
"...Quando a pintura deixou de descobrir novos meios de representação, passou a empenhar-se numa procura delirante e de perseguição do movimento, como se o movimento, só ele daí para o futuro, trouxesse consigo a força persuasiva recentemente anunciada pelos meios de representação conquistados. Mas não era uma descoberta de representação que iria permitir a posse do movimento. Aquilo que se designa por gestos de afogados no mundo barroco, não é uma modificação da imagem, é uma sucessão de imagens; não é estranho que esta arte, toda de gestos e de sentimentos, obcecada pelo teatro, viesse a acabar no cinema.
A «concorrência ao estado civil» foi exercida pela fotografia. Mas, para representar a vida, a fotografia, que em trinta anos passara de uma imobilidade bizantina a um barroco frenético, não tinha feito mais que encontrar de novo, um-após-outro, os problemas da representação. Ela detinha-se onde esta se detivera. E tanto mais paralisada quanto é certo que não dispunha da ficção: se fixava o salto de uma bailarina, por outro lado, não podia fazer entrar os Cruzados em Jerusalém. Ora, desde as feições dos Santos até às reconstituições históricas, a vontade de representação dos homens aplicou-se não só ao que nunca viram como, também, ao que conheciam.
O esforço prosseguido durante séculos para captar o movimento detinha-se, portanto, no mesmo ponto, tanto na fotografia como na pintura; e o cinema, se bem que permita fotografar o movimento, não fazia mais que substituir uma gesticulação imóvel por uma gesticulação móvel. Para que pudesse prosseguir o grande esforço de representação enterrado no barroco, seria necessário chegar à independência da câmara em relação à cena representada. O problema não residia no movimento de uma personagem, mas na sucessão de planos. Ele não foi resolvido tecnicamente, por uma transformação do aparelho, mas artisticamente, pela invenção do «découpage». ..."
André Malraux, in "As Vozes do Silêncio" (pgs. 118/119).