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quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Quebras de qualidade

 

De há muito que me deixei de revistas e de publicações temáticas periódicas. Umas por perda de qualidade intrínseca (JL, L'Obs), outras por desinteresse (Revista de Vinhos) gradual, outras ainda por continuada interrupção de importação (caso do TLS) para Portugal. De longe a longe, de algumas, ainda volto a comprar um exemplar, para matar saudades e tomar o pulso à qualidade actual. Na minha perspectiva, no entanto, quer o JL, quer L'Obs, por exemplo, mantêm um declínio evidente e notório, seja de artigos, seja de colaboradores...
Mas, às vezes, no dealbar do ano, dá-nos para a generosidade e espavento. Foi um fartar vilanagem! Acabei, hoje, por comprar, incontinente, a Revista de Vinhos, por falar da família Margaça ( que produz bons vinhos no Alentejo) de Pias e a Lire, francesa, que abordava Alexandre Dumas (pai), meu inesquecível escritor de juventude com os seus Mosqueteiros. Só espero que esta minha generosidade acrítica (?) não me saia cara, em relação ao proveito que vou fruir na leitura...

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Antologia 8



Será porventura uma Antologia mais extensa do que o habitual, mas Camilo Castelo Branco (1825-1890) foi, como se sabe, um autor muito prolífico, e bem merece. Aí vão os excertos:

A mentira no romance é uma nodoa, que nausea o publico ilustrado. Alexandre Dumas, escrevendo um romance intitulado «Martim de Freitas», obrigou este heroe a desembarcar em Mafra, nomeou-o alcaide do Castello da Horta, e fez nascer D. Sancho II na Palestina, onde foi baptisado por um tal monsieur d'Evora, arcebispo de Leiria! É uma cornucopia de asneiras este litterato, falando de Portugal.
(Scenas contemporaneas, 2ª edição, pg. 136)

Disse-me que em 18 mezes de namôro apenas lhe dera um osculo. Acreditei. Era assim que se amava em 1845. Os mais atrevidos davam dois osculos.
(Maria da Fonte, 1ª edição, 1855, pg. 361)

A respeito da assignatura pouco legivel dos reis constitucionaes, quer caligraphica quer orthographicamente, padre Casimiro póde citar o exemplo de um querido rei absoluto que, chegado á adolescencia, assignava-se Migel, num bastardinho de traslado com finos e grossos tão claros e legiveis que logo se conhecia que as cinco lettras diziam Miguel.
Já o seu inclyto avô, o snr. D. Affonso VI apprendêra a fazer o seu nome quando casou.
(Maria da Fonte, 1ª edição, 1885, pg. 387)

... e, a este proposito, repetiam as memorandas palavras do senhor Ferrer, lente de direito natural (Coimbra), aos seus discipulos: «meus senhores, quem não puder ser doutor, seja sapateiro.»
(Estrellas Propicias, 1ª edição, pg. 18)

A mãe de Tiburcio, assim que o padre transpoz a porta do carro, fez um trageito de ante-braço e mão que lá chamam «manguito». É um gesto anguloso que exprime mudamente todos os desdens e ironias figuradas da rethorica; não se acha assignalado como indecente nos compendios de civilidade, mas ainda não está bastante usado em desavenças de deputados nas salas das sessões onde se fazem as leis e os manguitos para a nação; usa-se, todavia, nas aldeia como expressão de solercia e fina velhacaria.
(Narcoticos, 1882, I, pg. 150)

Ninguem corteja, em distracção, um homem que apresenta letras de cento e vinte contos. A presença d'um millionario ensina mais cortezia que um compendio de civilidade...
(Vingança, 4ª edição, 1907, pg. 15)


domingo, 21 de fevereiro de 2021

Mercearias Finas 167

 


Ao princípio poderia ter sido a marmita operária, que Pomar eternizou, por outras vias, no Almoço do Trolha, nos anos 70/80 com a Comida Pronta e os Come-em-Pé, aburguesou-se; agora os Take-away acabam por ser uma alternativa de levar para casa de restaurantes em que já não podemos amesendar, como dantes, à vontade. Do nosso predilecto já veio Arroz de Pato, Ensopado de Raia e Pataniscas de Bacalhau com arroz de feijão vermelho - deliciosos. O Pernil, parente afastado do germânico Eisbein (bem diferente), creio que só o tínhamos provado uma vez, na sua magnitude. No restaurante do Arco, na medieval rua de Sta. Maria vimaranense, era por um dia pavoroso de chuva, de inícios de Novembro. Bisámos, aqui há dias, e fomos buscá-lo à Trafaria, à Taberna do Zé da Lídia - esplendoroso. Na fotografia, acima, ainda ele está no ninho, aconchegado, ao lado das frésias, amarelinhas, que já tinham dado um ar da sua graça olorosa... O vinho portou-se bem (Aragonez, Trincadeira e Alicante Bouschet, alentejano, 14º), mas precisava de mais 2 ou 3 anos para amaciar melhor os taninos. Como dizia Alexandre Dumas, citado por João Paulo Martins: "...o vinho é a parte intelectual da refeição!" E quem sou eu para contradizer tal axioma, de gente tão fina?!