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domingo, 15 de janeiro de 2023

Divagações 184



O jornal Público de hoje titula na primeira página assim: Há juízes que usam o Supremo para se jubilarem com mais 250 euros por mês. E de imediato me lembrei do médico Ribeiro Sanches (1699-1783) que escreveu: Dificuldades que tem um Reino Velho para emendar-se. Porque isto, quanto a justiça à portuguesa, já vem de longe nos abusos à pala da independência dos poderes. Lembremos o Abade de Jazente (1719-1789), Paulino Cabral, que também pôs o dedo na ferida, com particular evidência poética. Ora, aqui vai o soneto do eclesiástico, em linguagem indisciplinada e castiça da época:

Citado o Réo, a Acção distribuída,
Offréce-se o Libello na Audiencia;
Entra logo uma cota, huma incidencia,
Apenas em déz annos discutída.

Contraría-se tarde; ou recebída
Huma Excepção, faz nova dependencia:
Crescem as dilações, e a paciencia
Huma das Partes perde, ou perde a vída.

Habilita-se hum Filho, outro demóra;
E de novos artigos na dispúta,
Mais se dilata a causa, ou se empeóra.

Cõ tudo pôem-se em prova, ou circundúta,
Em caza do Escrivão bem tempo móra,
E se há sentença em fim, não se execúta. *


Donde se vê que os agentes de justiça, em Portugal, gozam muitos deles, de há muito, de uma total impunidade quanto à sua preguiça profissional, à sua capacidade, e mesmo à sua postura cívica. Eticamente, alguns quase parecem uns marginais sem vergonha.


* o soneta vem na página 127, do tomo I das Poesias de Paulino Cabral... (Porto, 1786).

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Em defesa e proveito do nome


Quem deixou família, ainda tem quem o defenda ou proteja de barbaridades póstumas e apropriações indevidas e malfeitorias mal atribuídas.
É o caso de um poema de Sophia, fracote, que corre mundo pela net, como se fosse dela, não sendo. E é o que, normalmente, acontece quando não se cruzam dados e, à falta de biblioteca, se recorre a empresas de cultura barata e pindérica da net, como "O Pensador", "O Citador" e quejandos, para referir textos consagrados de autores célebres. Não se julgue porém que figuras prestigiadas, por preguiça académica, não copiam também de outros, às vezes, incorrendo assim no erro e pecado original. António José Saraiva, por exemplo, num trabalho, para a Clássicos Sá da Costa, atribuiu a Correia Garção alguns sonetos que são, realmente, de Cruz e Silva. E Jacinto do Prado Coelho, copiando de Júlio de Castilho, produziu algumas incorrecções num pequeno ensaio sobre o Abade de Jazente (Paulino António Cabral). No melhor pano cai a nódoa...
Dizia eu, no início, que sorte tem quem deixou família. Porque uma das filhas de Sophia tem procurado limpar o nome da Mãe, de excrecências menores que, falsamente, lhe são atribuídas por esses amadores rasteiros de poesia, que pululam neste mundo ignaro. Eugénio de Andrade não teve essa sorte, mas por outros motivos. Bem mesquinhos - diga-se.
Leio, no TLS (nº 6043), que Jane Austen conta, presentemente, com 330 descendentes. Sorte dela! E deles, ao mesmo tempo. Que lhe vão aproveitando a marca e o nome, para ir ganhando fama e para ir produzindo publicações menores e até produtos comerciais, que têm tido grande sucesso à custa da célebre romancista, cujo bicentenário da morte se comemorou, recentemente.
Isto, para o comércio, não há ninguém como os ingleses!... 

sábado, 14 de abril de 2018

Mercearias Finas 129


De caça, à mesa, não me posso inteiramente queixar. Tenro em idade, pelo Outono, apareciam lá em casa, de ofertas de caçadores amigos, tordos, pombos bravos, perdizes, e, de exemplares terrestres, mas também ligeiros, vinham à mesa, lebres e coelhos silvestres, de fino sabor. Tive a minha conta.
Parcimonioso, embora, o almoço de hoje compôs-se de um afinado ragoût de veado com cantarelos, acompanhado por massas frescas e um Dão tinto Santo António (Touriga Nacional, Tinta Roriz e Alfrocheiro) de 2014, que se portou competente para a sua responsabilidade gastronómica.
Ao vivo, em Mafra e na sua Tapada, me fartei de ver veados à solta, enquanto eu andava aperreado na minha aprendizagem militar, pouco antes de Salazar ter caido da cadeira. Mas aos ditos bichos, só os provei, em bifes, por volta de 85, vindos de Massamá, de uma quinta pioneira em criação de caça que, hoje, se calhar, chamariam startup, para ganhar estatuto...
O javali veio ter ao meu currículo gustativo depois do 25 de Abril, numa ida propositado a um restaurante simpático dos subúrbios das Caldas da Rainha. Não desgostei, mas também não fiquei avezado, nem cliente. Já nos anos 90, chegaram os faisões, as galinholas e as avestruzes que, uma vez provados, posso dispensar tranquilamente e sem sacrifício.
Fiel, fiel, mantenho-me às perdizes, que o Sr. Pereira, exímio caçador lá entregava em casa e que a Maria, profissional de gabarito, preparava com afecto extremoso. Ave especiosa, se selvagem, que o Abade de Jazente  (1719-1789) celebrou. Em soneto, e para sempre.
Que aqui deixo, pelo seu tom bem humorado:

Eu bem as vi, mas foi, Rocha erudito,
arrojar tão de chofre d'entre o mato,
que o caçador um pouco estupefacto,
em lugar de atirar-lhes, deu um grito.

Passaram-se depois a tal distrito,
d'onde apenas trepar podera um gato;
sem falar no desconto de um regato,
que resiste inda aos saltos de um cabrito.

N'isto chegou a noite; e ao outro dia,
ou porque o cão levava maus narizes,
ou porque alguma velha nos benzia,

corremos sem topá-las mil paises.
Bem sei que isto ao primor me não desvia,
mas esta é toda a história das perdizes.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

"Não corras para o mar, Tâmega, tanto..."


Para quem vem de Lisboa, Chaves é um sossego inesperado. Mesmo que se venha em busca de um "Compromisso (...) da Misericórdia", de 1516, que poucos sabiam existir. Existe, realmente, e embora lhe falte uma gravura, encontra-se em razoável estado de conservação. Passados 500 anos.
Ocorreu-me o início do soneto de Jazente (1719-1789), para título do poste, ao saber das quatro pontes sobre o Tâmega, em Chaves, pese embora, por aqui, ele passar pachorrento, como o vi, hoje. Talvez por Amarante e nos tempos do Abade poeta, o rio fosse mais lançado e jovem. Mas cruzam-se assim os diversos tempos, desde a ponte romana até à que nos anos 50, do século passado, foi construída para as gentes de Aquae Flaviae. Como se cruzam no largo equilibrado e simpático, que terá sido Forum romano, os maneirismos tímidos com a renascença clara, mesmo quando absorve uns restos quase apagados do que foi uma igreja românica.
O núcleo museológico é que deixa muito a desejar. Já de si diminuto, ainda se divide por três  pólos distintos, embora próximos: arqueológico, arte sacra e militar, na torre que foi de menagem do primeiro duque de Bragança, D. Afonso. Tirando a parte castreja, o resto é prontamente esquecível, pela banalidade das peças. Valeu-me para memória futura a Vénus de Vidago, tosca escultura insólita, mas pessoalíssima, de algum ignorado artista de outras eras. Destaque para a sua pétrea gravidez, com uma posição de pés, impossível, que o escultor, na sua primitiva liberdade de criação, assim projectou para lhe melhorar a base de sustentação...


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Mais 3 "Verdades Singelas" do Abade de Jazente


Andar outro como brasa,
Vendendo soberba a molhos,
E metendo pelos olhos
Os brasões de sua Casa,
E de seus avós o fôro...
     Desaforo.
...
Insultar sem causa a gente,
Dar empuxões em quem passa,
Querer que lhe façam praça,
Ser por ofício valente,
Ser carrancudo e severo...
     Destempêro.
...
A que não conhece o mês,
E que diz que tem catarro,
Ou é velha e come barro,
Ou algum excesso fez,
Que a cura leva às vezes...
     Nove meses.


Abade de Jazente, in Poesias.

sábado, 17 de agosto de 2013

3 das "Verdades Singelas", do Abade de Jazente


Dizer um senhor fidalgo, 
que tem três contos de renda,
e que gasta uma fazenda
só em sustentar um galgo
que todas as lebres mata...
patarata.

Andar todo embonecado,
ter amores, ter afectos;
e depois de já ter netos,
andar inda namorado,
sem se lembrar da velhice...
é tolice.

Letrado que atrasa causa
com mil enredos astutos,
que lê feitos circunductos,
e se passeia com pausa,
falando só no escritório...
farelório.

Paulino António Cabral, Abade de Jazente (1719-1789).

terça-feira, 7 de maio de 2013

Divagações 46


Há um perfume barato pelo elevador e um cão ladra, algures, na manhã. Crianças vão sendo passeadas por mamãs, na rua ainda fresca, e ganapos mais crescidos, no recinto, já começaram a fazer desporto, com os pés, purgativo no seu clamor suburbano de impropérios e gritos.
A ironia e o humor de O'Neill são anunciados e marcados habilmente, quase sempre, pelo uso de vocábulos antigos e desusados, ou então, por expressões populares castiças e pitorescas. Como se um piscar de olho, com a ajuda do politicamente incorrecto, para nos pôr em guarda. E são essas palavras, também, que dão ( darão sempre? - ver Tolentino ou Jazente...) frescura e viço aos seus poemas.
Sibilino, maquiavélico, cristão, algo mafioso, morreu Giulio Andreotti (1919-2013): um grande actor político italiano, mesmo que a sua figura sinistra, embora de direita, não nos seja simpática. Como em Arte, o feio e o grotesco, deve ser apreciado, sempre, com isenção. Ou seja, prescinde dos bons sentimentos e intenções, e da moral vigente. O politicamente correcto, passe o paradoxo, não vem ao caso.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Soneto de Jazente, em louvor do seu cão "Diamante"



Se parto, tu Diamante, descontente
Ficas aguardando o solitário assento;
Mas bem que triste, com robusto alento
Vibras contra o ladrão o agudo dente.

Se volto, tu me esperas diligente,
Mostrando-me um fiel contentamento;
Pois logo com festivo movimento
És em casa o primeiro que me sente.

Se caço, com gentil velocidade
De um salto abocas a ligeira presa,
E a trazes com leal docilidade.

Oh como eu fora descansado à mesa!
Se pudesse encontrar tanta lealdade
No António, no José, e na Teresa.

Abade de Jazente (1719-1789), in Poesias.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Memórias agrícolas do ano de 2012


Não se terá reparado mas, em 2012, creio que mal falei de limoeiros (agora temos 2), porque as coisas não andaram bem. Como dizia o Abade de Jazente:

"Tudo me anda ao revéz, do meu trabalho
Vingar não pude este anno o menor fructo,
Deu-me a ronha no gado; e ao campo enxuto
Faltou no verde Abril o fresco orvalho. ..."

A produção foi fraca, no ano que passou, mais por erro humano do que condições metereológicas. Fundamentalmente, a poda tardia e os limões terem ficado até tarde, na árvore, atrasando e prejudicando uma livre floração. Uma das pequenas árvores floriu por duas vezes: em Março (mas sem sobrevivência de frutos) e em Junho, com parca produção sobrevivente (5 limões).
Iniciou-se, hoje, a poda, retiraram-se os últimos frutos e vamos ter fé que, em 2013, as coisas agrícolas corram melhor. Porque até a oliveira, normalmente pródiga, agora na varanda a Sul, só produziu cerca de uma dúzia de azeitonas que, mesmo assim, se curtiram e comeram.
Entretanto, fiquemo-nos com a esperança futura e uma foto dos dias gloriosos e passados, de 2011.

domingo, 19 de agosto de 2012

A sardinha na sua época, por entre as águas que vão


Dizia o Abade de Jazente, aqui há uns bons 250 anos, que: "...vende as sardinhas o galego feio/ cinco ao vintém; e seis pela calada..." e "A trinta e cinco réis custa a pescada...", no seu singular soneto setecentista. Bem gostaria eu de saber-lhes a correspondência monetária mas, de história económica, nada sei. O que posso dizer é que hoje, no Mercado, a sardinha estava a 5,90 euros (bem merecidos), o quilo, e a pescada, a doze. Anafadas e cheirosas rechinaram as 7 sardinhas no grelhador, pingando pródigas ôlhas de gordura sobre o tabuleiro de baixo. Deu gosto vê-las e comê-las, com boroa. Há anos que não as via assim, nem de longe comparadas com as esquálidas e secas, do ano passado. É das águas, dizem...
Talvez. Porque ontem, era lindo de se ver por causa do calor, às quatro da tarde, a neblina branca de nuvens que acompanhava, e subia, a margem direita do rio. Parecia que se movia, alto, o algodão sobre o Tejo. E as nuvens, à saida da ponte, quase nos envolveram por completo. Nunca eu tinha visto nada assim, na parte da tarde. O mais parecido que observei, foi sobre o Reno, mas de manhãzinha muito cedo, em Bingen.
E destas águas quentes, que vão e vêm, se vai criando a sardinha bem nutrida, para rechinar a preceito, no grelhador, por Agosto.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Os cornos da Lua

Tenho para mim que, de algum modo, a poesia satírica, no séc. XVIII português, é bem mais conseguida do que a poesia lírica, em qualidade. Estou a pensar, sobretudo, em Jazente, Cruz e Silva, Tolentino, Bocage, António Lobo de Carvalho...
Vem isto a propósito dum soneto, manuscrito (Ms. 8582, pg. 156, da BNP), ridicularizando o poeta Alvarenga Peixoto (1744?-1793), por este ter usado, num soneto, o verso: "Por mais que os alvos cornos curve a Lua". O soneto satírico, de autor desconhecido, é o seguinte:

Certo aldeão de Sintra se apeava
Do jumento, e a beber o conduzia;
Bebeu o burro, e à volta pretendia
Montar no dono, e nisto porfiava.

- Burro atrevido, - o aldeão gritava -
Donde te veio a ti tanta ousadia?
- Tenho alma como tu, e não sabia
Que espírito tão nobre me animava!

- Tu tens alma, ó burro? Mais preclaro
És entre os burros. - Não é como a tua,
Imortal, mas meu juízo é claro.

- Quem te deu pois ou te emprestou a sua?
- Quem foi? : aquele espírito tão raro
O grão Doutor que cornos deu à Lua. 

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Civilidade (11) : tratamentos (2)



Sempre foi preocupação maior dos portugueses, o tratamento e suas regras de etiqueta, entre si. Vários escritores e tratados de civilidade falam disso e até especificam, cuidadosamente, a hierarquia dos tratamentos que se devem usar. Poetas abordam também o assunto e o Abade de Jazente, em vários sonetos, fala deste tema ("...Porque vai querendo huma Excellencia/ Quem tinha a senhoria porventura."). Era frequente, pelo menos até há pouco tempo, o estudante universitário que chegava a Coimbra, mesmo sendo caloiro, ser logo tratado por "Senhor Doutor" pelos comerciantes e demais nativos da Lusa Atenas. O tratamento de "Sr. Engenheiro" ou "Sr. Doutor", ao contrário dos países de cultura anglo-saxónica, era ( e é, ainda hoje, muitas vezes) requerido pelos seus detentores de grau académico, para disfarçar porventura a vulgaridade banal dos mesmos. E, isto, já vem de muito longe, em Portugal. O Conde de Sabugosa no livro "Neves de Antanho" conta um episódio interessante e curioso ocorrido entre a Duquesa de Aveiro e o Duque de Bragança. Segue: a Duquesa de Aveiro "conversando um dia com o Duque de Bragança, D. Theodosio, lhe ia dando no decorrer da palestra o tratamento de «Vossa Senhoria». Elle dissimulou cortezmente o despeito, mas na despedida disse-lhe sorrindo: «Advirta Vossa Excellencia ( e sublinhava o tratamento) que cada um dá o que tem comsigo». Ora, n'esse tempo, só a casa de Bragança tinha «Excellencias» de juro."

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Traduções Hilariantes (2)



Estimada visita de língua inglesa, ao Arpose, provavelmente dos E. U. A., ao ver o anterior poste de Jazente, terá pedido tradução ao Google. Os dislates da tradução foram mais que muitos: nem o Herman José conseguiria melhor ao imitar Lauro António naqueles "soquetches" sobre cinema. O título do poste ("Florilégio de poetas, a propósito de Jazente") saiu, na delirante tradução como: "Anthology of poets, the purpose of laid prostrate"..., como se pode ver na imagem. Outro exemplo delicioso: Sidónio Pais foi traduzido para "Sidónio Parents"!... Assim vai o Mundo...

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Florilégio de poetas, a propósito de Jazente



O livro Poesias, do Abade de Jazente (1719-1789), como se poderá ver pelas imagens, pertenceu a Alberto Osório de Castro (1868-1946) pela marca de posse manuscrita no frontispício, e pelo ex-libris na segunda página. Este poeta era irmão de Ana de Castro Osório (1872-1935), e amigo de Camilo Pessanha. Foi juíz na Índia, Angola e Timor. Teve vida política activa, tendo sido Ministro da Justiça no breve consulado de Sidónio Pais.
Mas era de Paulino António Cabral, Abade de Jazente, sobretudo que eu queria falar, hoje, que o andei a reler, em circunstância, por esta pequena edição rollandiana de 1837, e que A. Osório de Castro terá comprado, em Lisboa, a 29 de Abril de 1924.
De entre a abstrusa poesia portuguesa do séc. XVIII, Jazente é uma boa excepção e um dos meus poetas predilectos. Pelo seu tom despido de artifício, suas paixões (apesar de padre), pelo realismo da vida campesina que retrata, onde cabem perdizes, um catapereiro (pereira brava) ou o afecto que dedicava aos cães ( Tejo e Diamante) que o acompanhavam. Pelo sol e a chuva que entram nos seus versos. Ou até pelas insónias que deixa impressas num soneto:

O galo já três vezes tem cantado,
Mugido o Boi, tossido a Ovelha, e a Aurora
Já lá vem, com lágrimas que chora,
Regando a relva mole ao verde prado.

Já detrás do Marão o Sol dourado
A frente principia a lançar fora:
Enfim é manhã clara, e inda até'gora
O sono aos olhos meus não tem chegado.

Ele às vezes quer vir, e a noite inteira
Me rodeia a cabana, e espreme lento
O suco sobre mim da dormideira.

Mas se entra nela algum feliz momento,
Que se me encontra à cabeceira
Logo dela retira o meu tormento.


Nota: procedi a pontuais actualizações ortográficas.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Bibliofilia 35 : O terramoto de Lisboa



É vastíssima a bibliografia sobre o Terramoto de Lisboa de 1 de Novembro de 1755, quer de origem estrangeira, quer de produção nacional. Inúmeras obras, em prosa e em verso, dão conta deste cataclismo que teve repercussão europeia, pelo menos.
Praticamente todos os poetas portugueses, vivos na altura, escreveram sobre o Terramoto: de Correia Garção a Pina e Melo, de Jazente a João Xavier de Matos (1730?-1789), entre outros. É deste último, o folheto de 8 páginas de que se mostra o frontispício e o final.
Sendo o tema muito apetecido e procurado, e tratando-se de um folheto (mais frágil e perdível), não é muito comum encontrá-lo à venda. Além disso, acresce o facto de ser, muito provavelmente, a primeira obra impressa de João Xavier de Matos, datada de 1756. Não tenho elementos muito rigorosos sobre o preço e a data em que o adquiri. Creio que o comprei no Porto. E penso que não andarei longe da verdade se disser que me terá custado cerca de 25,00 euros, por volta de 1990.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Bibliofilia 32 : Abade de Jazente



Paulino António Cabral (1719-1789), mais conhecido por Abade de Jazente, freguesia próxima de Amarante, e a que, ao nome, acrescentaram Vasconcelos (indevidamente), foi poeta celebrado. Foi também padre, lavrador - pelo que dizem seus versos - amante da caça e de uma tal senhora Inês da Cunha, a quem ele chamava Nize, nos sonetos, muitos, que lhe fez. Arnaldo Gama, em Um Motim de há cem anos, romanceia-lhe a figura ("...um dos mais distintos poetas portugueses da época, a flor e a nata dos bardos do Porto..."). Foi aliás nesta cidade que saíram, da Officina de Antonio Alvarez Ribeiro, os 2 tomos da sua obra "Poesias de Paulino...". O primeiro volume, em 1786, com tiragem de 2.000 exemplares, esgotou-se em 6 meses - o que é singular, para um livro de poesia, ainda hoje. O segundo tomo foi publicado em 1787, e é bem mais difícil de encontrar, à venda, actualmente.
Os meus dois exemplares foram adquiridos, com uma diferença de 3 ou 4 anos, nos finais dos anos 80, em Lisboa. O primeiro custou-me apenas Esc. 850$00 (cca. 4,25 euros), o segundo, paguei por ele, Esc. 3.000$00. Assisti, depois, à venda da obra completa (tomos I e II), em leilão, por 35,00 euros. Mais recentemente, há cerca de três meses, vi-os precificados por 50,00 euros, num alfarrabista lisboeta.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Macau : um inventário de Bocage



O lado insólito de poemas com números sempre me despertou interesse e atenção. Há-os nas "Poesias" do Abade de Jazente, e Alexandre O'Neill, pelo menos. Hoje, descobri um de Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805) que andou por Macau, entre Outubro de 1789 e Março de 1790. Provavelmente, terá sido neste período da sua vida, que fez o soneto que se segue:

Um governo sem mando, um bispo tal,
de freiras virtuosas, um covil,
três conventos de frades, cinco mil,
Nh's e chins cristãos, que obram mal;

Uma Sé que hoje existe tal e qual,
catorze prebendados sem ceitil,
muita pobreza, muita mulher vil,
cem portugueses, tudo em um curral;

seis fortes, cem soldados, um tambor,
três freguesias cujo ornato é pau,
um vigário-geral sem promotor,

dois colégios, um deles muito mau.
Um Senado que a tudo é superior,
é quanto Portugal tem em Macau.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A Justiça vista por Jazente



O injustamente esquecido Paulino António Cabral (1719-1789), mais conhecido por Abade de Jazente - freguesia onde pastoreou almas e não só -, era um arguto observador dos costumes citadinos e dos hábitos rurais. Crítico mordaz, deixou-nos versos realistas de saborosa leitura. Para quem pensa que os males da Justiça portuguesa são de hoje, aconselho a leitura deste soneto do Abade.


Citado o réu, a Acção distribuida,

Oferece-se o libelo na audiência;

Entra logo uma cota, uma incidência,

Apenas em dez anos discutida.


Contraria-se tarde; ou recebida

Uma excepção, faz nova dependência:

Crescem as dilações, e a paciência,

Uma das partes perde, ou perde a vida.


Habilita-se um filho, outro demora;

E de novos artigos na disputa,

Mais se dilata a causa, ou se empiora.


Contudo põe-se em prova, ou circunduta,

Em casa do Escrivão bem tempo mora,

E se há sentença enfim, não se executa.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Memória 5 : Alexandre O'Neill



No proximo dia 19 de Dezembro, Alexandre O'Neill (1924-1986) faria 85 anos. O seu espírito era demasiado jovem para vir a ter esta idade, embora, por vezes, "topeçasse de ternura"...

O'Neill pertence à linhagem dos trovadores das "Cantigas de Escarnho e Mal Dizer", era parente próximo de Tolentino e Jazente, e ascendente próximo de F. Assis Pacheco. Dele recordemos:


E tinh' razão


Anda, meu Silva, estuda-m'aleção
Vêsse-te instruz, rapaj, qu'ainstrução
É dosprito upão!
Ou querch ficar pra sempre inguenorantão?


Poin os olhos no Silva teu irmão.
Pensas talvês que não le custou, não?
Mas com'e qu'êl foi pdir aumentação
Au patrão?

E tinh'rrazão...