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sábado, 16 de março de 2024

Pinacoteca Pessoal 201

 

É um quadro a óleo pintado em madeira de carvalho, por Pieter Bruegel (1525?-1569), o Velho, que se encontra bem integrado no acervo do harmonioso e exemplar Museu Mayer van den Bergh, em Antuérpia. Numa visão desatenta, a figura central (Margot la folle) pode quase passar despercebida. E a obra é dificil de datar (1563?), embora seja do século XVI, pela sua autoria comprovada.



A personagem, figura popular ou folclórica do imaginário da cidade flamenga, à frente de um grupo de mulheres, prepara-se para saquear o Inferno, segundo a história local e lendária. O que não deixa de ser uma interpretação deveras curiosa...

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Da leitura 29


Há sítios em que se está bem. Amenos ao entrar e onde apetece permanecer.
Acontece-me às vezes. Com certas séries televisivas e filmes ingleses, com pessoas que trazem consigo um passado connosco, com amigos que falam a nossa mesma linguagem. Com alguns, raros, livros onde se respira em conjunto.
É o caso deste Austerlitz, de W. G. Sebald (1944-2001), em que o escritor principia a falar da estação de caminhos de ferro de Antuérpia, com quase os mesmos sentimentos e impressões subjectivas com que lá entrei, há uns anos atrás.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Diferença


Por mero acaso, acontece que, em Antuérpia e ao dobrar do ano, tivemos que esperar bastante tempo por um transporte público, numa paragem de rua que, pelos indícios, deveria ser, maioritariamente habitada por judeus ortodoxos (?). Passaram por nós, a pé ou de bicicleta, mais de 10 personagens com uma espécie de balandraus escuros e compridos, caracolitos pueris e laterais na cabeça, chapéus negros de aba larga.
Ensimesmado, dei-me a pensar que eles fazem gala em marcar e mostrar sua diferença, usando atavios, algo exóticos e medievos, para se distinguirem, como "povo eleito", de entre os comuns da terra.
Em tempos adversos para os judeus, eles foram obrigados - e não de livre vontade - a usar a estrela de David na roupa exterior, de forma a serem identificados facilmente pelos outros seres humanos. Entre o uso ostensivo de sinais de diferença, hoje, e o uso obrigatório imposto por outros, ontem, vai a grande diferença entre a submissão e a liberdade. Mas também uma similitude simbólica de exterioridades identificativas...

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Lembranças de Antuérpia


A Bélgica é um país pequeno, mas tem edifícios enormes a atestar, de forma inequívoca talvez, um passado imperial (Congo, Ruanda...), ainda que muito breve, em tempo de seu exercício...
A estação ferroviária de Antuérpia, construída entre 1895 e 1905, é um bom exemplo dessa desmesura, embora hoje razoavelmente aproveitada nas suas três plataformas de vias para comboios de vários destinos europeus.



Ponto turístico de consenso geral, como para mim é, do ponto de vista particular, a livraria De Slegte, à beira da casa(-museu) de Rubens, pintor que eu já não frequento por devoção artística, também pela sua desmesura de celulites, tão bem expressa no Rapto das Filhas de Leucipo (hoje, em Munique), que colhia as minhas preferências juvenis, em detrimento dos retratos da também nutrida Hélène de Fourment.



A De Slegte, comedidamente distribuída por três andares, dedica um deles aos livros usados, a bom preço normalmente. De lá trouxe, há uns anos, uma abada de livros de Simenon que me faltavam, sem esportular muitos euros. Desta vez, tive menos sorte. Mas ficaram-me os olhos num Le Marteau sans Maître, de René Char, na sua edição original (500 exemplares), autografada, acompanhada de uma carta do poeta francês, justificando a oferta. Pediam 600 euros pelo lote, mas eu não estava preparado para tanto...



Tive de me contentar com a versão francesa de An der Zeitmauer, de Ernst Jünger, em muito bom estado e por abrir, que me custou apenas 10 euros, e que tenho vindo a ler, com agrado e proveito.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Fé, café e música


16.000 igrejas abandonadas ou encerradas, no Reino Unido, segundo refere George Steiner, em entrevista concedida a Laure Adler, em 2015. A escassez ou ausência total de fiéis assim o justificou.
Em Antuérpia, ainda não há muitos anos, na paróquia de Sint-Norbertuskerk, na Dageraadsplaats, o padre da paróquia, em emergência, convocou os fregueses católicos para lhes dar conta que a igreja poderia vir a ser transformada em mesquita. Perante a fraquíssima afluência de fiéis, a autarquia ponderava a decisão, a pedido da comunidade islamita da zona, de a entregar para readaptação a mesquita. A reunião da comunidade católica decorreu com alguma preocupação e dramatismo, mas foram tomadas medidas, ajustadas à questão, para debelar o problema candente.
Ainda hoje, Domingo, depois da missa das 11h00, foram servidos bolinhos e café, aos fiéis que quisessem retemperar forças e também aos que se encontrassem em jejum, por causa da comunhão. A música passou também a ter lugar cativo (Cantatas de Bach, hoje) durante os ofícios divinos. A assistência de fiéis e frequência recompôs-se satisfatoriamente, nos últimos tempos...

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Pinacoteca Pessoal 42 : Guilliam Gabron


Raras vezes uma Natureza Morta, em pintura, colhe a minha admiração, de forma especial. Há, no entanto, algumas excepções, como esta obra de Guilliam Gabron (1619-1678), que pertence ao Museu Mayer van den Bergh, de Antuérpia. Os dados sobre este pintor flamengo (?) são escassíssimos, para lá das datas de nascimento e morte. O quadro terá sido executado nos últimos anos de vida do artista e denuncia uma técnica depurada e sóbria, nos escuros predominantes e nos brilhos de metais, contrastando com a claridade que habita, normalmente, as telas do seu contemporâneo Cornelis Mahu (1613-1689) que tem temas e um estilo semelhantes. As obras de Guilliam Gabron são, habitualmente, muito disputadas e atingem preços altos em leilões internacionais.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Adagiário CVII : Brueghel, o Velho


Brueghel (1525?-1569) dedicou particular atenção aos provérbios flamengos, que o inspiraram para a execução de algumas obras notáveis. Decorou, por exemplo, 12 pratos de madeira, de uso corrente, com ditados populares, que se encontram, hoje, no acervo do Museu Mayer van den Bergh, de Antuérpia. Mostra-se um deles, que personifica o adágio flamengo: Rozen voor de zwijnen werpen. O equivalente, em português, a : "Dar pérolas a porcos".

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Diário presente, em pretérito imperfeito


Nas Kappelen, que já foi floresta, mas ainda é bosque frondoso, em volta das numerosas vivendas, apareceram  duas rolas elegantes e até um melro de rabo branco (que é raro e que eu nunca tinha visto), mais os corvos omnipresentes. Pássaros pequenos e inúmeros víamos nós, pelo longuíssimo quintal.
Ao que me disseram, de vez em quando, pequenas raposas aventuram-se até próximo das habitações, que homens e animais, nestas redondezas de Antuérpia, ainda conseguem conviver em harmonia. Pese embora termos jantado javali que, provavelmente, viera das Ardenas.
Macerado que foi em vinha de alhos, na véspera, com ele se bebeu uma magnum grand-cru de Bordéus, de 2006, com 13,5º - que estava uma delícia. As crianças, que eram 3, tiveram direito a coca-cola. Nanja nós!
Antes, tinhamos aperitivado com um sekt Mosel Riesling, acidulado e fresco, de 2010. Depois do café, uma bagaceira croata, inspiradora. Quando saímos, já noite cerrada, íamos preparadíssimos para o frio...

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Perto da casa de Rubens

Parou de chover. A Graanmarkt está quase deserta de gente, cruzada embora, na diagonal, pelo voo e grasnar de um corvo enorme, quando saio do Bourla, para vir fumar, cá fora. De artistas e actores, o café mantém uma atmosfera boémia e informal de anos sessenta, com prateleiras espelhadas que multiplicam as garrafas de gin, whisky, Porto, conhaque e licores.
Quando volto para dentro, na mesa do canto, duas balzaquianas elegantes estao a ser servidas de Möet & Chandon, pela empregada solícita e jovem. Mas eu nunca virei a saber quem é este Lawrens que marcou a mesa ao lado da nossa, para as 17h45, porque tenho de sair antes. Sei que virá acompanhado, porque a reserva é para 2. Como reza o pequeno bilhete sobre a mesa.
Antes que feche, quero ir à De Slegte, onde há 3 anos comprei uma abada de Simenon, usados e por pouco dinheiro. E valeu a pena, mais uma vez. Trago de lá "Le Fils", que me faltava. E que já comecei a ler, depois de  um Cordon Bleu muito saboroso, em casa Amiga, acompanhado por um aconchegado Tempranillo da Ribera del Duero (2011). Porque também se come muitíssimo bem, na Bélgica: é só lembrar as bem fornidas mulheres de Rubens...

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Novembro, 22

Por entre o canto rouco das gralhas, corvos e pegas que, por aqui, as pombas pouco aparecem, as folhas de Outono atapetam as ruas húmidas e frias. Castanhos matizados, verdes desbotados, brancos sujos e amarelos predominantes. Mas há um pequeno Sol tímido que iluminará as cerimónias, daqui a pouco. E, depois, em Antuérpia, devem aparecer as gaivotas, que o Reno, por agora, nem sequer trouxe às margens.

sábado, 17 de novembro de 2012

Partir


Há um lado íntimo que já me vem de fora e, talvez por isso, alguma coisa me conforta no partir.
Desta vez, não serei eu a fechar a gaveta e a porta, ficando com uma chave, inútil, entre as mãos. Sem saber a quem a dar, porque é apenas minha. E de mais ninguém.
É possível, no entanto, que seja eu a fechar a mala que levarei comigo. Levarei Simenon e Camilo, para ler - está decidido. Para um vacilar momentâneo, que venha ter comigo, que a velhice é, apenas, um antecipar de despedidas. E ninguém deveria sonhar eternidades fictícias ou fúteis paraísos.
Mas, não o posso evitar, porque as viagens me instalam, agora que passou o gosto da aventura, um desconforto, não só físico, também mental.
Adoço-me à ideia dos amigos que me esperam, e não vou sozinho. Lembro-me dos brancos do Mosela, acidulados, frescos, cordiais. E, também - porque lá irei -, das ruelas estranhas de Antuérpia que nunca percorri em Novembro. E, se não partir feliz, irei decerto conformado, atento e completo. De bem comigo e com os outros. Mesmo que não possa, nunca, perdoar à Morte.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Pinacoteca Pessoal 35 : Eugène Laermans



É relativamente recente (2009) a minha descoberta do pintor belga Eugène Laermans (1864-1940) de que vi os primeiros quadros no Museu das Belas-Artes, de Antuérpia. O seu quadro "O Cego" (em imagem), de 1898, ficou-me, desde logo, na memória. Surdo e quase mudo, por complicações motivadas por uma meningite e pela febre tifóide, na infância, a vida de Laermans foi marcada por adversidades várias. Em 1927, ficou cego, mas três anos antes já tinha deixado de pintar. Razões que talvez expliquem o dramatismo e solidão que ressumam de muitas das suas telas, onde o "plat pays", de que falava Brel, se desenvolve em longos planos de horizonte e onde os mais desfavorecidos, sejam eles os pobres, as viúvas, os emigrantes e os operários têm, quase sempre, lugar cativo. Num realismo impressivo e tenso.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Uma dúvida metafísica


Alguém estimado, e já falecido, costumava falar da "pressa judia", para se referir ao andar apressado dos judeus, provavelmente, para poupar, no tempo. Realmente, em Antuérpia, já observei a justeza daquela observação, até porque, nesta cidade flamenga, eles são perfeitamente reconhecíveis (os ortodoxos e ultra-ortodoxos?) pelas vestes, pelos cabelinhos encaracolados em cacho e pela rusticidade tosca e triste das mulheres.
Mas averbemos 4 exemplos nacionais para base da minha dúvida principal: na Bélgica e nos Estados Unidos, os judeus assumem-se quer pelo seu vestuário singular, quer pela forma (que não parece muito diferir da islâmica) de depreciar ou menorizar a mulher e, sobretudo, pelos tais caracóizinhos no cabelo. Por outro lado, na Alemanha e em Portugal (onde a comunidade judaica não é tão pequena como isso), nunca vi caracóis judaicos. Passam despercebidos e não se nota a diferença. Ter-se-ão integrado, gradual e totalmente? Francamente, não sei responder. Até porque, os que eu conheço, não andam muito depressa.

Nota: politicamente correcto, este poste? Creio que não...

domingo, 22 de maio de 2011

A resposta do Pintor


Morreu cedo este pintor flamengo, mas o seu talento foi precoce. Anthony van Dyck (1599-1641) nasceu em Antuérpia, mas a sua obra foi executada, sobretudo, na Inglaterra. Contou com o generoso patrocínio do rei Carlos I, que muito apreciava os seus trabalhos. Em contrapartida, van Dyck retratou-o várias vezes, bem como à mulher, Henriette Marie de França (1609-1669). Em relação à raínha, há um episódio curioso, passado entre os dois. Henriette não era bonita mas esperava ser embelezada, no retrato. Ao ver a obra final (do retrato, na imagem acima) observou que o Pintor lhe favorecera as mãos, mas não fizera o mesmo com o rosto e perguntou ao Artista o motivo. Ao que, van Dyck, prontamente retorquiu: "Não lisonjeei o Vosso rosto porque daí não esperava nada, favoreci as mãos, porque delas esperava alguma coisa!"

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Quarto crescente


O crescente lunar lembra-me sempre Mértola, por variadas razões. Mas só hoje reparei que a Lua está a nascer quase a Sul e, por isso, não a via, da varanda a leste. Foi preciso caminhar, por onde outrora uma mata densa, de uma Quinta antiga, crescia - hoje urbanizada -, para vê-la, magnífica no seu Quarto crescente. O luar dava para ver as oliveiras sobreviventes já podadas, o aloendro ainda florido, a relva recém-cortada. Mas onde íamos, não fomos: era o dia de folga.
Há sítios de nenhures, nos subúrbios, onde nascem oásis inesperados. Onde estamos, como podíamos estar em Düsseldorf, numa esplanada sobre os canais de Leyden a ver cumprir as praxes sobre os caloiros da Universidade. Numa pequena casa de chá de Kew Gardens. Ou num pátio interior de Antuérpia, a descascar mariscos do Mar do Norte, bebendo um "Riesling", em jubilosa amenidade e fraterna companhia. Em volta, apenas um rumor em "sotto voce", a música ambiente bem timbrada, mas discreta, que acorda as nossas palavras íntimas. E as crianças, não uivantes, se entretêm à volta, harmoniosas, sem gritos estridentes.
Dizer que estamos a 4 quilómetros da Las Vegas suburbana, ninguém entenderia. Eu próprio tenho dificuldade em acreditar. Não decorei o nome do café-restaurante-esplanada. Nem isso importa muito. Sei onde é. Mas chamemos-lhe, simbolicamente: Oásis. Ou de uma forma mais simples - Europa.


domingo, 4 de julho de 2010

A Última Viagem


Este homem pesado e grosso, que tenho à minha frente, irá morrer dentro de três dias. Os olhos, agora de um azul desmaiado, parecem alumbrados, e o jeito que dá às calças do pijama castanho, a compor-se, tem um sabor triste e tímido de adolescência. Está sentado a meio da cama e tenta levantar-se. A ambulância espera, quatro andares abaixo. Este homem já foi criança, viu morrer, ao lado, dois irmãos mais novos, levados por inesperadas ondas atlânticas numa ilha distante. Foi, depois, telegrafista, capitão de marinha mercante, viu Arcangel, Amesterdão, Surabaya, o Rio, viu o porto de Antuérpia, pouco antes da guerra. Amou muitas mulheres. Tirou o curso de Direito, já passara dos quarenta anos. E vai morrer, dentro de três dias. Duas mulheres amparam-no e ajudam-no a vestir-se. Acendem a luz no corredor - é Novembro, ao fim da tarde. O homem não fala, nem sabe que vai morrer. Fez há pouco 81 anos.

Deixou-me, em testamento, cerca de 1.400 páginas manuscritas de uma "História do Direito Marítimo Europeu", numa escrita elegante e sincera, cheia de notas de rodapé; mais uma gravata de seda italiana dos anos 60, que lhe ofereceram, em Bruxelas, num congresso em que participara. E, ainda, as "Leis Extravagantes collegidas e relatadas pelo Licenciado Duarte Nunes do Liam...", na sua edição princeps de 1569. Houve nele uma intenção determinada nesta, para mim, inesperada herança. Até porque eu só o conheci já no outono da vida, apenas havia cinco anos. Fizera-me confidências, é certo, contara-me muitas histórias, mas só percebi, depois, a intenção do seu legado.

Ao folhear a sua obra manuscrita inacabada, que começou a escrever quando se reformou, encontrei, a meio, duas cartas com selos belgas e a mesma remetente: Bietje Claes, de Antuérpia. As cartas distavam, entre si, apenas doze dias, e as datas eram de dois anos antes da morte de Manuel. Por elas consegui reconstituir um capítulo da vida deste homem de olhos azúis, elegante de gestos, quando o corpo, pesado de anos, já não lho permitia. Manuel tinha conhecido Bietje, em 1966, num congresso de Direito Marítimo, em Bruxelas. Separavam-nos 31 anos de vida. Manuel tinha 55 anos, a jovem flamenga apenas 24.

Na primeira carta, Bietje Claes explica que enviuvou, que conseguiu obter a direcção de Manuel através da Embaixada Portuguesa. Que vai estar, no próximo fim de semana, em Lisboa, no Hotel Tivoli, e que queria muito vê-lo. Pela segunda carta, que continha também duas fotografias, concluí que Manuel não chegou a ir ao encontro. Não terá sido a distância do Estoril à Avenida da Liberdade que inibiu o velho marinheiro de se encontrar com Bietje. Nem a vigilância atenta e ciosa de D. Maria poderia destruir um alibi bem preparado por esse advogado experiente... Manuel preferiu preservar uma memória e uma estética. Tinha 79 anos.

Posso, hoje, imaginar que Bietje Claes ainda caminha, quase todas as manhãs, vinda de Lange Ruisbroeck-Straat, em direcção ao pequeno mercado de Dageraadsplats, em Antuérpia. E, nos dias rigorosos do Inverno flamengo, aquecem-lhe a alma ou o coração, quase septuagenário, os fragmentos já pouco nítidos de um rosto de olhos azúis. E o murmúrio de sons, quase uma música, de algumas palavras ardentes, na penumbra de um quarto de Bruxelas, ditas há mais de quarenta anos, numa língua cantante, mas estranha, e que ela nunca compreendeu.


P. S.: à memória de M. R. de S., Jr.