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quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Praxes


Quando, em 1931, Alberto de Souza aguarelou este Estudante, as praxes académicas circunscreviam-se a Coimbra, tal como nos anos 60, quando por lá andei. E até o Dux Veteranorum estava obrigado a respeitar as regras do Código, que tinham mais de lúdico do que de punitivo ou dramático.
Nos anos 80/90, com a proliferação de canhestras e oportunistas Universidades, de saber pouco rigoroso e duvidosa qualidade científica, o uso de capa e batina e as praxes alastraram de forma selvagem, permanente, exercidas por energúmenos ignorantes e sádicos, sobre caloiros submissos e, talvez, propensos ao exibicionismo.
Foi assim que tivemos o nosso Jonestown (da seita People's Temple), na praia do Meco, embora de menores dimensões numéricas nas mortes incompreensíveis e inúteis.
Parece que o novo Ministro do Ensino Superior está disposto a um braço de ferro que acabe com estas práticas medievais e aberrantes. Faço votos para que não perca a coragem e não lhe falte a perseverança!

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Irrealidades


O velho almirante já um pouco escalavrado, depois de pesquisar as edições da A. G. U.  na segunda estante, à direita de quem entra, foi sentar-se pesadamente no maple verde de napa, ao fundo da loja, muito próximo do maçon insular, de memória prodigiosa, que folheava um livro, na estante dos truncados.
O gordalhufo, que escreve no Público às terças e quintas-feiras, sopesava " A Educação Sentimental", de Flaubert, mas já se tinha apossado de um folheto sobre as campanhas de África, quem sabe se no intuito de se documentar sobre os Comandos e vir a escrever uma crónica para denegrir um partido de esquerda.
O jovem historiador e ramalhudo universitário, que tentou branquear o salazarismo por palavras mansas e cristãs, arrebanhou um von Clausewitz, com gula, e perfilou-se a olhar, indeciso, para uns Ensaios, ainda literários, de Franco Nogueira. Creio que não os levou, que a literatura nunca foi o seu forte.
Eu trouxe umas recensões de V. S. Pritchett, que mais parecia um tijolo. Mas que falavam e tinham capítulos sobre Eça e Graham Greene, e isso me bastou para esportular alguns euros. Poucos. Com o livro, veio também um postal retro com uma aguarela de Alberto de Souza, que ainda há-de aparecer no Arpose.
No entretanto, chegou o meu Amigo.

para H. N., que sabe do que eu falo...

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Da metafísica e da estatística dos blogues


Claro que podemos reflectir sobre ninharias - é essa a liberdade dos blogues, sobretudo, os nossos...
Dos últimos 100 postes, colocados no Arpose, o mais frequentado foi "Uma coutada, na Faculdade de Direito de Lisboa" (24/1/2016). Teve nada menos do que 71 visitas, até agora.
Entretanto, num espaço de pouco mais de uma semana, houve 2 postes com quadras populares: "Femininas e alentejanas" (3/2/16) e, ontem, "Mais 2 quadras populares alentejanas". Enquanto o primeiro teve apenas 16 visitantes, o que coloquei na quinta-feira (11/2/16) já soma 25 visitas, em apenas um dia.
Se o mais antigo foi ilustrado com uma bonita aguarela de Alberto de Souza, o de ontem contou com uma interessante fotografia da planície alentejana (com um monte e um sobreiro, ao longe). E digo isto, porque as imagens - já me habituei - têm uma importância e atracção, fundamentais, sobre os visitantes...
Como interpretar esta discrepância no número de visitas, sendo o tema, exactamente, o mesmo? Não sei. Só me ocorre um provérbio popular: "Mais vale cair em graça, do que ser engraçado"...
E vou à vida!...

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Femininas e alentejanas


Se fores ao Alentejo,
trazei-me uma alentejana,
pequenina e bem feita,
que caiba na minha cama.

...

Todas me lavam a cara
do meu amor ser ganhão.
É bonito, gosto dele,
é honrado e ganha pão.


Nota: as quadras populares foram recolhidas da obra "A sul do Tejo" (1965), de Manuel Mendes.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Vestir os Livros


Exibicionistas ou paupérrimas, berrantes ou banalíssimas, de uma indigência estética enorme, as capas dos livros portugueses perderam toda a beleza que os revestiu, quase sempre, no século XX. De Alberto de Souza a Sebastião Rodrigues, do clássico Bernardo Marques ao inovador Victor Palla, os nossos livros eram revestidos de capas lindíssimas e atraentes. Por onde andarão os grafistas e capistas portugueses de qualidade, hoje em dia? Creio que se poderão contar pelos dedos de uma mão, com boa vontade, os herdeiros dos magníficos antepassados, porque não lhes merecem o nome de sucessores...
Neste Dia Internacional do Livro e dos Direitos de Autor, foi este o tema que escolhi para o celebrar. Reproduzindo, com desenhos de Bernardo Marques, as capas de 4 dos primeiros volumes da original colecção Miniatura, da Editora Livros do Brasil, que ainda hoje dá gosto manusear. Porque foram lindamente vestidos, com creatividade e beleza.

domingo, 1 de abril de 2012

Bibliofilia 61 : Fialho de Almeida



Esta separata em A4, pequeno, contendo o texto "Ceifeiros" de Fialho de Almeida (1857-1911), não sendo rara, é, pelo menos, esteticamente agradável na impressão e enriquecida na capa com uma obra alusiva de Alberto de Souza, de 1929. Mas a obra, com apenas 16 páginas, editada pela Livraria Clássica Editora (s/d), também não aparece muito à venda - quem a tem, chama-lhe sua, porque é bonita... Terá sido impressa nos anos 30 ou 40 do século passado e, como reza na terceira página: "Separata - oferecida, graciosamente, pela Livraria Clássica Editora, à Comissão Executiva de Homenagem a Fialho de Almeida, com o fim de ser vendida e o produto reverter a favor do fundo destinado ao monumento, em projecto, do autor dos «Gatos»."
Creio que o monumento, em Lisboa, não terá chegado a ser construído, mas em Cuba (Alentejo) existe uma estátua de Fialho de Almeida. Terá sido essa, o objectivo da publicação desta separata lisboeta?

para H. N., admirador de Fialho, ofertante e amigo. 

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

D. João V, piedoso e pecador



D. João V (1689-1750) começou a reinar em 9 de Dezembro de 1706, muito embora a sua proclamação só tivesse tido lugar em Janeiro de 1707. O seu nome lembra-me sempre duas coisas: a construção do Convento de Mafra e uma saborosa quadra de gosto popular. Que diz:

Flor da murta,
Raminho de freixo;
Deixar de amar-te
É que eu não deixo.

Pelo menos os versos são atribuidos ao Rei, e a história conta-se em duas penadas. D. João V tinha entrado já na "perigosa curva dos quarenta" (Drummond dixit), e enamorou-se de Luísa Clara de Portugal, mulher de D. Jorge de Menezes. Declarou-se através do madrigal e as coisas avançaram. Nasceu uma filha: Maria Rita de Portugal. O marido da adúltera afastou-se da mulher e foi para longe, com os três filhos anteriores ( António, Bernardo e José). Flor da Murta, que deveria ser uma mulher apaixonada, viria ainda a enamorar-se do Duque de Lafões.