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sexta-feira, 15 de julho de 2011

Os cornos da Lua

Tenho para mim que, de algum modo, a poesia satírica, no séc. XVIII português, é bem mais conseguida do que a poesia lírica, em qualidade. Estou a pensar, sobretudo, em Jazente, Cruz e Silva, Tolentino, Bocage, António Lobo de Carvalho...
Vem isto a propósito dum soneto, manuscrito (Ms. 8582, pg. 156, da BNP), ridicularizando o poeta Alvarenga Peixoto (1744?-1793), por este ter usado, num soneto, o verso: "Por mais que os alvos cornos curve a Lua". O soneto satírico, de autor desconhecido, é o seguinte:

Certo aldeão de Sintra se apeava
Do jumento, e a beber o conduzia;
Bebeu o burro, e à volta pretendia
Montar no dono, e nisto porfiava.

- Burro atrevido, - o aldeão gritava -
Donde te veio a ti tanta ousadia?
- Tenho alma como tu, e não sabia
Que espírito tão nobre me animava!

- Tu tens alma, ó burro? Mais preclaro
És entre os burros. - Não é como a tua,
Imortal, mas meu juízo é claro.

- Quem te deu pois ou te emprestou a sua?
- Quem foi? : aquele espírito tão raro
O grão Doutor que cornos deu à Lua. 

sábado, 5 de junho de 2010

Um Árcade ultramarino


Cláudio Manuel da Costa nasceu no Brasil, a 5 de Junho de 1729, e veio a morrer, em circunstâncias não totalmente esclarecidas ( suicídio?, assassinato?), na prisão, em 4 de Julho de 1789, também no Brasil. Estudou em Coimbra onde se formou em Direito e criou com Alvarenga Peixoto, Tomás António Gonzaga, entre outros, a chamada Arcádia Ultramarina. Como árcade adoptou o nome de Glauceste Satúrnio. O seu livro de poesias publicado em Coimbra, em 1768, é objecto de uma rara curiosidade: tem uma das maiores e indesculpáveis gralhas no título da portada. Em vez de Obras Poéticas, tem impresso "Orbas (sic) Poéticas". Teve uma vida profissional de sucesso, como advogado, e era muito considerado como poeta. Até que foi acusado de ser um dos cabecilhas da "Inconfidência Mineira" cujo chefe seria "Tiradentes", e encarcerado veio a morrer. A sua obra é vasta, e os seus poemas são melódicos e fluentes. Foi sempre, no entanto, mais estudado no Brasil do que objecto de atenção por ensaístas portugueses - Vitorino Nemésio foi uma das excepções portuguesas. Transcreve-se um soneto do Poeta:

Não de tigres as testas descarnadas
Não de hircanos leões a pele dura,
Por sacrifício à sua formosura,
Aqui te deixo, ó Lise, penduradas:

Ânsias ardentes, lágrimas cansadas,
Com que meu rosto enfim se desfigura,
São, bela ninfa, a vítima mais pura,
Que as tuas asas guardarão sagradas.

Outro as flores, e frutos, que te envia,
Corte nos montes, corte nas florestas;
Que eu rendo as mágoas, que por ti sentia:

Mas entre flores, frutas, peles, testas,
Para adornar o altar da tirania,
Que outra vítima queres mais, do que estas?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Salão de Recusados VIII : Cruz e Silva


António Dinis da Cruz e Silva (1731-1799), Juíz e poeta cuja obra lírica foi sufocada pelo sucesso de "O Hissope", nasceu em Lisboa e faleceu no Rio de Janeiro quando se preparava para regressar a Portugal. No Brasil desempenhou funções de Desembargador da Relação do Rio e teve a seu cargo o julgamento da "Inconfidência Mineira" em que foram réus os seus amigos: Tomás António Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa e Alvarenga Peixoto, para além de "Tiradentes", considerado o chefe da rebelião.

A obra lírica de Cruz e Silva é tão mal conhecida que correm 2 sonetos seus como sendo de Correia Garção, integrados nos "Clássicos Sá da Costa" cuja edição foi preparada e seleccionada (mal) por António José Saraiva.

A sua atribulada viagem de Portugal para o Brasil mereceu-lhe um interessante soneto que transcrevo abaixo.

Saimos pela barra com bom vento,
Mas ao terceiro dia de viagem
Se alçou de Noroeste tal aragem
Que as vagas arrojava ao firmamento:

Socegado este horrendo movimento,
Em que roncava o mar como um selvagem;
Vimos ao sexto dia de passagem
A vinosa Madeira a barlavento.

Na barba da cruel Serra Leoa
Oito dias sofremos calmaria,
E o crebro fusilar com que o Céu troa:

Passamos logo a linha ao quarto dia,
E surgimos com toda a gente boa
Aos sessenta do Rio na baía.