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sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Retratos (32)

 

Ora aqui vai "polo natural" - como se dizia antigamente - o retrato de um diplomata feito pelo seu embaixador, e na altura (1986) seu superior, em Angola, António Pinto da França. Assim segue a páginas 241, do livro em imagem acima:

"O Francisco Seixas da Costa, marcado pela rude frontalidade dos transmontanos, é uma força da natureza, uma explosão de vida. Tem uma mente duma clarividência cirúrgica. Tudo lhe interessa, tudo lhe importa. Vive para aprender e compreender. Estica o tempo num incontrolável desejo de realizar, de ir cada vez mais longe, guiado por uma ambição avassaladora que não se preocupa em esconder. Talvez porém, que, entre tudo, o que mais preze seja rir dos outros e dele próprio. Um dos seus entreténs, nestes dois anos, foi aplicar-se a absorver o meu estilo para que eu não lhe alterasse nem uma vírgula que fosse nos textos dos telegramas cuja redacção lhe confiava. Não era para me agradar, era por desafio, por puro exercício lúdico."

António Pinto da França (1935-2013) in Angola - o dia a dia de um embaixador (2004).

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Retro (102)


Era para arder, mas, ao menos, diziam ao que vinham, limpamente...
O anúncio é de 1944.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Filatelia CXXIV


De entre as temáticas filatélicas, a das Aves é uma das mais apetecidas pelos coleccionadores.
Conhecedores do facto, alguns Correios estrangeiros exploraram essa fraqueza dos filatelistas. Portugal não fugiu à regra nem ao filão, mas nas ex-Colónias, sobretudo. Data de 1951, a primeira série sobre aves e foi produzida para Angola (ver Filatelia CXVII, de 24/2/2017, no Arpose), mas a sua execução foi entregue à famosa empresa Courvoisier S. A. (Suiça), que fez um belo trabalho. Ainda hoje esta série, de 24 valores, é muito cobiçada e está bem valorizada, nos catálogos nacionais e estrangeiros.



Também a Inglaterra começou pela Commonwealth (Austrália, Nova Zelândia, Colónias africanas...), até que, em 1980, emitiu, para o próprio Reino Unido a sua primeira série de Pássaros, para comemorar o centenário do World Bird Protection Act, composta por 4 selos, personificando: o Alcião*, o Tordo mergulhador, a Galinhola e a Alvéola (por esta ordem, na primeira linha da imagem). Como a série teve imenso sucesso, em 1989, repetiram a proeza. Desta emissão, damos em imagem, 2 dos 4 selos (na segunda linha). O primeiro representa o Mergulhão** e o segundo dá pelo nome inglês de Oystercatcher (Ostreiro?).

Nota pessoal e aditamento posterior:
tenho por princípio, no Arpose, evitar, sempre que possível, transcrições em línguas estrangeiras. Mas traduzir, para a nossa língua, representa sempre algum risco, e dá trabalho a quem o faz.
Amigavelmente, AVP, em diálogo cordial e construtivo, pôs-me algumas dúvidas em relação às traduções que fiz, sobre os nomes, em português, de aves, neste poste.
As discordâncias ou incertezas sobre os nomes, vão assim em asterisco:
* Alcião (Kingfisher) é, no entender de AVP, o nosso Martim-pescador ou Guarda-rios, no que estarei quase pronto a concordar.
** Mergulhão (Atlantic Puffin), na opinião do meu Amigo, seria o Papagaio-do-mar. Eu inclinar-me-ia para a hipótese alternativa de poder ser o Ganso-patola. Mas não tenho a certeza...
Seja como for, o meu agradecimento a AVP.  

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Filatelia CXVII


Com alguma frequência, sobretudo antigamente, e quando era exigido algum rigor na reprodução de imagem, os CTT de Portugal contratavam firmas estrangeiras para a produção de algumas séries de selos nacionais.
Creio que a primeira série filatélica a ser produzida fora da Casa da Moeda foi a do 5º Centenário do nascimento do Infante D. Henrique (1894), com desenhos de Veloso Salgado. As estampilhas foram trabalhadas na Giesecke & Devrient, de Leipzig (Alemanha). Também a Waterlow & Sons (Londres) produziu várias séries de selos para os Correios Portugueses.
No caso das Colónias, nomeadamente Angola, a notável e celebrada série das Aves* (1951) foi heliogravada pela Courvoisier, SA (Suiça), que já tinha produzido, para os Correios de Portugal continental, as emissões do Presidente Carmona (1945), Costumes Portugueses (1947) e Avis (1949), todas elas de grande apuro e qualidade gráfica.
O apetrechamento nacional foi-se entretanto aprimorando e, em 1953, a Litografia Maia (Porto) já foi capaz de produzir, também, a bela série de Animais de Angola, com grande perfeição gráfica. É essa série, na íntegra, que se reproduz em imagem, bem como alguns valores da série de Aves, de 1951.

* A série de Aves (Angola, 1951), completa, tem, actualmente, um valor de catálogo (Mundifil, 2015) de 660 e 100 euros, consoante for nova ou usada.

sábado, 16 de janeiro de 2016

Filatelia CX


Vê-se, pela forma atabalhoada, como os selos foram colados sobre os envelopes que, quem disso se encarregou, não seria, decerto, pessoa muito arrumada e, com certeza, não era um filatelista...
Uma das temáticas iniciais da Filatelia foi a do Correio Aéreo. Creio que ainda hoje terá muitos cultores fervorosos. Porém, em Portugal, só em 1936(-1941) foi emitida a primeira série inclusivamente dedicada ao correio aéreo: com desenho alusivo e estilizado (os chamados selos tipo "Hélice") de Almada Negreiros e gravura executada por Guilherme Santos.

Voltando aos envelopes circulados da primeira imagem, há que referir que o que foi enviado do Porto para Birmingham, em 1941 e durante a II Grande Guerra, foi aberto pela Censura britânica, tendo no seu canto superior esquerdo o rótulo identificativo do facto. Da Administração do Concelho de Chibia (Angola) veio para Lisboa, em 14/1/1947 (há 69 anos, portanto), por via aérea, uma carta dirigida a um Professor do Instituto Superior Técnico. Acresce o carimbo losangonal e a indicação de que seguiu no primeiro voo (inaugural) da Linha Aérea Imperial Luanda-Lisboa.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Retro (46)


Duplamente desenquadrados, no tempo, estes mata-borrões cinquentenários (1958) lembram paisagens desaparecidas de um Império que teve o seu fim no 25 de Abril de 1974.
E a sua função de absorver os excessos de tinta, na escrita, já quase deixou de ter utilidade. O calendário de Abril de 1958, no entanto, revela-nos uma curiosidade: como hoje, o dia 25 foi uma sexta-feira.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Gerações


Não posso inteiramente queixar-me. Havia pouca liberdade, é certo, quando eu era jovem; havia a perspectiva da guerra colonial e da morte, também. Mas havia algum bem-estar, mínimo. E, depois do 25 de Abril, abriu-se o futuro e a liberdade. Recentemente, no entanto, tudo começou a andar para trás, e grande parte dos jovens, entre os 20 e os 30 anos, já não terão grandes expectativas de felicidade, em Portugal.
Há dias, numa esplanada coberta, das Avenidas Novas, numa mesa contígua à minha, e muito próxima, vieram sentar-se dois jovens angolanos, ia eu a meio do meu Coelho à Caçador, acompanhado por um modesto tinto alentejano. Um dos angolanos que, pelo ovalado do corpo, poderia ser sobrinho do falecido Savimbi, pediu Bifinhos de Cebolada. O outro, que poderia ser primo da Isabelinha dos Santos, nóvel empreendedora de sucesso, optou por Moelas com batata frita e arroz. Ambos beberam sumos adocicados de lata.
Os jovens africanos falaram, maioritariamente, de miúdas e de pequenos negócios. Pareciam felizes e eu lembrei-me de Eduardo Mondlane e Amílcar Cabral, que morreram assassinados. Recordei-me de Samora Machel... Como as coisas mudaram! O clã dos Santos, de Angola, é dono de um império. Já não andam pela guerra, nem precisam de contar os Quanzas, para comprar posições maioritárias em empresas portuguesas de referência. Só vestem roupas de marca e os seus antigos camuflados só servirão para alacres mascaradas de Carnaval.
É a vingança do chinês..., o colonialismo (económico) ao contrário, a evolução das gerações. Hoje, é notícia que um grupo angolano terá comprado uma participação importante da empresa do "Diário de Notícias". Mira Amaral, flectido ligeiramente, deve com frequência encher de perdigotos, ao beijá-la, a mão delicada e elegante de Isabel dos Santos. Os nossos jovens desempregados devem andar à procura de camuflados, em segunda mão, para voltar a África. Mas não é pela reconquista... Agostinho Neto, na tumba, deve rir-se às gargalhadas.

sábado, 7 de julho de 2012

Cadernos militares


Este livro, de que se mostra a capa, saído em Dezembro de 2011, sob o patrocínio da Universidade Católica, tem o sub-título de "Cadernos de Guerra do Coronel Alberto Salgado", muito justamente. Com um estudo introdutório de Arlindo Manuel Caldeira, a obra é composta por um relato do final do séc. XIX e um diário de operações e ocupação militares, já no decurso da I Grande Guerra, no sul de Angola, escrito pelo seu participante, inicialmente como tenente e, depois, na patente de coronel. O coronel Alberto Salgado (1870-1935) não produziu uma obra asséptica e fria (certamente, nunca lhe passou pela cabeça vir a publicar estes seus escritos), nem sequer um relatório seco e burocrático de operações militares. Das suas palavras, sobretudo na segunda parte (séc. XX), surge uma figura onde as emoções ganham presença, opinião e sentimentos humanos. Sobre este tema colonial, penso que não haverá muitos documentos com esta intimidade pessoal.
Mas esta obra também nos leva a outras reflexões. Na introdução, Arlindo Manuel Caldeira escreveu: "Quando, em 1885, se definiam, na Conferência de Berlim, as regras de ocupação efectiva dos territórios africanos, a presença portuguesa no Sul de Angola era, em larguíssimas extensões, uma ficção política para uso nas chancelarias estrangeiras. ..." Parece ser uma fatalidade portuguesa: ocuparmos apenas o litoral. Ou então, como agora, por preguiça, laxismo, falta de visão e estratégia política abandonarmos ao ermamento e à desertificação todo o interior de Portugal. Retirando-lhe, metodicamente, as infra-estruturas que poderiam ajudar a fixar a população, já de si pobre e carenciada. Não é destino, é simplesmente falta de vontade política.

sexta-feira, 2 de março de 2012

O fim dos Impérios


Tudo indica, por artigos nos jornais, livros e dossiês de revistas recentemente saídos, ou em destaque, que a França se prepara, após 50 anos da independência da Argélia (3 de Julho de 1962), para reavaliar o que representou, na sua História, o acontecimento, os traumatismos e o regresso dos pieds-noirs ao continente europeu.
O fim dos impérios teve para quase todos os países europeus, acontecimentos semelhantes, inícios parecidos ou paralelos, e fins praticamente iguais. O desastre de Diên Biên Phu, na Indochina francesa, em 1954, pode bem comparar-se à anexação de Goa, Damão e Diu, em Dezembro de 1960, pela União Indiana; o início da insurreição da Argélia, ao começo das hostilidades em Angola, no ano de 1961. O regresso dos pieds-noirs (200.000) à ponte aérea dos retornados (cerca de 500.000) de Angola, principalmente.
Não sei se alguma vez se fará, em Portugal, um debate alargado e profundo sobre o período e as guerras coloniais. Tirando o excelente programa televisivo de Joaquim Furtado, alguns (poucos) romances sobre o tema, além de muitos poemas de Fernando Assis Pacheco, reflectindo a sua experiência pessoal de guerra, não há muito mais - creio. Temos uma forma diferente de lamber as feridas. E não temos nenhum corajoso Baltasar Garzón, para questionar o passado, até às ultimas consequências. E valeria a pena?

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A voz, D. João II e o Conde de Borba


Aqui há uns bons 30 anos, conheci alguém (R. de S.) cuja carreira profissional administrativa tinha sido feita, exclusivamente, nas Colónias, sobretudo em Angola. Tinha uma alcunha sugestiva mas de que eu desconhecia a origem e a que se devia. Era um homem urbano e afável. Ora, numa festa de aniversário, R. de S. pediu licença para discursar. E, quando ele começou, fez-se-me luz no espírito. A sua voz era empolgada e tonitruante. A alcunha de R. de S. era "O garganta do Império", e assentava-lhe que nem uma luva.
Lembrei-me do episódio, porque ontem li uma pequena história contada por Garcia de Resende, sobre o Conde de Borba, D. Vasco Coutinho, um próximo do rei D. João II. Ao que parece, o Conde quando falava baixo mal se ouvia mas, se falava alto, a sua voz dominava tudo. D. João II ter-lhe-á dito, um dia: "Conde, os vossos baixos são tão baixos que vos não ouve ninguém, e os altos tão altos que se não ouve ninguém convosco!"

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

2 últimos cartões de B. F. oficiais


Estes dois cartões de Boas Festas, que serão os últimos, são já da segunda década do séc. XX. O dos Correios Belgas terá sido enviado, muito provavelmente, do Congo Belga para Angola, mas foi impresso em Bruxelas, por P. van Damme. O segundo, da Dinamarca, é de 1914.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Filatelia VII : Colónias


Singularmente e, ao contrário de outros países europeus, em monarquia (Bélgica, Holanda, Inglaterra...), que representaram os seus reis nas primeiras séries das suas colónias, Portugal usou apenas a Coroa ( desenho de Augusto Fernando Gerard) como símbolo e não a figura do rei D. Luís. Embora, posteriormente, os réis portugueses viessem a aparecer representados nos selos. As primeiras colónias a ter selos próprios foram: Angola (1870-77), S. Tomé e Príncipe (1870-77) e a Índia Portuguesa, logo a seguir - 1871.
Os primeiros selos da Índia Portuguesa são muito rudimentares e artesanais. São chamados nativos porque os meios utilizados, no seu fabrico, eram exclusivamente locais, de início. Estão representados na última fila da imagem que encima o poste. O desenho foi feito pelo engenheiro José Frederico d'Assa Castel-Branco e a execução dos selos teve o ferreiro Gouvinda Zó, como autor. Os restantes selos, de S. Tomé e Príncipe - na imagem - são comuns, praticamente, no desenho da Coroa, às restantes colónias portuguesas.