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segunda-feira, 17 de julho de 2023

Um poema de F. G.



Das Guerras - III

Falemos acerca das cerejeiras de Kudan, no Japão. 
É uma colina onde estão os corpos dos que morreram.
Nela há muito que crescem as cerejeiras. Todos os anos,
com a passagem das estações, vêmo-las em flor. Talvez
na sua seiva passe o espírito dos que apenas receberam
o silêncio que se segue aos combates. Eram soldados;
tinham por isso de matar. Obedeciam a ordens. A morte
era para eles uma cerimónia e se depois partiram
para Kudan é porque a vida já não lhes pertencia. Outrora
ao amadurecerem as cerejas, principiavam a colhê-las,
mas compreenderam que as iam depois perder. O tempo
passou por ali mais depressa. Agora que idade têm?


Fernando Guimarães (1928), in Das Mesmas Fontes (pg.24).

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Divagações 160


Dou-me bem de vez em quando a reler obras que já foram de minha estimação, até para tomar depois a temperatura da minha perspectiva actualizada e do valor que hoje lhes dou, concretamente.
Calhou esta tarde a vez a Ramos Rosa, Almeida Mattos e Gedeão. O primeiro poeta quase me deixou indiferente, soube-me muito bem reencontrar as palavras do meu amigo António (Conjuntivo Presente, Afrontamento, 1991) e gostei de ler o início da introdução de Jorge de Sena à obra poética de António Gedeão, no volume da Portugália (1964).
Não resisto a transcrever um pequeníssimo excerto do texto de Sena:
[...] Um homem não começa a publicar livros aos cinquenta anos, para brincar de poeta consigo mesmo, mas porque rompeu os muros de timidez e de orgulho, que o inibiam de mostrar-se o poeta que era. Nem toda a poesia deste mundo nasce dos apetites juvenis de ser-se notável pelo menos para algumas páginas literárias e alguns críticos atenciosos. [...] (pg. XII)

domingo, 20 de janeiro de 2019

Da vizinha mais próxima da filosofia


Se não nos dotaram, a nós portugueses, da capacidade inata de filosofar, deram-nos, em compensação, alguns bons poetas que sabem reflectir. E a Poesia é, algumas vezes, a parente mais próxima da Filosofia. Na sua forma essencial de interrogar a vida e o mundo.



Numa estreita linhagem que vem de Sá de Miranda, passa por Francisco Manuel de Melo, toca de raspão em Herculano e Quental, e desemboca na foz multímoda de Pessoa e algum Sena, a poesia de Fernando Echevarría (1929) não renega esse parentesco, que vem, dignamente, de longe.
Editado recentemente (Setembro de 2018), pela Afrontamento (Porto), Via Analítica, de Fernando Echevarria, vem pensar connosco.
Como neste poema sem título, na página 11, deste belo livro.

Pensar ajusta-se ao momento. Tenta,
sabendo que é preciso que o afecto
tome conta de toda a inteligência
para mobilizar o pensamento.
E a mobilização modula a empresa
conforme o ritmo se desprender, concreto,
do corpo maciço da matéria
para limpo o mover e transcendê-lo.
E, daí, alargar a transparência
a um mundo fecundando-se a si mesmo.
Feliz, por dar lugar a essa doença
que punge, e cresce por um azul sereno
de pautas perecíveis. Diligência
a expandir-se, cumprindo um universo
interior, a transferir a pena
da partitura para um fora aberto.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Recomendado : setenta e quatro - Ilse Losa (1913-2006)


Editado pela Afrontamento (Porto), em Março de 2018, sob coordenação e prefácio de Karina Marques, o volume Ilse Losa : estreitando os laços é uma bela homenagem à escritora de origem alemã, que veio enriquecer as letras portuguesas. Não só pelo cuidado estético posto na edição, mas também pelo rico e extenso conteúdo. Apenas um senão: muitas das referências em língua alemã estão gralhadas. Uma revisão mais minuciosa e competente tê-las-ia evitado...
Mais do que as cartas e postais de Ilse Losa, são as inúmeras missivas dos seus confrades que abundam no livro. De Almeida Faria a Eugénio de Andrade, de Jorge de Sena a Óscar Lopes, passando por Irene Lisboa, Matilde Rosa Araújo e Maria Lamas. Destacaria sobretudo uma carta de Eugénio de Andrade (pgs. 76 a 81) em que este se defende, justificadamente irado, da imaginação delirante de Cesariny, que o acusou de lhe plagiar alguns versos.
E também duas cartas trocadas (pgs. 254 a 266) entre Mário Dionísio e Ilse Losa, donde ressaltam a sinceridade crítica do metodólogo e a humildade límpida, mas argumentativa, da Escritora.
Deste livro ressumam, aqui e ali, queixas sobre os editores, principalmente, nos parcos e sempre atrasados pagamentos aos autores, nos problemas causados pela Censura, as pequenas tricas do meio literário pequeno e português. E, quem diria, a gula de alguns escritores em serem traduzidos e publicados no estrangeiro, sobretudo na Alemanha, em que Ilse Losa funcionava como importante veículo intermediário.
Não quero deixar de referir que a capa da obra ostenta o conhecido desenho-retrato, que dela fez Júlio Pomar.
Para quem quiser ter uma ideia documentada da segunda metade do século XX português e do seu meio literário, este livro é uma referência importante e imprescindível. Por isso, o recomendo.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Bibliofilia 78 : curiosas raridades



Nada prometia que os dois livros, em imagem, viessem a ser raros. Mas o acaso proporcionou que sejam. Foram ambos retirados do mercado, por razões diferentes. O primeiro (Adolescente Agrilhoado, de José Marmelo e Silva), de 1986 (4ª edição), impresso pela Caminho, com prefácio de Maria Alzira Seixo, terá sido retirado do mercado, por litígio entre o Escritor e a Editora - segundo me disseram. O segundo (O Pêndulo Afectivo, de Egito Gonçalves), prefaciado por Óscar Lopes, a cargo da Afrontamento, para sair em 1991, nem sequer foi posto à venda. Tinha dois erros de impressão clamorosos: a bibliografia de Egito Gonçalves vinha com os livros publicados, até aí, pelo poeta António de Almeida Mattos; e, além disso, não continha a habitual ficha técnica. 
Os livros foram-me oferecidos por dois bons Amigos. Um deles, infelizmente, já falecido.