Sei que o autor era conhecido, já antes, em círculos restritos portuenses em que se lia poesia e se ia ao cinema, com alguma devoção. Mas para muita gente, e para mim, que gostava ou fazia poesia, a publicação, em 1967, de Poemas Quotidianos, de António Reis (1927-1991), pela Portugália, foi uma pedrada no charco. Porque era uma poesia muito singular, subjectiva mas atenta, despida de atavios, para a época, e fora editada na prestigiada colecção Poetas de Hoje.
Depois das 7
as montras são mais íntimas
A vergonha de não comprar
não existe
e a tristeza de não ter
é só nossa
E a luz
torna mais belo
e mais útil
cada objecto
Lido este poema, pelo livro emprestado na altura por um amigo, vi que estava perante um poeta diferente, sério perante a vida, atento aos pequenos sinais de existir. Não me lembro já do que Eduardo Prado Coelho, no prefácio da edição da Portugália, dizia desta poesia do quotidiano anónimo dos homens sem história. Por preocupada arrumação, classificaram estes poemas de António Reis no segundo neo-realismo. O que me parece, hoje, muito redutor.
Agora que, passados 50 anos, a Tinta da China, em boa hora resolveu reeditar o livro, fala-se em Guillevic, como seu parente de influência. Talvez. Mas ao poeta francês falta-lhe a ternura, que António Reis sabe usar com parcimónia natural. Vejo-o mais próximo de Saúl Dias (Júlio, como pintor, irmão de José Régio), embora mais urbano e atento aos ruídos da cidade.
Talvez por isso, António Reis terá deixado de escrever versos, depois, e filmou Trás-os-Montes (1976). Cansado, provavelmente, da cidade e dos seus artifícios, tentadores mas efémeros.
Seria quase desnecessário dizer que recomendo, vivamente, este livro de poemas.
agradecimentos a ms, afectuosamente.