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sexta-feira, 5 de junho de 2020

Divagações 160


Dou-me bem de vez em quando a reler obras que já foram de minha estimação, até para tomar depois a temperatura da minha perspectiva actualizada e do valor que hoje lhes dou, concretamente.
Calhou esta tarde a vez a Ramos Rosa, Almeida Mattos e Gedeão. O primeiro poeta quase me deixou indiferente, soube-me muito bem reencontrar as palavras do meu amigo António (Conjuntivo Presente, Afrontamento, 1991) e gostei de ler o início da introdução de Jorge de Sena à obra poética de António Gedeão, no volume da Portugália (1964).
Não resisto a transcrever um pequeníssimo excerto do texto de Sena:
[...] Um homem não começa a publicar livros aos cinquenta anos, para brincar de poeta consigo mesmo, mas porque rompeu os muros de timidez e de orgulho, que o inibiam de mostrar-se o poeta que era. Nem toda a poesia deste mundo nasce dos apetites juvenis de ser-se notável pelo menos para algumas páginas literárias e alguns críticos atenciosos. [...] (pg. XII)

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Recomendado : setenta e um


Herberto Helder (1930-2015) terá guardado apenas 2 cartas, das que Ramos Rosa (1924-2013) lhe enviara. Este conservou, se não todas, uma grande parte da correspondência que H. H. lhe remetera. Algumas destas missivas constam da Colóquio-Letras (nº 196), saída recentemente.
Não me parece que a importância delas sobreleve o interesse de uma carta que Herberto Helder dirigiu a Eugénio de Andrade (1923-2005), e que eu arquivei no Arpose, em 22/11/15 (Herberto / Eugénio), mas, para quem se interessa por Poesia, vale a pena ler esta correspondência.
Por isso a recomendo.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Arquivos, espólios, cartas, fotografias, recortes...


Nem sempre os espólios passam de ser vivo para ser vivo. Naturalmente, a trasladação passa de pessoas desaparecidas para sobreviventes ou herdeiros, ou, noutros casos, para instituições capazes de cuidar desses papéis, de forma técnica e apropriada. Essas heranças dão-se, muitas vezes, por razões de espaço a ganhar, em casas particulares sem grandes dimensões, nem capacidade de armazenamento físico. Noutras ocasiões, os donos desses espólios, por questões práticas, resolvem doar em vida ou vender, a instituições culturais ou regionais, o excedente supérfluo para poderem conservar o essencial, em sua casa.
Passei, recentemente, cerca de 4 dias a desbastar cerca de uma centena de envelopes, que me tinham sido confiados ad eternum, por um Amigo. E, isto, porque eu próprio também estava a necessitar de espaço em minha casa. Ordenado alfabeticamente, o espólio tinha servido de suporte a uma publicação cultural que, já há largos anos, tinha deixado de existir. Nos envelopes, havia de tudo: fotocópias, cartas, recortes de jornais, revistas, fotografias, cartões de visita, C. V., bibliografias... Uma grande parte documental perdera, entretanto e completamente, a actualidade e/ou interesse do que fora, em tempos (15/30 anos, atrás), acontecimento notabilíssimo. A lei do tempo que, como disse Yourcenar, é um grande escultor.
De tudo isso conservei apenas cerca de um quinto do acervo inicial.

para A. de A. M., afectuosamente.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Bibliofilia 110


Nos recessos e recantos de uma biblioteca, existem sempre algumas coisas semi-escondidas e de que perderamos o rasto, há muito: um pequeno livro afogado entre dois maiores, um folheto magríssimo, uma folha volante de quase transparente dimensão...
É o caso deste Formato-in-plano (termo técnico), suplemento especial do "Jornal do Fundão", editado em 24 de Janeiro de 1965, dedicado à Poesia Experimental portuguesa. E que contém colaboração de António Aragão, António Ramos Rosa, E. M. de Melo e Castro, Herberto Helder, José Blanc de Portugal, entre outros.
Não erro - creio - se disser que este Folheto é raríssimo. Nunca mais vi nenhum exemplar à venda. E veio ter às minhas mãos, gratuitamente, no próprio ano da sua impressão, por uma sorte do destino...
Em partilha, aqui fica o texto da colaboração de Herberto Helder, e o cabeçalho da publicação, em imagem parcial.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Recomendado : quarenta e dois


No jornal Público de ontem (25/9/13), António Guerreiro assina dois artigos amplos, de indiscutível qualidade e penetrante argúcia. Um, dedicado à obra e pessoa de António Ramos Rosa, outro, historiando a evolução das relações entre a França e a Alemanha (França-Alemanha / Afinidades electivas, perigosas relações), bem como as suas implicações na Europa, ao longo dos últimos três séculos. Na dificuldade de escolha, optaria por recomendar, francamente, a leitura deste último.   

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Retiradas do "Público" de hoje : 2 certeiras e 1 bacoca


"Temos um Rolls-Royce a apanhar ferrugem, sem gasolina ou mecânico"
Alexandre Delgado sobre o Teatro S. Carlos.
...
"Ele (A. Ramos Rosa) foi inteiramente poeta, exasperadamente poeta (mas não no sentido depreciativo e kitsch que a palavra pode ter), inapto para a vida pragmática de funcionário, como observou o seu amigo Vergílio Ferreira."
António Guerreiro sobre Ramos Rosa.
...
"Portas fez «contacto prévio» com equipa de Woody Allen em Nova Iorque"
Título de artigo de Joana Amaral Cardoso.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

António Ramos Rosa (1924-2013)


Quando se apaga no punho
a vibração
- quando a mão suspende o gesto
e o silêncio não fala

todo o diálogo se perdeu

- ninguém viu a flor
ou ela está ausente


António Ramos Rosa, in Estou vivo e escrevo sol (pg. 21).