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quarta-feira, 27 de maio de 2026

Estilos



Embora na margem dos aforismos, a diferença de 14 anos que os separa na data do nascimento e os países distintos (Áustria e Espanha) talvez ajudem a explicar o estilo de Karl Kraus (1874-1936) e o tom de Ramón Gómez de la Serna (1888-1963). Mais cáustico o primeiro, o segundo mais lírico, nas suas greguerías originais.
Aqui deixo quatro citações de Karl Kraus retiradas da obra Aforismos (VS., 2023):
- A cultura acaba com os bárbaros a evadirem-se dela. (pg. 245)
- O bibliófilo tem aproximadamente a mesma relação com a literatura que o filatelista tem com a geografia. (pg. 306)
- Psicanálise: um coelho que é engolido pela jibóia só quis averiguar o que passava no interior desta. (pg. 310)
- O austríaco deixa que lhe tirem qualquer estado, a não ser o estado de espírito. (pg. 368)

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

3 aforismos (irónicos) de Karl Kraus

 

1. As conversações de barbeiro são a prova irrefutável que as cabeças existem por causa dos cabelos. (pg. 58)

2. A vida familiar é uma intromissão na vida privada. (pg. 60)

3. O uso de palavras pouco usuais é um vício literário. Só se deve atrapalhar o público com dificuldades intelectuais. (pg. 107)


Karl Kraus (1874-1936), in Aforismos.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Uma máxima pragmática



Respeite-se o campo e ame-se a paisagem. É esta a atitude mais nutritiva.

Karl Kraus (1874-1936), in Aphorismen.


sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Uma afirmação (talvez) descuidada



O que faz deste livro uma leitura agradável e compensadora é provavelmente o facto de Agustina ser uma grande registadora de fragmentos, em prejuízo de obras de maior fôlego ou de escrita corrida.

sábado, 30 de março de 2019

Aforismos, apesar de tudo


Sou levado a pensar que João Guimarães Rosa (1908-1967) era um homem sujeito a premonições. Algumas obsessões e medos íntimos. Andou meses, temeroso, a adiar a sua entronização como membro da Academia Brasileira de Letras, até que consentiu em marcar uma data (16/11/1967), para a cerimónia. Três dias depois (19/11), morreu em sua casa, vítima de enfarte de miocárdio.
O seu último texto, originalíssimo como toda a sua obra, foi o discurso da sua tomada de posse.
Desse texto longo, retirei alguns extractos que mais parecem aforismos. E aqui ficam:

Duvidemos, isto, dos que o não souberam compreender, a traça não pode com a alfazema.
...
O afeto propõe fortes e miúdas reminiscências.
...
De onde fura a fonte? Diga-se: valor.
O altamente impessoal, quer dizer, o personalíssimo profundo.
...
Tudo, pela metade, é verdade. Os extremos já de si sempre se tocam, antes que tese e antítese se proponham.
...
Da sensibilidade e inteligência tem-se sempre de pagar ingrato preço.
...
As pessoas não morrem, ficam encantadas.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Karl Kraus, arte e linguagem


A arte é o mistério do nascimento da palavra antiga. O imitador está ao corrente, e é por essa razão que ele não sabe que há nisso um mistério.

Karl Kraus (1874-1936), in Pro domo et mundo.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Mais outro aforismo de Karl Kraus


Um pensamento não é legítimo, senão quando nos surpreendemos em flagrante delito de plagiato de nós mesmos.

Karl Kraus (1874-1936), in Pro domo et mundo (pg. 72).

terça-feira, 17 de março de 2015

2 aforismos (longos) de Karl Kraus (1874-1936)


Viena: o aristocrata come ostras, o povo olha. Berlim: o povo não olha, se o aristocrata come ostras. No entanto, para evitar ao aristocrata qualquer incomodidade e desviar a atenção do povo, ele come, na mesma, ostras. Eis a democracia em que me encontro.
...
Não é suficiente, a benefício da solidão, que nos sentemos sozinhos à mesa. É necessário que haja cadeiras vazias à volta. Se o empregado vem buscar alguma destas cadeiras vazias, eu sinto um vazio; e a minha natureza sociável desperta. Eu não consigo viver sem cadeiras vazias.

Karl Kraus, in Pro domo et mundo.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

4 aforismos do poeta escocês Don Paterson (Dundee, 1963)


Quase tudo na sala te vai sobreviver. Para esse espaço tu já és um fantasma, uma coisa patética que vai e vem.
...
Ele passou toda a sua vida paralisado por imaginários protocolos.
...
A tristeza de velhos sapatos. Calço-os de novo e, subitamente, lembro-me de todos os meus velhos amigos, que já não vejo há um ror de anos. Por essa razão.
...
Todos os meus professores foram mulheres. Embora vários homens me tenham chamado àparte, por cerca de uma hora, para me dizerem coisas que só eles sabiam.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Aforismos (ou paradoxos?) de Karl Kraus (1874-1936)


- Em Berlim circulam tantas pessoas, que não se consegue encontrar ninguém. Em Viena, reencontramos tanta gente, que acabamos por não conseguir circular.
- Não ter de pensar e poder exprimi-lo - eis o que faz o jornalismo.
- O historiador, muitas vezes, não é senão um jornalista que se inclina para trás.
- Num verdadeiro retrato, deve-se reconhecer qual o pintor que ele representa.
- Parecer tem mais letras do que ser.
- A arte põe sempre a vida em desordem. E os poetas da humanidade reordenam sempre o caos.