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quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Um sonho


                                                                                   Num meio-dia de fim de primavera
                                                                                   Tive um sonho como uma fotografia...

                                                                                            Alberto Caeiro


Ora acontece com os sonhos, o mesmo que com os versos, subitamente nascidos: ou os escrevemos logo, ou eles desaparecem, para sempre da nossa frágil memória. Vindos do inconsciente, se não os reproduzimos, conscientemente, eles apagam-se.
Há dias, sonhei com o poeta W. H. Auden (1907-1973), num episódio de grande nitidez. O cenário inicial era a sua casa, improvável e em Portugal. Na sala de estar, ao canto e em ângulo, duas estantes, com livros: a da esquerda, só com volumes de poesia; à direita, apenas livros sobre arte.
Auden estava de abalada para os E. U. A. e eu, antes de sairmos, peguei, de empréstimo, da estante, os seus Selected Poems. Depois, dirigimo-nos, a pé, para uma rua estreita da Cova da Piedade, para ele se ir despedir de Maria Antónia Palla. Foi aí que ele disse que ia dar todos os livros desta sua biblioteca, a quem os quisesse. Não tencionava levá-los para a América. E eu candidatei-me.
Feitas as despedidas, regressamos a casa do Poeta. Para minha surpresa, as duas estantes dos livros estavam completamente vazias. Alguém levara todos os livros de poesia. E os livros sobre Arte tinham sido levados pela minha estimada confrade de blogue, Margarida Elias, do Memórias e Imagens.
Fiquei assim e apenas com os Selected Poems, de Auden, na mão.
E acordei...

para Margarida Elias, e em memória de W. H. Auden.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Descontinuidades


Enquanto o gato desconhecido, mas próximo, começa pontualmente, pelas 19h00, o seu regular e ritmado gemido de cio primaveril, eu olhando o Tejo pergunto-me por onde andarão os Indignados, deste mundo e dos outros, que ultimamente não têm aparecido, nem dado que falar. Será do frio, que não os convida a vir para as praças e ruas das cidades?
O rio corre plácido, como Alberto Caeiro dizia, mas ao longe, e as gaivotas partilham o ar com as andorinhas, que as pombas já se devem ter recolhido, por causa do vento que chega com a noite de Maio. Ainda não é tempo de os estorninhos darem sinal de si. E se há um melro mavioso, cantando nas redondezas, também não se deixa ver. Apenas, ouvir.

quarta-feira, 27 de março de 2013

O araújo sulista volta ao local do crime


Eu dispensava bem esta visita torpe, mas ele lá vai insistindo, por inanidade mental, por falta de inspiração a ver se encontra alguma coisa para sugar. A penúltima vez, foi aquando da morte de Óscar Lopes. Mas, hoje, achei piada às, preguiçosas de intento, search words que dirigiu ao Google. Assim mesmo:
"torga escreveu no diário IV um pequeno poema que chamou fado do limoeiro" (sic).
O pachorrento do araújo é como o Jesus Cristo do Alberto Caeiro ("não consta que tivesse biblioteca") mas, pior do que isso, é não se querer incomodar a ir a uma biblioteca pública ou à BNP. O homenzinho não quer ter trabalho e prefere, refestelado e gordinho no seu sofá, que lhe sirvam as informações numa bandeja, para depois fazer um brilharete no seu blogue (agora muito mais cheio de imagens do que de palavras - sempre dá menos trabalho, com um vídeo à mistura...), junto dos pacóvios dos seus amigos. Mas o motor de busca, que não percebe nada de citrinos, encaminhou o araújo sulista para um poste sobre Antonio Machado (21/9/12), aqui no Arpose. Lá se foi a inspiração.
Se o copista nato trabalhasse um pouco, e não fosse um plagiador por vocação, abrindo o livro de Torga, na página 157, havia de encontrar o poema. Muito fraquinho, de qualidade, diga-se de passagem. E, com esta preciosa informação que dou ao araújo chupista, espero que ele - ao menos, por vergonha - me desampare a loja (Blogue) de vez, e para sempre.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Desabafos, talvez românticos, mas sinceros

Se eu fosse justo e preciso, diria que o tempo não me chega para as leituras; e teria, para cumprir o dever (cf.: Alberto Caeiro), de me remeter a uma reclusão ou clausura forçada que nunca desejei, nem me está no sangue. Nunca fui à India, mas é bem provável que os meus antepassados tenham ido - estas coisas acabam por marcar os genes de cada um.
Falta por aqui, talvez, um pouco de disciplina pragmática e científica, um sentido de missão, que não tenho; e uma ordenação rigorosa das prioridades. Acordemos, no entanto, para cada um dos seres humanos, o benévolo direito da anarquia feliz, do ócio e do prazer, do capricho momentâneo, enfim.
Como disse, e bem, José Gomes Ferreira: "Viver sempre também cansa" (era um Gémeos realista e atento). Até porque depois há, no Outono lisboeta, uns estorninhos cativantes sobre o Tejo, em volteios sinuosos de nuvens que se cruzam, vezes e vezes, ao fim da tarde - como ontem. E, hoje, que não há vento, posso mergulhar os olhos nas águas tranquilas, embora cinzentas e magnéticas do rio.
Como será possível não amar a Vida? E poder ficar por cá mais uns anos, vivo, lúcido e de olhos abertos sobre tudo isto que me cerca...