Mostrar mensagens com a etiqueta Aimé Césaire. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Aimé Césaire. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Confusão de sentimentos


Por entre sentimentos contraditórios, tomei conhecimento da dispersão, através de leilão, da biblioteca de François Miterrand (1916-1996), recentemente em Paris. As heranças a distribuir, neste caso particular, são o diabo!...
Eu creio que, perante situações destas, um bibliófilo honesto e autêntico, experimenta sensações adversas, no seu íntimo. Projecta o futuro dos seus livros e é atingido por uma nostalgia ontológica; depois, encara o leilão concreto, como uma janela de oportunidades, para enriquecer a sua biblioteca.
Senghor (1906-2001), com Aimé Césaire e José Craveirinha são os poetas da negritude que eu mais estimo, sobretudo, por questões de qualidade do seu ofício.

Por isso, embora vindo de uma biblioteca que se dispersou, por força do destino, eu não quis perder este livro com dedicatória do poeta e político senegalês. Que a endereçou a uma representante de uma família guineense conceituada, que ainda tinha raízes na Serra Leoa. Porque África, por metáfora excessiva, também pode ser considerada uma pequena aldeia... E, também, porque apesar da descolonização, ainda há muita coisa que vem parar à Europa. 

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Fragmento de um poema de Aimé Césaire


São normalmente extensos os poemas de Aimé Césaire (1913-2008), nascido na Martinica. E, se já no Arpose lhe traduzimos um poema (a 5/5/2012) mais curto, de algum modo, neutro, onde expressava a sua africanidade de raiz, neste fragmento do seu livro Cahier d'un retour au pays natal (1939), a dureza das suas palavras, bem como a sua ironia tensa, dirige-se ao colonizador europeu, numa negritude de tom quase agressivo. Assim:
...
Ouçam o mundo branco
ferozmente cansado no seu imenso esforço
as suas rebeldes articulações a estalar sob as estrelas cruéis
a sua rigidez de aço azul transparecendo na carne mística
escutem as suas vitórias produzidas para abafar o som das derrotas
ouçam os grandiosos álibis da sua vileza tonitruante
Piedade para os nossos conquistadores omniscientes e ingénuos!
...

sábado, 5 de maio de 2012

Um poema traduzido de Aimé Césaire


Com Léopold Sédar Senghor (Senegal, 1906-2001), que ainda tinha nas suas raízes sangue português, Aimé Césaire (Martinica, 1913-2008) é, talvez, dos menos reconhecíveis poetas da negritude, na língua francesa. Neste aspecto e do meu ponto de vista, muito próximos do moçambicano José Craveirinha (1922-2003), na sua relação poética com a tradição e língua portuguesa. Quero eu dizer, quase não há nas suas obras aquela estridência tropical exclamativa, aquela superficialidade exuberante que caracteriza muita da poesia ultramarina, mesmo que escrita em língua europeia. Dito isto, que será polémico, passemos a traduzir, de Aimé Césaire, o poema:

Percurso

Da minha íntima saliva retive líquido
o sangue
impedindo que ele se perdesse por escamas esquecidas
Cavalguei por entre mares incertos
os golfinhos memoráveis
desatento a tudo excepto
no recensear o recife para marcar o amargo
Por porto seguro tenho deuses
reinventei as palavras
Onde desembarquei trabalhei o baldio
escavei o sulco desenhei as leiras
cá e lá sacrificando limite após limite
Ó Esperança a química humilde
da tua amarga estaca