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terça-feira, 24 de março de 2015

Cuidar dos vivos ou em louvor da memória e de A. V.


Eu, que me gabo, às vezes, de ter boa memória, ficava de rastos quando dialogava com A. V. (1938). Conheci-o, vai para 30 anos, no número 44, da rua do Alecrim, talvez por um comum amor aos livros. Eu ouvia, Tarcísio Trindade fazia pequenas observações, A. V. discreteava, fluente, sobre a vida cultural do século XX - enchendo a livraria de histórias. Datas, pequenos ditos, citações nobres, tudo parecia rejuvenescer das suas palavras - era um homem de peso: pelo vulto e pelo que sabia e nos lembrava.
Açoriano notório, excepto pelo sotaque, era generoso na partilha, afável na sua amena truculência medida, e deixava-nos, quase sempre, alguma pérola fulgente, ou alguma nota de humor urbano, para trazer para casa. Hoje, e no jornal Público, li, com imenso gosto e proveito, mais uma das suas crónicas exemplares. Desta vez, era sobre o Orpheu. Diz ele: "...O Orpheu projectou-se no grupo e na geração da Presença, nos Surrealistas, nos neorrealistas, nos Cadernos de Poesia e em sucessivos outros movimentos literários até aos nossos dias."
Só há uma coisa, nesta citação, em que não estou de acordo com ele: na referência à Presença. Embora estimável, foi um movimento literário retrógrado (pelo menos, conservador), em sentido restrito e não pejorativo, que colhia raizes bem para trás de Orpheu.
E, já agora, como não o tenho visto, com seis dias de atraso, lhe envio os Parabéns, meu caro A. V. - se me vier a ler. Até sempre!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Bibliofilia 44 : Tarcísio Trindade


Morreu há dias, pouco depois dos idos de Março, com quase 80 anos, em Lisboa, mas era natural de Alcobaça. Era um homem que cultivava alguma distância, na sua extrema afabilidade educada. Profundo conhecedor dos mistérios e meandros da bibliofilia, Tarcísio Campos Trindade (1931-2011) desencantou das traças da antiguidade, em 1965, o primeiro incunábulo escrito em português (Tratado da Confisson, 1489) que manteve a sua posição primeva até que, em 1996, João Alves Dias nos deu a conhecer o "Sumario das Graças", impresso por volta de 10 de Abril de 1488. Desde os anos 70 que Tarcísio Trindade tinha casa aberta (até tarde, normalmente) na Rua do Alecrim, nº44, em Lisboa. Era um local de encantamento e descoberta para quem gostasse de livros. Lá conheci António Valdemar e Joaquim Braga, por lá passou, muitas vezes, Pina Martins, lá aparecia, e cavaqueava, Artur Anselmo. Os preços dos alfarrábios eram justos, daí que, frequentemente, alguns colegas de profissão lá fossem, para comprar obras que revenderiam, mais caras, depois, nas suas lojas. Era preciso passar todos os dias, porque, normalmente, todos os dias havia novidades expostas para venda. Lá comprei um folheto raro de Mariana de Luna, de 1641, uma primeira edição de Rubén Darío, com dedicatória, que pertencera a Alberto de Oliveira, a "Clepsydra" (1920) de Camilo Pessanha, na sua edição original, e tantas outras obras raras ou preciosas. Havia sempre uma pequena informação ou nota útil de Tarcísio Trindade, quando se fechava a transação, sobre o livro em causa. Passou o ofício ao filho, Bernardo Trindade, que herdou a amabilidade do Pai, e grande parte dos conhecimentos, mantendo a actividade, no mesmo local, com os mesmos princípios.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Queda de cadeiras : 2 Antónios, e eu


É sempre um facto acidental, inesperado, quase inacreditável acontecer. Muitas vezes, ridículo e hilariante. A primeira queda de cadeira, que vou referir, prejudicou-me um pouco. Era eu aspirante miliciano no BRT (Batalhão de Reconhecimento e Transmissões) da Trafaria. Estávamos em Setembro de 1968, e António de Oliveira Salazar caíu da cadeira, no Forte do Estoril. Não pude regressar a Lisboa, o quartel entrou de prevenção, e o País tremeu. Tive que desmarcar compromissos que tinha para essa noite...
A segunda queda de cadeira aconteceu comigo. Foi aqui pela zona outrabandista, e quase em família. Tinhamos ido almoçar ao ar livre, num restaurante modesto e honesto, mas onde grelhavam peixe muito fresco, com desvelo e sabedoria. Era o Verão de 87 ou de 88. Às tantas, o António, que estava connosco, grita-me: "Olha que estás a cair!?..." Eu não acreditei, era lá possível uma cadeira com estrutura interior de ferro (só que já estava enferrujada), embora com cobertura de plástico, desfazer-se de um momento para o outro?...Mas sentia-me a deslizar, suavemente, em direcção à terra. Não fiz nada e, ao "ralenti", passado um minuto, estatelava-me no chão. Não parti nada, a não ser a cadeira...
A terceira queda é mais académica. Aconteceu com o António Valdemar (a memória humana mais prodigiosa que conheço) e que é, hoje, Presidente da Academia de Belas-Artes. A história contou-a ele na Rua do Alecrim, nº44, em Lisboa. Terá sido nos anos 90. António Valdemar tinha acabado de receber uma comenda, creio que a 10 de Junho. Dirigiu-se para a sua cadeira, no meio dos agraciados. Sentou-se, e a cadeira desfez-se - caíu desamparado. Ajudam-no a levantar-se e perguntam-lhe, preocupados, se se magoara. Confundido e atónito, Valdemar responde: "Foi o peso da Glória!"