas páginas 215/6 do seu primeiro volume ("Gente de Portugal - Sua linguagem - Seus costumes"), dá algumas achegas. O autor refere que o povo a usa para caracterizar uma morte repentina de que se não sabe a causa, ou um ataque de origem desconhecida.
Teófilo Braga e Carolina Michaelis também se teriam interrogado sobre o dito popular, mas sem concluir certezas quanto à origem. O primeiro inclina-se para que o vocábulo tanglomango designasse uma antiquíssima divindade de espírito maléfico; enquanto Carolina Michaelis a considera equivalente a tangro-mango ou tengo-mengo,  e aponta o texto português em que, pela primeira vez, aparece. Precisamente no Cancioneiro Geral (1516), de Garcia Resende, numa cantiga de termos obscuros, feita por Álvaro de Brito Pestana, dirigida a Pero Borges, que diz assim:

"...Arisco gozo corrido,
Saro rravalco, mostrengo,
Não há mais num bexodido
Quase, quase tengo mengo. ..."

As informações não ajudarão muito, mas foi tudo o que consegui saber...

sábado, 23 de março de 2013

Provérbios, variantes e o ex-líbris de Aquilino Ribeiro


Às vezes, com o tempo, os provérbios modificam-se por engano, ou a gosto dos seus utilizadores. O caso mais flagrante que conheço, é o do ditado "Quem espera, sempre alcança", que Aquilino Ribeiro afeiçoou a legenda do seu ex-líbris, transformando-o em: "Alcança quem não cansa". Mas Alexandre de Carvalho Costa, autor que já aqui referi, regista o anexim de forma mais completa: "Quem tem esperança sempre alcança, nem que seja um pontapé na pança" - que, de algum modo, revela um criador mais céptico e mais bem-humorado.
Também o provérbio "Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão" seria, segundo Carvalho Costa, originalmente com a palavra ração em vez de razão, o que fará todo o sentido. Eu próprio não resisto, algumas vezes, em parafrasear (ou plagiar) o adágio "Quem tem amigos, não morre na cadeia", num mais simplório: "Quem tem amigos, não morre na cadeira" - quando estou bem disposto, e com bons amigos, à volta.

Nota: reproduz-se, em imagem, a capa do livro de Oliveira Guimarães e o saboroso prefácio aquiliniano.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Idiotismos 14


A expressão andar aos gambozinos, creio, já foi mais usada do que é hoje. Porque isto de gíria ou calão também tem o seu tempo e as suas modas. Acresce que, actualmente, até há zonas de exclusão ou guetos onde parece predominar um linguajar próprio, quase um dialecto local. Para já não falar dos SMS...
Mas voltando à expressão inicial (andar aos gambozinos), julgo que não será muito antiga e, salvo opinião contrária fundamentada, situaria a sua origem provável no século XX. É referida por António Tomás Pires, em 1928, e Augusto Moreno, no seu Dicionário de 1936, também a refere.
A frase popular teria tido origem no Alentejo ou Algarve, como brincadeira carnavalesca. Os mais velhos costumavam, por alturas do Entrudo, dar um saco aos rapazes mais novos e ingénuos, pedindo-lhes que se colocassem ao pé dum muro ou dum buraco na terra, e lá ficassem à espera dos gambozinos... Entretanto, afastavam-se, dizendo que iam fazer uma batida, pelo mato, à procura desses animais.
Carvalho da Costa avança a hipótese de a palavra (gambozino) ter origem na Espanha ou na França (cambuse, gambuse). Mas os naturalistas aproveitaram-se do vocábulo, para assim nomear um pequeno peixe. Houaiss, no seu Dicionário, ignora ostensivamente o gambozino. Embora registe gambúsia para o referido peixe minúsculo (5 cm.), originário da América do Norte.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Idiotismos 13


Algo documentada, desde há muito, em obras literárias, a expressão ir bugiar ou mandar bugiar significa mandar à fava ou, mais literalmente, mandar pentear macacos, como refere Alexandre de Carvalho Costa, na sua obra já aqui referida. No fundo, uma forma mais extremada de dizer: Não me aborreças!
Parece que a expressão terá tido origem em Bougie (Argélia), onde os espanhóis, quando lá aportaram teriam visto muitos macacos. Foi esta terra do norte de África que Teixeira Gomes escolheu para exílio, e lá acabou por morrer.
Mas, e voltando ao princípio, a expressão já aparece na Ulysipo, de Jorge Ferreira de Vasconcelos:
 Vai, vai Joana bugiar,
não andes no alparvado.
E Gil Vicente usou-a também, no Auto de Mofina Mendes:
Senhora não monta mais
semear milho nos rios.
Que queremos por sinais
meter coisas divinais
na cabeça dos bugios.
Porque, classicamente, bugio é uma classe de macacos. Muito embora já tenha visto o vocábulo utilizado para significar rochedo, no meio das águas. E no feminino (bugia) valha, também, por pequena vela de cera, ou griseta.
Antenor Nascentes lembra que o étimo do nosso bugiar talvez possa ter origem comum ao do verbo italiano bugiare - dizer mentiras. Custa-me a aceitar. Mas seja como for, a expressão está ligada a macacos e, sobre isso, não há dúvidas.
A propósito, já agora, pergunta-se porque chamaremos nós, Forte do Bugio, à pequena fortaleza, com farol, na Barra do Tejo? Com planos mandados fazer, ainda no reinado de D. Sebastião, mas só edificada no tempo de Filipe I, foi instalada na ilhota de Cabeça Seca. Inicialmente denominado por Forte de S. Lourenço, o povo crismou-o, para sempre, como Forte do Bugio (do macaco?).

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Idiotismos 11


Tome-se por inteiro, e antecipadamente, que não se vai chegar a uma conclusão definitiva e rigorosa sobre as origens, razões de uso e significado exacto da expressão portuguesa: fazer fosquinhas. Muito embora Alexandre de Carvalho Costa (Gente de Portugal/ Sua linguagem - Seus costumes, Portalegre, 1982) lhe atribua equivalência a: fingir afectos que não se sentem.
Ao que parece, os Getas e Citas, antigos povos germânicos, atribuiam aos cavalos um poder adivinhatório através da interpretação dos seus relinchos, sobretudo aos cavalos brancos, que eram consagrados ao Sol. Daqui, para Portugal, vão uns séculos, mas há notícia de uns "cavalinhos fuscos" que, obrigatoriamente, integravam a procissão lisboeta do Corpo de Deus. Por sua vez, S. Jorge, iconograficamente, aparece quase sempre montado num cavalo branco. Ou seja, de novo, uma ligação ao sagrado.
Já no "Auto das Fadas", Gil Vicente refere: "Cavalgo no meu cabrão - e vou a val de cavalinhos..." E, também, Francisco Manuel de Melo os refere (cavalos fuscos) na "Feira de Anexins". Em 1517, no Regimento da Câmara de Coimbra se regista: "...os cordoeiros, albardeiros, odreiros e tintureiros levam quatro cavalinhos fuscos bem feitos e bem pintados...". E Cruz e Silva, no Hissope, nos finais do século XVIII, escreve:
E por dar mais prazer aos convidados,
De cavalinhos fuscos, depois dele
Na vaga sala, com soberba pompa
O galante espectáculo prepara.
Ou seja, em jeito de conclusão, fazer fosquinhas seria, talvez, "imitar o cavalo, nos seus movimentos, caracoleios e relinchos". E fiquemo-nos por aqui, hoje.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Idiotismos 5

Não será muito conhecida ou, pelo menos, creio que é de uso muito restrito e regional, a expressão Estar em agraço que, no fundo, terá o mesmo valor de Estar com os azeites, ainda hoje usada. E esta última também eu a conheço. O significado é: estar mal disposto.
Mas a primeira expressão será mais antiga e já Camões a usara nos Anfitriões (1587) com o mesmo entendimento: "...Tanto vos levo em capelo/ já que estais tanto em agraço" (versos 147/8). Alexandre de Carvalho Costa, no livro que tenho vindo a usar nesta rubrica, cita Marques Braga que refere que "agraço" é uva verde e, por isso, ácida ou azeda. O que faz todo o sentido.
Quanto a estar com os azeites talvez se fundamente também na acidez do azeite. Será? Porque faria muito mais sentido dizer-se: está com os vinagres... É tudo uma questão de tempêros.

sábado, 25 de agosto de 2012

Idiotismos 4


Se a expressão popular encanar a perna à rã, de que gosto particularmente, tem para mim o significado preciso de "ganhar tempo ou demorar", sobre a frase idiomática estar acanaveado só poderia tentar imaginar-lhe o sentido. De comum às duas, o étimo cana e, por isso, desta última pensava eu que se referia a alguém debilitado que se apoiasse a um pau, uma cana, um cajado ou bengala, para caminhar com mais segurança.
Estava enganado. Efectivamente, segundo nos diz Alexandre de Carvalho Costa, no seu "Portugal - Sua linguagem - Seus costumes" (Portalegre, 1982) - já aqui referido na rubrica - a expressão estar acanaveado provém do "martírio que os missionários cristãos sofriam no Japão onde lhes introduziam rachas de canas pelo sabugo das unhas". O que confere com Houaiss que regista, no seu dicionário: "ferir, torturar, enfiando lascas de cana sob as unhas". O que ele não refere é que esta tortura fosse japonesa.
A expressão, no entanto, gradualmente foi ganhando espaço e mais amplos contornos, em dois sentidos. Um, físico, significando fraqueza, debilidade e magreza; o outro, de natureza económica, correspondendo a: falta de recursos. Assim vão crescendo as palavras, com o tempo...

sábado, 28 de julho de 2012

Idiotismos 3


Se a palavra "pingarelho", só por si, raramente se usa, já a expressão armar ao pingarelho é frequente. Socorrendo-me de Alexandre de Carvalho Costa e da sua obra (Gente de Portugal...), anteriormente referida, "pingarelho" é um pequeno pau utilizado para montar armadilhas, ou qualquer coisa pouco segura e prestes a cair. Houaiss, no seu dicionário, não o regista, pura e simplesmente.
Se a frase idiomática armar ao pingarelho, para mim, significava "fazer-se de fino" ou de importante, sendo embora pelintra ou um zé-ninguém, Carvalho Costa refere outras achegas. Com base no verbo pingar, e aludindo a expressões castelhanas, acrescenta o uso aplicado a porcos alimentados a bolota que pinga dos sobreiros e azinheiras, e que as procuram pelo chão. Neste caso, portanto, armar ao pingarelho teria um significado muito mais pejorativo. Seja.

domingo, 8 de julho de 2012

Idiotismos 2


Segundo Alexandre de Carvalho Costa, no seu "Gente de Portugal / Sua Linguagem - Seus Costumes" (Portalegre, 1981), a expressão idiomática Andar numa fona (que eu gosto imenso de usar, com o significado de: andar atabalhoadamente e depressa), pode ter várias origens, sobretudo pelo valor significativo de fona. A palavra, em si, pode ser considerada equivalente a "atafona", que quer dizer: azenha, moínho... Em Alcantara (Lisboa) há, por exemplo, uma Travessa das Atafonas, o que indicia lá ter havido, provavelmente, azenhas, talvez movidas pela água da ribeira de Alcantara, hoje soterrada. Neste caso, Bluteau atribuiu-lhe origem árabe. Mas Alexandre Costa informa também que, segundo Abílio Roseira a palavra fona pode ser uma corruptela abreviada de Mafoma - continuamos no domínio árabe...
E ainda deve ser considerada a possibilidade de a palavra ter o significado de "faúlha que se desprende do lume e volita no ar, já apagada e em forma de cinza". Mas há também uma pequena ave, tipo pardal, muito irrequieta que, em Miranda do Douro, é chamada fona.
Seja como for, a expressão, no essencial, vale por: andar numa lufa-lufa, numa roda viva.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Idiotismos 1


Escreve Rodrigues Lapa: "Chamamos portanto grupos fraseológicos, idiotismos, frases feitas ou locuções estereotipadas a esses conjuntos de palavras, em que os elementos andam mais ou menos intimamente ligados, para exprimirem determinada ideia."
E acrescenta: "...a linguagem popular, quer citadina, quer regional, é sempre uma preciosa mina para quem souber cavar nela com acerto. Esta escolha deverá ser feita sempre com bom senso e bom gosto, de modo que os provincianismos não sejam tantos nem tão cerrados que possam dificultar a compreensão do texto."
Mas isto das também conhecidas por frases idiomáticas ou, às vezes, por expressões populares tem que se lhe diga. Normalmente, percebe-se o sentido geral em que são usadas, mas perdeu-se-lhe a origem ou razão inicial da sua criação. E é sempre bom sabermos, através duma explicação fundamentada, os pormenores do seu nascimento e utilização, no dia a dia.
Comecemos, hoje, esta rubrica, e com a ajuda de Alexandre de Carvalho Costa, pela expressão: Dar com tudo de pantanas ou Dar em pantanas. O significado geral que se pretende transmitir é: ficar sem nada, arruinar-se, estragar tudo... Mas, originariamente, este pantanas veio de Pandanare, terra da costa do Malabar (Índia) onde os portugueses, numa batalha naval do séc. XVI, terão desbaratado, numa zona de muitos ilhéus, os navios do rei de Calecute, destruindo-os completamente. Parece que, na ilha da Madeira, a frase idiomática, mais frequentemente, significa: deixar perder um negócio ou delapidar os bens de família ou os próprios.