Mostrar mensagens com a etiqueta Abel Manta. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Abel Manta. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Divagações 190



Esta semana começou, finalmente, com um dia soalheiro, mas que pouco durou. Embora o azul regressasse. Pois que, na passada, depois das orvalhadas tipo S. João, amanhecia sempre por entre nevoeiros espessos que convidavam a perdermo-nos ao sair para a rua.
Coincidiu, nessa altura, que eu tentasse localizar, em data, o ano de publicação de algumas obras de Aquilino Ribeiro (1885-1963). Ora, ao contrário da Portugália, muito precisa nesse tipo de informações , ou da Relógio D'Água, a Bertrand nem sempre fornece, no livro, esses dados importantes. Suspeito das razões e, se não fosse Aquilino dar nota da data do final da escrita de algumas das suas obras, ou na dedicatória ou prefácio inicial, teríamos ainda mais dificuldade  em situá-las. A Editora Bertrand prefere falar de milheiros do que dos anos de publicação. E, deste modo, até podemos ficar perdidos pelo nevoeiro do tempo...



sábado, 13 de setembro de 2014

Aquilino


Lembro-me bem que, aqui há muitos anos atrás, no mês de Agosto e na Póvoa de Varzim, havia, frequentemente, duas pessoas que eu conhecia ( um médico e um advogado, vimaranenses) a lerem, frente ao mar e sentados em cadeiras de lona, Aquilino Ribeiro. Eu sabia que eram livros do Escritor, porque as capas da Bertrand eram iguais e inconfundíveis.
Hoje, passa mais um aniversário do seu nascimento (13 de Setembro de 1885). Como costumo fazer, com os meus autores predilectos, fui relê-lo - Camões, Camilo, Eça e alguns mais. Relembrei, pelo menos, duas coisas. Aquilino dá como autênticas, das conhecidas, 3 cartas de Camões. É uma posição intermédia: Hernâni Cidade concede 5, Costa Pimpão, apenas duas.
E, depois, a propósito do "rostinho de tauxia de uma dama lisboeta" (que vem na carta da Índia), refere, em nota de pé de página o saboroso provérbio: "Da pita a preta, da pata a parda, da p... a sarda". E por aqui o deixo, e me fico.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Favoritos XV : Aquilino Ribeiro






"...A bolota taluda ficara ali muito quieta, muito bem refastelada em virtude do próprio peso, enterrada que nem pelouro de batalha depois de passarem carros e carretas. Que fazer senão deitar-se a dormir?! Dormiu uma hora ou uma vida inteira, quem o sabe?! Um laparoto veio lá de cascos de rolha, rapou a terra, fez um toural, aliviou-se, e ela ficou por baixo, sufocada sem poder respirar, em plena escuridão. Estava no fim do fim? Um belisco, e do seu flanco saiu como uma flecha. Era de luz ou de vida? Era uma fonte ou antes um cântico de ave, de água corrente, de vagem a estalar com o sol, dum insecto na sua primeira manhã, música trilada da terra ou das esferas? Era tudo isto, encarnado no fogo incomburente que lhe lavrava no flanco, verbo que acabou por irradiar do próprio mistério do seu ser.
Do pinhão, que um pé-de-vento arrancou ao dormitório da pinha-mãe, e da bolota, que a ave deixou no solo, repetido o acto mil vezes, gerou-se a floresta. Acudiram os pássaros, os insectos, os roedores de toda a ordem a povoá-la. No seu solo abrigado e gordo nasceram as ervas, cuja semente bóia nos céus ou espera à tez dos pousios a vez de germinar. De permeio desabrocharam cardos, que são a flor da amargura, e a abrótea, a diabelha, o esfondílio, flores humildes, por isso mesmo troféus de vitória. Vieram os lobos, os javalis, os zagais com os gados, a infinita criação rusticana. Faltava o senhor, meio fidalgo, meio patriarca, à moda do tempo. Ora, certa manhã de Outono..."


Aquilino Ribeiro (1885-1963), in "A Casa Grande de Romarigães".