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sábado, 11 de dezembro de 2021

Provincianismos



Um folheto publicitário de uma conhecida cadeia de grandes superfícies, chegado à minha caixa de correio, no meio das inúmeras promoções de Natal em que constavam 9 whiskies, anunciava apenas uma banal e média aguardente velha, e mais um pindérico brandy nacional.
O novo-riquismo português, em matéria de destilados, campeia desde há muito, com o deslumbramento pacóvio ante o estrangeiro. Embora algumas das nossas aguardentes velhas (Adega Velha, Ferreirinha...) possam ombrear, tranquilamente, com os melhores conhaques franceses.
Para não falar da banalidade flagrante de uma grande maioria de whiskies que por cá aparecem... Mas, como quase tudo aquilo que vem de fora, tem a reverência palerma e acrítica do zé povinho nacional. Não há nada a fazer, vem de há séculos atrás. Nesse aspecto, somos extremamente conservadores.  

domingo, 8 de maio de 2016

Tudo nos conformes


Nunca fui muito afecto aos produtos vínicos oriundos da já centenária casa Borges & Irmão, fundada por dois irmãos, no já longínquo ano de 1884. Aquando do 25 de Abril de 1974, a empresa estava integrada no grupo do Banco Borges, inserida, após o 11 de Março, no Banco de Fomento e mais tarde no BPI. Que, em data posterior, a veio a vender à empresa JMV. Dos vinhos comercializados, em meados do século XX, o Gatão (vinho verde) era talvez o mais conhecido. Mas o Lello (Douro) e o Meia Encosta (Dão) tinham também alguma expressão na produção nacional. Tirando o Gatão, nunca fui grande cliente destas marcas, e até desapreciava muito o Lello duriense, que sempre achei medíocre. Em tempo de juventude acrítica, cheguei a provar algumas vezes o Brandy Borges que tinha alguma fama, comparável à do L34, que era o meu favorito, nos chamados digestivos. Há muito que deixei de beber brandies, optando sobretudo pelas aguardentes velhas, em que tem predominado a Fim de Século que me parece ter uma excelente relação qualidade/preço. Mas também uma aguardente branca, artesanal e barata, que costumo comprar em Almoçageme, colhe as minhas preferências gustativas. E macia que ela é!...
Ora, aqui há uns dias atrás, e depois de uma acolhedora favada, apeteceu-me beberricar um espirituoso para melhor jiboiar. Deparei-me, surpreso, com garrafas praticamente vazias, pelo que não me restava outra hipótese senão fazer uma surtida pelas reservas, já poucas, das prateleiras da despensa. Guardado há muito (não exagero se disser há mais de 35 anos), estava este Brandy Velho de Frasqueira, da Borges, com os seus 40º circunspectos e empoeirados, por fora. Imaginei que fosse ruim de beber, mas lá me resignei a abri-lo, porque, como diz o povo: "Quem não tem cão, caça com gato." E foi uma encantadora surpresa, na cor, no sabor e no aveludado trago de macieza na boca. Melhor que muitas aguardentes velhas que andam por aí. Para não falar da pobreza dos whiskeys que tantos portugueses bebem, por status parolo de internacionalismo. Assim, e por uma questão de justiça, tenho que louvar a velha casa Borges & Irmão, por este produto de excelente qualidade, muito provavelmente, esgotadíssimo no mercado.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Mercearias Finas 78 : as Velhíssimas lusitanas


Sempre achei uma pepineira saloia, este gosto pasmado de tantos portugueses que prescindem de algumas das muitas  belíssimas e velhíssimas aguardentes lusas, para se curvarem alarve e servilmente perante conhaques franceses, whiskies escoceses, irlandeses, americanos. Alguns acharão que ganham mais status e consideração mas, na maior parte dos casos, são apenas ilustrados exemplos da nossa falta de sentido crítico. E de falta de gosto, gastronómico.
Qualquer estrangeiro experimentado, a quem demos a provar uma Adega Velha nortenha, fica quase sempre deslumbrado. E a Fim de Século mede-se bem, e por alto, com muitos dos melhores digestivos de franças e araganças. Para não falar da Ferreirinha, da Casa de Saima e tantas outras. Porque têm aroma, sabor personalizado, o toque profissional da manufactura, quase e ainda, artesanal.
Em bares lusos ou em casas portuguesas folgadas é raríssimo encontrar-se alguma escolha criteriosa de aguardentes nacionais mas, quanto a whiskies: é fartar, vilanagem...
Todo este arrazoado para destacar, pela alta qualidade, e nomear a magnífica Aguardente bagaceira Velhíssima de Borba ( da Adega Cooperativa alentejana homónima) que descobri, há semanas, e que é um espanto. Nos seus 40º amenos, no aroma, no sabor e na cor. E no apreço saudoso que nos deixa na memória gustativa. A preço compatível e honesto, bem merecido. E em garrafa elegante.

terça-feira, 20 de março de 2012

Produtos Nacionais 5 : Casa de Saima


Já em matéria de bibliofilia, os portugueses desunham-se, nos leilões, para adquirir livros antigos da temática "Portugal visto pelos estrangeiros". Ficamos em suspenso para saber o que os estrangeiros pensam de nós. Os novo-ricos portugueses pelam-se por mostrar, todos ufanos, produtos da Cartier ou da Hermès, para fazer inveja aos amigos e inimigos: é o fado português ou, melhor dizendo, o parolismo nacional. A tradicional falta de sentido crítico que nos vem acompanhando, desde há séculos. Mostra suficiente do nosso subdesenvolvimento mental, que afecta grande parte da população nativa do extremo ocidental da Europa.
Damos os olhos da cara para comprar roupas estrangeiras, calçado inglês ou italiano "pour épater le bourgeois", quando temos produtos nacionais da mais alta qualidade. Pagamos exorbitâncias parvas para ter em casa whiskies de duvidosa qualidade ou conhaques franceses que estão na moda mas, em compensação, não temos uma boa aguardente velha portuguesa para oferecer a um amigo, numa noite fria de Inverno - é uma tristeza!...
Mas, hoje, é para mim uma alegria anunciar e recomendar, sinceramente, uma aguardente velha portuguesa, excelente. É produzida pela Casa de Saima. Macia, nos seus equilibrados 40º graus, mete no bolso qualquer whisky dos melhores ou qualquer conhaque francês aureolado por várias estrelinhas. Em elegantes garrafinhas de 50cl., com bom aroma e linda cor, custa cerca de 13,00 euros. Por favor, olhem e provem os produtos nacionais! Ajudam a combater a crise e ficam melhor servidos.

sábado, 7 de maio de 2011

Recomendado : treze - Aguardentes velhas


Eu sei que nem toda a gente, para além dos abstémios, gosta de aguardentes velhas, em Portugal. Mas até finais dos anos 60, enquanto as senhoras se ficavam pelo vinho do Porto, pelo licor de Alcobaça, Beirão ou de Singeverga e, em Junho, sobretudo em Lisboa, se permitiam uma ginginha popular, os cavalheiros, esses, depois do almoço ou do jantar e do café, deliciavam-se com brandy (Constantino, L34, Croft...) ou aguardente (branca ou envelhecida). As posses limitadas e a periferia salazarista raramente permitiam conhaques ou whiskies. Mas acabaram por vir, nos anos 70, por melhoria económica (que foi breve) e por ostentação de neo-riquismo de sucesso. Pela minha parte, à excepção do "L'Aiglon", nunca apreciei conhaque. Foi pelos anos 80 que descobri a "Adega Velha", da Aveleda, com a sua garrafa esguia e tortuosa que, ainda hoje, considero o Rolls-Royce das aguardentes velhas portuguesas. Ainda lhe mantenho fidelidade mas, como é cara, as mais das vezes fico-me pela "Fim de Século" cuja relação preço-qualidade é boa, ainda para mais, porque é envelhecida em cascos de carvalho, por onde passou vinho do Porto. Que se sente no aroma e no sabor.
Ora, há cerca de duas semanas, uma rede de lojas de média superfície teve a boa ideia de lançar no mercado uma nova (?) aguardente velha que dá pelo tauromáquico nome de "Estoqueador", da Companhia das Quintas, ao imbatível preço de 9,99 euros. É de boa qualidade e muito agradável.  Tem uma linda cor no cálice, 38º bem comedidos para aguardente velha, bom aroma e sabor. Equiparo-a à "Fim de Século", um pouco menos seca, e fica mais barata, cumprindo bem a sua função acalentadora. Por isso a recomendo.
E, além do mais, é um produto nacional de muito boa qualidade.