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sábado, 11 de novembro de 2023

Despropósitos



De há muito que o Alentejo primava pela singularidade dos seus apelidos, muitas vezes oriundos de alcunhas que acabaram por se integrar nos próprios nomes, às vezes por distracção de quem os apontava no registo do cartório, aquando do baptismo, como foi o que aconteceu com José Saramago (1922-2010). Assim Catapan e Futre, também.
Mas hoje em dia os despropósitos acabam por ser mais amplos, abrangendo nomes de lojas que quase deixaram de ter nomes portugueses, ou, por exemplo, nomes de ruas (Estrada da Algazarra), de livrarias (Gato Vadio) ou até de vinhos (Abelharuco e Assobio, curiosamente ambos da região demarcada do Alentejo). Mas cuja marca e rótulo não têm nada a ver com o conteúdo.

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

A inocência das criancinhas



Há dias, um daqueles vários desmiolados e fala-baratos animadores (malatos & companhia) dos programas pimbas dos 3 canais generalistas, que acompanham as manhãs e tardes dos solitários domésticos, dizia:
Todas as criancinhas são boas!
Sempre tive uma enorme dificuldade em aceitar esta generalização da virtude, ainda que pueril, sobretudo quando é proclamada por adultos tolos.
Amigo meu de infância lembrava-me, numa sua crónica recente publicada num semanário regional, as alcunhas, muitas vezes desapiedadas, que inventávamos para crismar os nossos colegas de escola e liceu. Era o José Emílio que ficou o Rata, pelo seu nariz que mais parecia um focinho de fuínha, o Cicatrícula pela ruga vincada da bochecha direita, o Barrumas, o Xiramaneco...
Mais cruel porém eram as partidas que pregávamos ao nosso colega Adélio, boníssimo e inocente jovem, filho da Saleira, senhora de meia idade, educada, que se dedicava à venda de sal, na rua Escura. em Guimarães.
O Adélio via muito mal, daí usar uns óculos de lentes garrafais, por detrás dos quais, os olhos dele pareciam choramingar constantemente, e lhe ser distribuída, logo no princípio do ano lectivo, uma carteira na primeira fila da sala de aula, ao canto, apesar da sua altura gigantesca, para ele poder ler as letras no quadro preto.
O Torcato, que era o mau da fita, muitas vezes lhe soprava: Adélio! e o filho da Saleira, lá se voltava, na sua ingenuidade, para trás, para o ouvir sempre pronunciar, invariavelmente, o verbo: Chora!
Por isso, não me voltem a dizer que todas as criancinhas são aureoladas de virtude.