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segunda-feira, 3 de março de 2025

Divagações 203

 

O facto de termos conhecido pessoas da vida real, permite-nos avaliar a autenticidade próxima da reprodução pictórica, feita por desenhadores ou pintores, dessas figuras públicas.
Ao escolher, para encimar o poste anterior sobre Eugénio de Andrade (1923-2005), um desenho do murciano José Antonio Molina Sánchez (1918-2009), fi-lo pela semelhança indiscutível com o Poeta.
Imensamente retratado, Eugénio tem reproduções que são autênticos mamarrachos, ainda que, muitas vezes, sejam de autoria de artistas consagrados. Nem todos os pintores, porém, são bons retratistas...
Da galeria dos retratos, como os melhores pela semelhança, eu distinguiria mais cinco nomes, por ordem alfabética: Angelo de Sousa, Armando Alves, Augusto Gomes, Carlos Carneiro e Dordio Gomes.

domingo, 20 de outubro de 2024

arte menor (41)

 


A princípio, o movimento
que cessa quando o limite
excede a vontade interna
do corpo. Alguma coisa se passa
para além do que é possível.

O fim é um mero acidente
em direcção ao silêncio
do absurdo, no desconto
de outros sobreviventes.

Só parecemos ignorar
que a morte é uma cilada
paciente e eterna, 
silenciosa a esperar.




Sb., 25-26-5/ 17-7, 3/6/ 18-24/8/2024.

segunda-feira, 24 de junho de 2024

A querer ser máxima...



A beleza não cansa. Mas pode habituar-nos, infelizmente. 

quinta-feira, 27 de julho de 2023

Ideias fixas 78



Às vezes, talvez por sonhos contíguos e esquecidos recentes, acordamos para coisas novas. Frases que nunca dissemos ou pensamos. É possível que daqui nasça, em bruto, a originalidade de cada um. Ou até um poema.

domingo, 19 de janeiro de 2020

Eugénio


Creio que nunca disse tudo sobre Eugénio de Andrade (1923-2005). Talvez me guarde para o centenário, se eu chegar lá, e ainda for a tempo. Para já, são só 97 anos que o poeta faria hoje, a 19 de Janeiro, se ainda fosse vivo. E a última vez que o vi foi na Feira do Livro, no Parque Eduardo VII. Estranhamente lhe notei um grosso anel de prata (?) no dedo anelar da mão esquerda. Ele que não era nada de penduricalhos, sobretudo em poesia. Autografou-me os dois livros de histórias infantis, que ele escrevera para o afilhado Miguel, trocámos breves palavras formais e despedimo-nos, para sempre.


Da sua poesia é que eu nunca me despedi. Como disse Óscar Lopes: " tudo em Eugénio de Andrade acaba por amanhecer de novo, alado, fresco, rumoroso e frágil de orvalho..."

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Bibliofilia 158


Eram de grande apuro gráfico e muito bom gosto estético, as publicações da Editorial Inova (Porto), que se iam editando sob a batuta engenhosa de Cruz Santos. A colaboração de Pintores e bons Gráficos era constante, dando uma garantia de qualidade aos livros que a Inova foi publicando. Também os colaboradores literários asseguravam um contributo importante. A orientação artística era de Armando Alves.



Esta colecção Indícios de Oiro era  dirigida, do ponto de vista literário, pelo poeta Egito Gonçalves. O terceiro número da série foi dedicado a Eugénio de Andrade (1923-2005). Era uma edição bilingue, com os poemas traduzidos por Carlo Vittorio Cattaneo para a língua italiana. Os desenhos ficaram a cargo de Angelo de Sousa, em boa hora. E a obra publicou-se em Setembro de 1974.



O meu exemplar, assinado, é o nº 165 (como se pode ver pela terceira imagem do poste), dos apenas 310, que foram publicados. Apesar de ter sido comprada usada, a obra está como nova.

domingo, 4 de junho de 2017

Centralizando a questão


É sempre avisado desconfiar daqueles que, com cândida singeleza e puritanamente, se confessam apolíticos. Na maior parte dos casos, são meros Tartufos disfarçados. E, ainda mais, é preciso desconfiar dos que afirmam que não há já razão ideológica para a existência, em política, de Esquerda e de Direita. Esses, ou são pobres de espírito (e será deles, como diz o Novo Testamento, o reino dos céus...), ou escondem objectivos inconfessados de infiltragem insidiosa, para catequizarem e se insinuarem, com mais simpatia, no país aborígene dos ignorantes e inocentes.
Dito isto, eu penso que, em muitos aspectos, a Esquerda conserva, em si, alguns sentimentos de culpa em relação às questões essenciais do mundo, alguma incomodidade, e tem, muitas vezes, uma excessiva gentileza democrática para resolver com objectividade determinadas situações. Aí, normalmente, a Direita é menos subjectiva, mais rude, mas também mais eficaz. Por exemplo, a Guerra. Relembro a hesitação democrática de Mendès France, comparada com o realismo de De Gaulle (Argélia). Ou Kennedy e Johnson, democratas, em confronto com o pragmatismo de Nixon, republicano, que acabou com a guerra do Vietname.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Mínima, tentando a máxima


À amizade repugna a mentira. Mesmo a piedosa.
Pode suportar, no entanto, a omissão.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

A tradição já não é o que era...


É com alguma impaciência que, às vezes, mas cada vez mais raramente, ouço o cliché estafado e gasto de que, em política, já não há esquerda, nem direita - embora eu respeite as histórias de fadas.
O que hoje se passou na Assembleia da República, pode mostrar aos sonsos, aos cegos e aos daltónicos, que essa diferença existe e recomenda-se. Nessa medida, o PAN, muito provavelmente, optou pelo azul. É lá com ele e com os animaizinhos que protege, touros, inclusivé, que se enervam com o agitar do vermelho.
Porque não é apenas uma questão de cor: entre o Negrão saraivado e o Ferro moreno, respeitáveis ambos, há uma distinção essencial e, por isso, uma diferença de tomo. Felizmente, porque, na Presidência da República, a isenção do branco não tem predominado. Antes pelo contrário.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Divagações 96


Canso-me dos poemas compridos, da enxúndia das palavras em excesso. Serei porventura injusto, mas se não envelhecermos para resumos do essencial, é porque não soubemos fazer a destrinça entre finito e infinito. Entre a gordura e a usura da elegância. A elegância, por aqui, é também um substantivo redundante.
(mea culpa!)

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Idiotismos 30


A meio da manhã, um jovem de óculos escuros, com ar de ferrugem envelhecida, pronunciou, na esplanada, uma palavra que eu já não ouvia há muito: esquerdalho.
Fiquei a pensar. Havia nela, pelo tom, mas também pelo sufixo, reminiscências ou um eco atávico e conservador, do salazarista: reviralho.
Ocorreu-me a palavra rebotalho, mas evitei, pelas conotações, ir mais longe...
Mas não pude deixar de me perguntar porque seria que a esquerda (mais gentil?, mais neutra?, mais elegante ou purista?) não usa nunca, criativamente, e em contraditório, o neo-vocábulo: direitalho.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

arte menor (14)


Deus não amanhece
nunca na fotografia,
só um respiro de morte
se ausenta da folha que renasce.

Um olhar vivo, inesperado,
uma sombra ondulada pelo vento
que projecta
a coreografia inacabada.


Ch., 23-24/10/2013.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Divagações 50


Eu sei que estamos no tempo da desmemória. Ou, em pleno, no tempo da leveza que Kundera inaugurou, para título de livro. Mas fomos, entretanto, muito mais longe em direcção ao conforto da leviandade, à ausência de vergonha, ao desprezo pela palavra dada, na relação para com os outros. Em suma, instalámo-nos, por infantilismo serôdio, num estádio muito próximo da completa irresponsabilidade humana. E já nem falo sequer da boa educação...
A telenovela lumpen a que assistimos, na última semana, de alguns actos pueris deste (des)Governo português, estão aí, na sua magnificência chula, para o provar. Como podemos, pois, pedir ao comum da terra, ao ruano, ao cidadão anónimo, que faça melhor, ou se conduza, com ética, responsavelmente?
Se ele, também e provavelmente, já se esqueceu daquilo que deve ser a conduta de um ser humano.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Há manhãs...


Há manhãs em que penso que, até ao fim do dia, o vou encontrar - o Poema. Talvez como aquele de que falava Guilherme de Aquitânia (1071-1127) e que se propôs fazer: "Farei um poema do puro nada. ..." Mas é possível que eu nunca o encontre, na minha vida. Há, felizmente e no entanto, aproximações dessa poesia pura de que falava Guilherme.
Hoje, contento-me com estes versos de João Miguel Fernandes Jorge (1943), que encontrei em Lagoeiros (2011), sob o título Faltam-nos os anjos de outrora:

Esperava-o para o jantar. A cadeira de verga sob
o queixume do corpo
como se o vime tomasse a dor inteira e
a levasse na cor da palha queimada do verão antigo.
Faltam-nos os anjos de outrora
que rasgavam o azul com uma flor de liz
e nos davam a imagem das folhas
a passagem da água.

domingo, 25 de março de 2012

Gostos


Com a velhice, as coisas simples vão ganhando mais valor, muito embora, ao longo da minha vida, a exuberância, a excessiva perfeição, o alambicado quitche e o bonitinho sempre me tenham desagradado.
Na minha modesta opinião, há muito poucos poetas cuja poesia possa acompanhar, integralmente, as idades do Homem: Sá de Miranda, inteiramente, algum Eugénio de Andrade, Yeats, Quevedo, Jimenez e pouco mais.
Na pintura, Angelo e Resende também souberam acompanhar as idades, até pelo seu despojamento característico, numa ascese gradual que quase se diria arte "povera", que também teve as suas épocas de moda.
Em relação à música, de que sou um ignorante amador, diria que o meu gosto tem evoluído ou, simplesmente, se tem modificado. Mantenho o gosto pelos clássicos consagrados e por Liszt mas, nestes últimos tempos, venho gostando cada vez vez mais de Philip Glass e Preisner, de que não gostava, em anos mais tenros. Compositores que, não sendo clássicos, com o tempo, poderão vir a ser considerados como tal. São gostos...da idade.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Perspectivas


É bem verdade que o que há de bom numa amizade de muitos anos, entre muitas outras coisas, é a possibilidade de reconstituir, com alguma exactidão, um acontecimento do passado, a partir das memórias parciais e pessoais de cada um. As perspectivas individuais reordenam e corrigem os detalhes, permitindo a visão do conjunto, com algum rigor objectivo. É assim entre amigos, será assim entre irmãos.
Em testemunho desta minha observação, vou referir, traduzindo, um episódio contado por Catherine Nay ("Le Noir et le Rouge, ou l'histoire d'une ambition", Grasset, 1984) sobre o ambiente político em casa dos irmãos Mittérrand (Robert e François). Segue:
"...«Quando eu tinha menos de 15 anos os nomes dos líderes socialistas e radicais eram sempre objecto de crítica em nossa casa, à mesa», lembra-se Robert, o irmão mais velho do Presidente. «Eu nunca ouvi, em casa, acusações sobre os socialistas ou comunistas», nota pela sua parte François Mitérrand." E a jornalista remata, apropriadamente: "Podemos ser irmãos e não ouvir as mesmas coisas entre a pêra e o queijo."
Neste caso, o politicamente correcto deve ter interferido, com certeza...

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Velório


É estranho, no mínimo, o que motiva e atrai grande número de pessoas. Entre o dia de ontem, em que coloquei um poste sobre a morte de Júlio Resende (às 16,58 hrs) e hoje, mais ou menos à mesma hora, mais de um terço (cca. de 60) das visitas ao Arpose foram direitinhas a um poste que tinha feito a 23/10/2010, aquando dos 93 anos do Pintor portuense. Todas elas visitando o blogue, pela primeira vez. Uma pequena parte também se desviou para os outros dois postes que colocara, sobre Resende, neste blogue. Foi uma autêntica romaria! Busca de imagens, curiosidade, necrofilia? Não sei, francamente, e fiquei surpreedido, até porque os visitantes eram todos portugueses. Mas não devia ficar admirado: quando foi da morte de Angelo de Sousa, outro pintor portuense, aconteceu o mesmo fenómeno, embora com algumas visitas de países estrangeiros.
(Na imagem reproduz-se "Ribeira Negra", uma das obras mais emblemáticas de Júlio Resende.) 

domingo, 3 de abril de 2011

Três Andamentos


1. Outubro de 86, num café do Porto: um pintor e um poeta. Este pergunta ao Pintor se ele sabe o paradeiro de todos os quadros que fez. O artista responde que há dois que não sabe onde estão. E, num guardanapo de papel, com pequenas e breves hesitações de traço, desenha-os, linearmente. O Poeta diz-lhe: "- Do triangular, sei quem o tem!" O Pintor explica que o título do quadro é "O Massacre de Chicago", em homenagem à liberdade de associação sindical; e, depois, interroga: "- Onde está?" O interlocutor responde, cauteloso, em termos vagos: "- O dono, sei que está em Madrid..." O Pintor, após um ligeiro silêncio, exclama: " - Diga-lhe que pode ficar com ele."

2. Maio ou Junho de 86, um pai e um filho, depois de jantar (o filho dirá, mais tarde, que foi antes do jantar e que nem chegaram a comer juntos), dirigem-se para a Feira do Livro, no Parque Eduardo VII. Vão comprar, aproveitando os descontos, um livro com um auto de Gil Vicente, de que o jovem precisa para a Escola. Junto do Pavilhão Carlos Lopes há um monte de lixo e sucata, restos de fórmica e esferovite espalhados pelo chão - despojos da exposição-celebração do 15º aniversário da CGTP. Mas, no meio, e nas costas de um contraplacado de 1,20 x 1,20, há um nome: Angelo de Sousa. O filho não sabe quem é, mas o pai sabe. E, uma hora mais tarde, o quadro, de táxi, atravessará o Tejo, em direcção à Outra-banda.

3. Algures no séc. XXI, de novo, no Porto. O Pintor e o filho do homem encontram-se e conhecem-se durante uma exposição. O jovem fala ao Pintor (que se parece com o João César Monteiro, mas é menos desbocado), já sexagenário, do quadro "O Massacre de Chicago" e confirma-lhe que o pai o tem, pendurado, na sala do pequeno apartamento de Lisboa. O Pintor pede, então, ao jovem que tire uma fotografia da obra e lha mande. O jovem diz que sim. Mas com a falta de tempo e os trabalhos, nunca chegará a enviar a foto. E, entretanto, como diz a canção do José Afonso - "O Pintor morreu..."

para A. de A. M. e ms, e à memória de Angelo de Sousa.

quarta-feira, 30 de março de 2011

A massificação e a preguiça


Nunca será demais lembrar Angelo de Sousa, e faço-o, uma vez mais com respeito e estima, reproduzindo, pela 2ª vez, uma obra sua. Vou explicar porquê.

De ontem a esta parte, cerca de 1/4 das visitas ao Arpose dirigiram-se a um poste de 16 de Fevereiro, intitulado "Esquerda e direita - a memória" que tinha, em imagem, uma obra de Angelo de Sousa, em cores vermelha e azul. Na minha intenção, o azul seria a direita, e o vermelho representaria a ideologia de esquerda. Estranhei tanta visita ao mesmo poste. Eles vinham de Lisboa, imensos do Porto, de Inglaterra, de França, de Espanha, até de Riga e da Alemanha. Pensei cá para comigo: há um súbito interesse (louvável, aliás) pela política portuguesa. Cedo me desenganei. Como Angelo de Sousa tinha falecido, grande parte das visitas vinha sugar a imagem de uma obra do Pintor, para usá-la, se calhar, noutros blogues. Que tristeza.

À guisa de alternativa e para variar esta massificação preguiçosa sugiro que, para ilustrar algum eventual epicédio, comprem ou consultem: da IN-CM, colecção arte e artistas, a monografia "Angelo de Sousa" feita por Bernardo Pinto de Almeida (1985), que não está esgotada. Mas há muito mais bibliografia sobre Angelo de Sousa. É preciso é trabalhar a procurá-la. Façam exercício, que faz bem ao corpo e à cabeça - a net não é tudo: é até muito pouco...

Divagações 3


A chuva oblíqua tinha-me vindo de outra realidade. Que não do Pessoa, decerto, mas de uma raíz mais prosaica. E, do excesso, é sempre bom ter um bocado. Para momentos de heroísmo, de irreflexão, ou amores impossíveis. Para abrir, romper a rotina, sermos outros instantes sobre a vida - e não nos repetirmos sempre.

Há muito tempo, e no cais, o homem grisalho teria dito, quase ao pé de mim: "...o barco saíu daqui, com boa manobra e tudo..." - como dois versos perfeitos separados pela vírgula. Pensei, na altura, que era um belo começo de poema. E tomei nota das palavras, num pequeno papel, que perdi. Mas nunca consegui continuá-las...