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quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Últimas aquisições (42)



Estes livrinhos da FFMS, sendo embora de autores pouco conhecidos, têm em comum a singularidade dos assuntos e a abordagem muito própria da escrita simples, quase sempre agradável e profissional de temas sociológicos pouco habituais.
E se este Avieiros, hoje, de João Francisco Gomes (1995), que comprei recentemente, tem por sombra tutelar o escritor ribatejano Alves Redol (1911-1969) que pela primeira vez tratou do assunto em 1942 (Avieiros), desta vez não é a ficção que prevalece.
A migração dos pescadores e famílias de Vieira de Leiria, para as mais favoráveis e menos perigosas margens ribeirinhas do Tejo são o motivo principal deste livrinho. Bem como um tipo de cultura própria que esta mudança acabou por propiciar.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Esquecidos (6)



Na minha opinião, e de forma ligeira, foi um ar que lhes deu. Escritores neo-realistas, tão populares e lidos, nos anos 50, 60, 70 do século passado estão hoje sepulcralmente esquecidos. Das novas gerações, quem se lembrará (e menos lerá...) de José Loureiro Botas, J. Marmelo e Silva, Faure da Rosa, Leão Penedo, Romeu Correia, Ferro Rodrigues, Fernando Lopes... Escapam Alves Redol, Carlos de Oliveira (que inflectiu a sua obra, e bem) e talvez Fernando Namora, que a Bertrand lá vai reeditando.

Estar na moda e ancorado excessivamente no presente tem os seus custos. Nalguns casos, é uma pena que alguns destes prosadores estejam esquecidos para sempre.

 

Nota pessoal: chamo a atenção para a qualidade de algumas destas capas. De bons profissionais, claro!

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Os neo-realismos


Um artigo do TLS (nº 6044) sobre a edição, em meados dos anos 40/50 do século XX, de livros destinados à classe trabalhadora inglesa (que se aglomerava sobretudo em zonas de maior incidência industrial: Sheffield, Leeds, Liverpool...), fez-me duvidar da ideia pessoal, que tinha, de que o neo-realismo (literário e cinematográfico, pelo menos) se tinha limitado e proliferado, sobretudo, nos países latinos europeus, da América latina e dos Estados Unidos depois da Depressão de 1929. Uma coisa é certa porém: este tipo de literatura, hoje, dificilmente teria leitores, mesmo que os motivos fossem actualizados. A consciência de classe, do chamado proletariado, é presentemente muito branda e, com excepção minoritária, despolitizada e ideologimente neutra ou ignorante, do ponto de vista teórico. Isto faz com que possa ser capturada, facilmente, por qualquer tipo de populismos: em França, isto tem vindo a ser notório. Mas não só.
Na Inglaterra, e segundo o artigo do TLS, o interesse por esses livros começou a diminuir a partir do momento em que as classes trabalhadoras, tradicionalmente de homens brancos, começaram a ser invadidas por minorias: mulheres, negros, emigrantes. Para o articulista do TLS, esta teria sido uma das razões principais. Tenho grandes dúvidas sobre o facto.
Pessoalmente, considero datas mais marcantes, em Inglaterra, o ano de 1984, com a greve dos mineiros e o ano de 1989, do ponto de vista europeu, com a queda do muro de Berlim. Foi a partir daí que o neo-liberalismo e o capitalismo tomaram freio nos dentes, na minha perspectiva. E o proletariado se começou a descaracterizar como classe, talvez achando possível aceder a outros patamares, em que o consumismo, as revistas róseas e as raspadinhas eram alguns dos novos ópios do povo. Mais recentemente, a vacuidade das redes sociais com os seus temas rasteiros de lana caprina e a banalização paroquial uniformizada da comunicação social, fizeram outro tanto. O menino que cai ao poço, lá longe, ou a menina que desaparece, misteriosamente, são o entretém e as novas telenovelas.
Quem os vai trocar por Steinbeck ou pela leitura de Redol?
E não será decerto Jeremy Corbyn (1949) que conseguirá encarnar num novo angry young man, ainda que actualizado. Muito menos, a senhora May poderá assumir a assombração e o fantasma descarnado de Margaret Thatcher (1925-2013).
Como diria Manuel Bandeira (1886-1968): ..."Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino." Ou então, convocar Paulo Coelho, com a ajuda das artes mágicas de Harry Potter.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Adagiário CCLXXX


Fidalguia sem comedoria é como gaita que não assobia.


Nota: citado por Alves Redol, in "Horizonte Cerrado" (1946).

domingo, 13 de dezembro de 2015

4 quadras populares ribatejanas



A minha trança entrançada
serve de toda a maneira:
de dia serve de gala,
à noite de travesseira.

...
Água do Tejo vai turva
e a da ribeira barrenta;
o amor que não é firme
numa ausência se experimenta.

...
Quando chaparro der nozes
e a nogueira der cortiça,
então é que eu t'hei-de amar
se não me der a preguiça.

...
Os olhos dos namorados
têm um certo não sei quê,
que serve de sobrescrito
à carta que ninguém lê.
...

Nota: as quadras populares são recolhidas do volume "O Ribatejo" (Antologia da Terra Portuguesa, Bertrand), que, por sua vez, tinham sido seleccionadas por Alves Redol, em "Cancioneiro do Ribatejo".

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Contos, descrença e leituras


Será que poderei anunciar o fim da minha ingenuidade ou início da minha descrença, em relação à ficção? E, aos contos, em particular. O meu primeiro abandono, em leituras, deu-se com a ficção científica, há muitos anos atrás, ao quinto ou sexto livro lido, desta temática - não gosto. Desertei da infanto-juvenil, quando o meu filho mais novo atingiu a adolescência. E, quase em simultâneo, da BD, onde apenas vim a ter uma recaida proveitosa com Hugo Pratt e o seu Corto Maltese. Não mais. O cinismo e o dogmatismo põem sempre alguns perigos, guardo-me deles, porque nunca se sabe se podemos vir atrás. Mas já Afonso Duarte (1884-1958) avisava: "...Voltar atrás é uma falta de saúde..."
Acontece que, por desfastio, nos últimos 3 dias, me dediquei à leitura de curtas narrativas de ficção. Contos, quero eu dizer. Comecei por Maupassant (Guy de): reli O adereço, depois li Uma "vendetta" que, quanto a trama imaginativa, são soberbos. Mas os assuntos são datados, os sentimentos das personagens, obsoletos, hoje em dia. Já não colam ao leitor.
Depois, patrioticamente, fui aos nacionais. Afonso Ribeiro (1911-1993), com Uma luz nas trevas, deixou-me descalço de piedade e simpatia, pela sua caridadezinha neo-realista. Alves Redol (1911-1969) acordou-me um pouco com O combóio das seis, pelo seu realismo e diálogos movimentados de subúrbios fabris, bem sugestivos. Mas o final do conto (deus meu!) estraga tudo. Finalizei com Aquilino Ribeiro (1885-1963), de que reli: António das Arábias e seu cão Pilatas, que, no seu pendor cinegético e rural, me reconciliou um pouco com a boa literatura nacional; mas que não chegou para me entusiasmar (fiz batota em duas ou três páginas, de intensidade mais onírica, quase no final), por aí além.
Terei de chegar à conclusão que já me vai faltando aquela supension of desbelief - de que falava S. T.  Coleridge - e que caracteriza os leitores com fé? Com boa fé - melhor dizendo. Talvez.
Mas dou-me por feliz, ao pensar que há muitos livros de História, Poesia, Biografias e Ensaio, que nunca li...

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Lembrete 15


Saiu hoje, com o jornal Público, o primeiro livro (edição fac-similada) de muitos que foram proibidos pela Censura e retirados de venda, no tempo do Estado Novo.
Para lá de ser uma das obras pioneiras do Neo-realismo, "Gaibéus" (1939), de Alves Redol (1911-1969), traça um retrato realista do campo, em tudo contrastante com a visão idílica rural dos romances de Júlio Dinis (1839-1871), escritos cerca de cem anos antes.
Não menos importante, o livro vem acompanhado do texto do relatório do Censor, que conduziu à apreensão e proibição da obra. Tudo isto ao preço imbatível de 1,95 euros, na compra do jornal diário.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Durienses e populares


Em "Horizonte Cerrado - Ciclo Port Wine 1", de Alves Redol, entre ladaínhas e versos, encontrei um responso, uma quadra castelhana e mais quatro portuguesas, que me parecem populares. Escolhi 3 delas:

Fui ao Doiro, à vindima,
Pagaram-m'a trinta réis,
Dei um vintém ao barqueiro,
Só me ficaram dez réis.

Nossa Senhora da Serra,
Carqueijinha do Marão...
Olhinhos que foram meus,
Agora de quem serão?

Vinho fino do Alto Douro
De forte me faz falar,
Põe-me alegre, põe-me fino
E só «m'estrova» o andar.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Por entre os dias


Ontem, iam carregados os azúis do rio, arrepiados apenas, de longe a longe, pelo voo picado das gaivotas sobre algum peixe que se atrevia a vir à tona das águas. Mas, hoje, o Tejo está cinzento de chumbo e as águas quase parecem geladas de imobilidade e mimetismo com a terra fria.
Mesmo no interior do Bairro havia um friozinho que se desunhava por nos apoquentar e uma chuva molha-tolos impertinente que nos empurrava para cafés de salas aquecidas, ou lojas agasalhadas. Mas houve tempo de se falar da vida, dos amigos, do amor na oblíqua dos encontros virtuais, como se fora numa floresta de enganos, ou de espelhos. E de nos rirmos, numa cumplicidade do sangue, que a idade perdoa.
E até houve tempo e acaso, para numa loja improvável, eu encontrar uma belíssima capa de Pomar num velho (1949) livro de Redol. Que, gulosamente, comprei, e tenho agora à minha frente. Já no calor da casa.

domingo, 22 de janeiro de 2012

O centenário de Alves Redol



Só tarde me dei conta de que tinha deixado passar a data do centenário do nascimento de Alves Redol (29/12/1911 - Novembro de 1969) e, hoje, verifiquei que nunca referira o seu nome neste Blogue. É uma omissão imperdoável, a minha, até porque li boa parte da sua obra, e gostei muito de dois ou três livros que Redol escreveu. Ainda considero "Barranco de Cegos" (1961) um dos bons romances portugueses do séc. XX, até porque o voltei a ler, aqui há poucos anos. E mantive a opinião que tinha sobre a sua qualidade literária.
Esquecidos, ou desvalorizados pelo tempo, tantos outros como Namora, Faure da Rosa, Marmelo e Silva, Loureiro Botas, Ferro Rodrigues, todos eles colados ao neo-realismo, mas datados, o verbo de Alves Redol, em muitas das suas obras, mantém o vigor e interesse de leitura. Por isso aqui o lembro, através das capas de três dos seus livros.

Obsv.: a capa de "Gaibéus" é de Manuel Ribeiro de Pavia, as outras, de João da Câmara Leme.