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quarta-feira, 6 de março de 2013

Idiotismos 14


A expressão andar aos gambozinos, creio, já foi mais usada do que é hoje. Porque isto de gíria ou calão também tem o seu tempo e as suas modas. Acresce que, actualmente, até há zonas de exclusão ou guetos onde parece predominar um linguajar próprio, quase um dialecto local. Para já não falar dos SMS...
Mas voltando à expressão inicial (andar aos gambozinos), julgo que não será muito antiga e, salvo opinião contrária fundamentada, situaria a sua origem provável no século XX. É referida por António Tomás Pires, em 1928, e Augusto Moreno, no seu Dicionário de 1936, também a refere.
A frase popular teria tido origem no Alentejo ou Algarve, como brincadeira carnavalesca. Os mais velhos costumavam, por alturas do Entrudo, dar um saco aos rapazes mais novos e ingénuos, pedindo-lhes que se colocassem ao pé dum muro ou dum buraco na terra, e lá ficassem à espera dos gambozinos... Entretanto, afastavam-se, dizendo que iam fazer uma batida, pelo mato, à procura desses animais.
Carvalho da Costa avança a hipótese de a palavra (gambozino) ter origem na Espanha ou na França (cambuse, gambuse). Mas os naturalistas aproveitaram-se do vocábulo, para assim nomear um pequeno peixe. Houaiss, no seu Dicionário, ignora ostensivamente o gambozino. Embora registe gambúsia para o referido peixe minúsculo (5 cm.), originário da América do Norte.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Idiotismos 11


Muitas expressões populares, com o tempo, vieram a alargar-se, do restrito e particular concreto, a campos mais vastos de significação, que se afastaram da razão inicial. É o caso da expressão: quem espera por sapatos de defunto, morre descalço (ou, toda a vida anda descalço).
Antigamente, explica António Tomás Pires (Origem de várias locuções, adágios, anexins...), nalgumas cidades, vilas e lugarejos, cada Irmandade ou Confraria tinha um Irmão, a que chamavam "campeiro", e a quem estava atribuída a tarefa, quando morria algum Confrade, de ir pela povoação tangendo uma campaínha, a fim de avisar os restantes irmãos, para que estes fossem ao velório e, posteriormente, acompanhassem o defunto, até à campa do cemitério. Por esse trabalho, o campeiro recebia, em herança, os sapatos do falecido, ou como rezava a tradição: "todo o confrade que se finar, dê os sapatos ao companheiro".
Como se pode constatar, o significado afastou-se da origem e perdeu o sentido inicial. A expressão, hoje, quer dizer: quem espera recompensa ou lucros problemáticos, pode muito bem sair ou ficar descalço...