Talvez o que melhor distinga a crítica ou recensão crítica de origem anglo-saxónica é que, após a sua leitura, não se fica de todo ignorando o enredo ou tema do livro que foi analisado. Noutras críticas de origem europeia, muitas vezes, a citação erudita ou os malabarismos pseudo-intelectuais correm paralelos, mas nunca convergentes, ao teor da obra e, frequentemente, ficamos sem saber aquilo de que o livro trata, na realidade. É, talvez por essa razão, que a crítica portuguesa tem má fama. Assim, achei que talvez fosse útil traduzir e citar, do TLS (nº 5832), o início da recensão que o editor Adam Begley fez sobre o livro "The Republic of Imagination", de Azar Nafisi. Portanto, aqui vai:
Uma das muitas maneiras de ler Adventures of Huckleberry Finn é prestar cuidadosa atenção ao papel desempenhado pelos livros e pela leitura - atenção que é prontamente recompensada logo pela frase inicial do romance: "Não saberão nada de mim, se não tiverem lido um livro que tem por título The Adventures of Tom Sawyer, mas isso não será muito importante. Esse livro foi escrito pelo sr. Mark Twain e, a maior parte das vezes, ele falou verdade". Esta metaficção prepara-nos para o Capítulo II, no qual Tom Sawyer esplica aos seus rapazes amigos que irá orientar o seu bando de acordo com o sanguinário precedente estabelecido pelos "livros de piratas" e dos "livros de salteadores". Matar as suas vítimas seria o melhor, afirma Tom - mas ele aceita também o resgate, que será uma alternativa possível... Quando um dos rapazes lhe pergunta o que é um resgate, Tom confessa a sua ignorância: "Eu li isso em livros; por isso é aquilo que devemos fazer". A atrevida ironia de Mark Twain dá um nome feio à literacia. E, à medida que formos avançando na leitura, iremos descobrir que muitas das aventuras de Huck apontam na mesma direcção: para a perniciosa influência daquilo que aprendemos nos livros que lemos. ...