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quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Linguagem médico-popular alto-duriense

 


Talvez a primeira (1936) ou, ao menos, das primeiras publicações do médico e escritor duriense João de Araújo Correia (1899-1985), seja este pequeno opúsculo de 24 páginas, que custava Esc. 6$00, e pertenceu à biblioteca do jurista conimbricense Octaviano (do Carmo e) Sá, conforme se pode ver pelo pequeno ex-libris.


Contemplando cerca de centena e meia de vocábulos específicos, alguns dos quais regionalismos, por aqui deixamos registados alguns, menos vulgares ou mais curiosos, com o respectivo significado:

1. Abafação - Asma.

2. Bojega - Pápula (empola, bolha).

3. Cirro - Tumor maligno.

4. Cravo - Verruga.

5. Escrepe - Blenorragia.

6. Ilhó - Ânus.

7. Morfeia - Lepra.

8. Pegar - Contagiar.

9. Pente - Região púbica.

10. Sapinhos - Oidiomicose

domingo, 8 de junho de 2014

Diário sucinto de umas férias, sem rede, no Alto-Douro (6 e último)


Há viagens que se fecham em si, uma vez feitas, bem como algumas férias já passadas. Outras, que se procuram e se guardam, para sempre, num compartimento estimado da memória. Mas, à partida, nunca saberemos a brevidade ou longevidade desse tempo delimitado que foi nosso.
30/5
Manhã de sol, embora ligeiramente nublado a sul, cobrindo os píncaros mais altos. Céu totalmente limpo, pelas 9h00. O pequeno-almoço, por aqui, além de um bom momento de convívio, é sempre reconfortante: se o leite (Vigor) e a manteiga (açoreana) vieram do sul, o pão regional, fabricado em Donelo, é excelente.
Sejam as simples carcaças, que nada parecem ter de industrial, quer o pão grande, bem cozido, que dá um fatiado de miolo pleno e fofo. Não podemos é perder o padeiro ambulante e simpático, que se faz anunciar pelo buzinar da carrinha, todas as manhãs, pelas veredas sinuosas das povoações. A alternativa é ir buscá-lo ao minimercado da aldeia (mercearia-café, melhor dizendo), mas o pão esgota-se depressa.
A águia-de-asa-redonda (?) só aparece ao fim da tarde. Deixa aos pequenos pardais os campos livres, no entretanto. Mas também aos melros, às rolas, aos pintassilgos, que aproveitam, numa justa distribuição comunitária, natural. Como nos minifúndios minhotos, a rega, entre vizinhos, é horariamente partilhada...
Os dias crescem ainda e a luz solar, às 20h30, estende-se pelas encostas, fazendo ressaltar o casario branco, por entre os tons diversos do verde: olivedos, vinhas, pinhais... Não há vento e toda a natureza parece acomodar-se à tranquilidade da noite de quarto-minguante, que será a última, para nós, aqui.
Parcimoniosamente lidas, vou acabar as "Mitologias" de Barthes.
31/5
Às 6h50, o sol já ilumina os topos mais altos dos montes, em frente da casa.
Arrumar, regressar... Havemos de parar na Régua, para o almoço.

sábado, 7 de junho de 2014

Diário sucinto de umas férias, sem rede, no Alto-Douro (5)


29/5
O sol piscou um pouco, de manhãzinha, mas pisgou-se logo, e as nuvens cinzentas ocuparam o horizonte, em Donelo. Mas o nosso objectivo era passearmos de barco no Douro, e pusemo-nos a caminho.
No Pinhão, o rio arredonda-se numa pequena baía, que mais parece uma lagoa, amena e tranquila pelas dimensões limitadas. O rabelo "Quinta de Ventozelo", adaptado, tem capacidade para 30 pessoas (com zona coberta e descoberta), mas a viagem de ida e volta até às águas da Quinta da Romaneira (1 hora), faz-se com apenas 18 pessoas e mais dois tripulantes. Só duas são portuguesas, as restantes distribuem-se por: flamengas, francesas, alemãs e inglesas (americanas?). Na conversa breve que tenho com o Arrais da barca duriense, recolho uma nova versão do naufrágio e morte do Barão de Forrester, no Cachão da Valeira, em que a Ferreirinha (D. Antónia), que se salvou por causa das suas saias de balão, não teria tido um papel inocente... Diz-me o Homem do leme, também, que a Capitania do Porto expediu recentes directivas que limitam estes rabelos a só levar 15 turistas: o que ele acha ridículo, porque as barcas transportavam, antigamente, até 20 tonéis de 300 litros, com vinho do Porto, até Vila Nova de Gaia. Mas ordens burocráticas, também são ordens...
No regresso, por descoberta de HMJ, ainda colhemos fruta de uma cerejeira brava que se inclinava sobre a estrada. Quase duzentos gramas de pequenos frutos de pele translúcida, bem saborosos e  doces.
Já em casa, ao fim da tarde, o sr. Pedro, acompanhado do seu fiel Póxi, leva-nos o garrafão de azeite duriense, encomendado anteriormente. Ficámos a falar sobre a fauna regional e as actividades cinegéticas. Que há excesso de melros - diz-me ele -, porque a caça destas aves foi proibida e, agora, os pássaros dão cabo das sementeiras. Em compensação desfavorável, há poucas perdizes e coelhos bravos, talvez por causa das muitas águias, que a Comissão Venatória tem libertado, pela zona - aventa. 
Até sempre, sr. Pedro!

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Diário sucinto de umas férias, sem rede, no Alto-Douro (4)



Dos animais domésticos, sempre prezei mais os canários, pelo seu cantar, sobretudo, mas também pela elegância corporal e pelas suas cores.
28/5
Em geral, não gosto de cães, pelas muitas mordidelas que sofri na infância e minha juventude. Mas tenho uma especial simpatia pelo jovem (com quase ano e meio) Póxi, da raça Labrador (Retriever) do sr. Pedro. Quando o dono vem trazer a botija de gás a nossa casa, pela picada sinuosa que desce de Donelo, o Póxi trota alegremente à frente da carrinha, sempre uns dois ou três metros adiante. Da corrida, chega já cansado, mas parece feliz, e deita-se nas lajes de xisto, que rodeiam a habitação, ficando a resfolgar, de língua de fora e pendente. E, se lhe trazemos um balde de água do poço, bebe sofregamente até ao fim. Quando termina, olha-nos atento e parece agradecido. A sua alegria contagiante chega a mim.
11h40 - Galafura (S. Leonardo de), de Galafre, emir mouro que, segundo a tradição, por aqui construiu um fortim, em tempos imemoriais, no pequeno planalto, donde o Douro se pode ver em quatro perspectivas, bem como o Marão, ao longe. Na igrejinha do topo, em azulejos simples, um poema de Torga que, na sua discursividade prosaica, cai bem, ao ler-se, embora do Poeta transmontano eu lhe prefira a "Bucólica" ("A vida é feita de nadas...") - para mim, um dos grandes poemas em língua portuguesa.
No pequeno restaurante "S. Leonardo", com magnífica vista sobre o Douro, almoçámos um cabritinho assado, delicioso, com arroz de carqueja a condizer, acompanhado por um "Quinta dos Mattos", tinto reserva de 2008, onde entrava Tinta amarela, casta não muito frequente, por estas bandas. Serviço atento e gentil, preços justos. E, se não fora à entrada, a fotografia na parede, da múmia de Belém, que aqui refeiçoou, em 1993, na sua versão de PM, seriam tudo boas recordações... Mas que fazer?, se, daqui, não estamos longe do Cavaquistão.

Obsv: Infelizmente, não fotografámos o Póxi. A imagem é do cão mais parecido que achei na net...

terça-feira, 3 de junho de 2014

Diário sucinto de umas férias, sem rede, no Alto-Douro (3)


A passagem para a, "economicamente" dita, vida "inactiva" ou de reformado, cria um esbatimento profundo de fronteiras na dicotomia agressiva e antagónica de: férias/ano de trabalho. Só uma mudança geográfica, muito radical, alterando as rotinas habituais, consegue reinstalar o perfil da diferença e estado do espírito.
27/5
A manhã trouxe-nos uma desagradável notícia: não tinhamos água. O dia tinha amanhecido ameno e soalheiro, mas as torneiras da casa branca, metálicas e insensíveis, recusam a menor generosidade - quatro ou seis gotas avaras, que mal dão para desembaciar os olhos, da fuligem da noite. Um garrafão de 5 litros de água de Luso, na despensa, e por abrir, poupa-nos ao desespero (de citadinos empedernidos), e são a garantia reconfortante para escassas abluções matinais. (Mais tarde, por telefonema do dono da casa, o problema foi resolvido: bastava ligar um botão da instalação eléctrica, para vir água do poço - bebível, até.)
17h15 - chuva breve que rapidamente secou nas placas de xisto, em volta.
18h00 - uma ave de rapina (águia-de-asa-redonda [buteo buteo]?), de tamanho médio, evolui metodicamente, de baixo para cima, em paralelas sucessivas, pairando por sobre os campos cultivados e as vinhas. Quase no cimo, do morro mais alto, desaparece do meu horizonte, para norte.
O que mais me surpreende, por aqui, é o minucioso e heróico trabalho nos campos. Raríssimas são as parcelas de terreno que não estão cultivadas. Decerto sempre foi assim, e imagino o hercúleo labor que dão estes socalcos, para quem os quer fazer florescer e produzir. Tirando os espaços florestados (pinheiro, carvalho, castanheiro...) tudo é resultado de força, persistência e suor humanos, muitas vezes, inglórios, que a agricultura nunca é "favas contadas", nem sucesso garantido, antecipadamente.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Diário sucinto de umas férias, sem rede, no Alto-Douro (2)


26/5
Naturalmente, arredondei as dezenas, que o tempo é como a bandeirada iniciada de um táxi, que não pára, uma vez a caminho - e bem apetecia que, por vezes, um momento se prolongasse mais e mais, sobretudo quando, inesperadamente, nos atinge essa harmonia de plenitude física e mental em que tudo está bem.
Nada se altera, no fundo, de substancial, por mais um ano sobre a idade, mas a razão regista o facto, como se fora uma ameaça sobre o futuro. Bem como uma noção estranha de escassez do tempo, mesmo que não haja um objectivo pré-determinado a cumprir.
HMJ presenteou-me(-nos) com uma aromática e deliciosa "Vitela à Fafense", e a mesa do almoço até contou com um estimadíssimo nativo dessa terra minhota. Eu contribuí com um "Quinta de la Rosa", tinto 2010, que se portou à altura, e que fora comprado na própria Quinta da sra. Bergqvist, situada muito próximo de Covas do Douro. A "Mousse de Manga" e queijos finais tiveram merecida solidariedade de um "Duque de Viseu" de 2008, na sua arredondada macieza de Touriga Nacional e Tinta Roriz.
Para esmoer, fomos passeando em redor da casa branca, pelos relvados e pequenos declives. Por aí, o A. descobriu dois medronheiros ainda jovens, e a I. colheu rosmaninho e alecrim para levar, no regresso.
Sol pleno até às 17h00, hora de saída dos Amigos. Depois, o céu ficou cerrado por nuvens altas e o vento levantou-se por entre as oliveiras. Quanto ao coração, esse, continuava a trotar alegremente.

Pinacoteca Pessoal 78


Há muitas coisas, neste mundo, que merecem e pedem para ser vistas, ou conhecidas, mas nem sempre as descobrimos por nós mesmos. Alto-Douro, a poesia de Manoel de Barros, Max Liebermann estavam lá, na sua singularidade, mas foi através dos outros e da sua atenção que eu dei por eles e os vim a instalar no lugar dos meus afectos.
Não fora um lindo postal de parabéns, que há dias recebi da Bélgica, e ainda hoje eu nada saberia do pintor alemão, de ascendência judaica, Max Liebermann (1847-1935). Impressionista, mas incluído também no primeiro Modernismo germânico, é considerado um bom retratista da sua época, não só pela representação humana, mas também pelas suas telas que têm por motivo cenas de lazer, preferidas pelos seus contemporâneos.
É nesta temática que se insere o quadro do Museu de Hannover (Niedersächsisches Landesmuseum), de 1901, intitulado "Jogo de Ténis na Praia", da imagem. A primeira tela é um auto-retrato.

domingo, 1 de junho de 2014

Diário sucinto de umas férias, sem rede, no Alto-Douro (1)


24/5
Almoço desinteressante em Lamego.
Chegados, verifico que as assimetrias de Portugal, por aqui, são ainda mais evidentes. Consegui ver que há comentários nalguns dos últimos postes do Blogue, mas nem sequer consigo abri-los, muito menos, responder. No entanto, da janela vejo, enormes e altos, 3 "moínhos eólicos", no monte defronte, sinal da modernidade tecnológica e ambiental portuguesa, mas a inefável tmn-MEO quase não tem rede, aqui, nem mesmo para telemóveis, e trabalha, no mínimo, à velocidade obesa e preguiçosa de um caracol distraido.
Vou-me resignando à hipótese provável e desagradável de o Arpose ficar "congelado" por uns tempos...
Mal que eu só tenha trazido dois livros para ler! Paciência... olho a paisagem, que é lindíssima. À noite, inicio as "Mitologias" de R. Barthes.
25/5
Domingo, 8h44. Mais 4/5 tentativas frustradas para ligar a net e aceder ao Blogue. Em frente, cinco oliveiras retorcidas e centenárias asseguram a antiguidade do lugar e a permanência estática do espaço. Isolado, agreste, sem abertura alguma ao futuro ou à modernidade que, fatalmente, nunca passará por aqui. Fecho o computador e desisto. O telemóvel, inerte e sem vida. Inesperadamente, consigo mandar uma mensagem... mais nada.
Donelo, Gouvinhas, Ferrão, Covas do Douro, andam por aqui à volta, numa babel de nomes estranhos e  cujo som fonético convoca tempos imemoriais, no mesmo ermo de solidão e penedia alta. Para chegar a casa, são cerca de 350 metros de picada exígua de largura, e inóspita.
16h10, Pinhão. Por momentos, no computador, a ligação"...Paris, S. Petersburgo, o mundo..." (Cesário). A suprema ironia...

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Torga


Seria quase um sacrilégio, estando no Alto-Douro, não falar de Torga. Porque ele é aqui uma espécie de herói regional, um santo laico, uma referência constante. E o seu nome tanto o podemos ouvir de um bancário, de uma jovem empregada de restaurante, como de um singelo lavrador.
No seu diário, em 1977, Miguel Torga gravou, para sempre: "A velhice é isto: ou chora sem motivo, ou os olhos ficam secos de lucidez."