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sexta-feira, 22 de abril de 2011

Cadavre exquis: ora esguardae, estas search words





Vai o título trilingue, para acompanhar o teor do poste. A primeira parte liga-se ao Surrealismo cujas obras colectivas se ordenavam indiferentemente e sem critério lógico, ou racional. A segunda parte do título remete para um romance ("Ora esguardae...") de Olga Gonçalves (1929-2004) que, por sua vez, o foi buscar a uma das Crónicas de Fernão Lopes. É um livro escrito a quente, sobre o 25 de Abril, em que os diálogos parecem de escrita automática, sem preocupações de sequência ordenada e causal. E, tudo isto, porque, nestes últimos dias, têm sido tantos os dislates, no Arpose, entre a burrice googlesca do motor de busca a dar resposta às inconsequentes asnices prolixas das "search words" dos "pesquisadores", que tenho que descarregar algumas para poder anotar outras, em memória futura. Parece que a proximidade da Páscoa provocou um inusitado e acrisolado fervor religioso (IURD ?) sobre pastores... Ora, então, esguardae: 1. disse para o Google o "investigador", "pastor mario viegas de salvador" e, alheio porventura a misticismos, o motor de busca apontou-lhe o poste intitulado "Nos 15 anos da morte de Mário Viegas"; 2. outro escreveu "igor canario cantando louvores a deus", e foi encaminhado para "Giorgio Vasari"(?); 3. um "pesquisador" curioso perguntou: "o que é vênia catecismo", ao que o Google ( farto desta religiosidade, por certo) respondeu, laicamente - "Com a devida vénia, o Sudão...". Seguem-se agora os linhagistas ou visitantes obcecados pela genealogia: 4. diz a visita para o motor de busca: "mister bayer mariana sampaio", e o Google leva-o pela mão até ao poste "Mais gregerías para afastar os coiotes" - esta merecia uma medalha de ouro do Mad Magazine. Finalmente, o 5. o visitante pergunta, meticulosamente: "josé afonso alves da silva maria do carmo da cunha pintor e desenhista", e o motor Google de pesquisa responde: terceira porta à esquerda, poste do Zeca Afonso - "O pintor morreu". Safa! Se André Breton lesse isto, ficava de olhos esbugalhados e, se calhar, destruía toda sua obra, pela qualidade destas "pérolas" magníficas. Felizmente, o surrealista francês também já morreu...

segunda-feira, 29 de março de 2010

Bibliofilia 11 : Cesário Verde




O exemplar que se mostra de "O Livro de Cesário Verde"(1855-1886), sendo uma 4ªedição, não é raro e foi impresso, em Lisboa, em 1919. Mas o seu valor estimativo, para mim, é grande. Tem a particularidade de ter pertencido ao poeta Guilherme de Faria (1907-1929), nascido em Guimarães, ostentando data e marca de posse, manuscrita (1920). O Poeta conheceu e deu-se com Fernando Pessoa que tinha, na sua biblioteca, dois livros com dedicatória, manuscrita, do jovem vimaranense; e, no espólio do autor de "Mensagem", havia apontamentos para fazer o horóscopo de Guilherme de Faria. Teve também relações amistosas com Teixeira de Pascoaes, António Pedro, entre muitas outras figuras literárias da sua época. Na sua curta vida, foi autor prolífico. Estreou-se aos 15 anos, em 1922, com "Poemas". Nos anos seguintes publicou mais quatro livros. Mas não chegou a completar 22 anos. No dia 4 de Janeiro de 1929, vindo de sua casa da Rua da Horta Seca, atravessou o Largo Luis de Camões e desceu a Rua do Alecrim até ao Cais do Sodré. Na estação, comprou o bilhete de ida para Cascais. Aí chegado, escreveu dois postais a explicar ou desculpar-se do que ia fazer e meteu-os na caixa do Correio da Vila. Depois, encaminhou-se para a Marginal e, descalço e rezando por um terço, seguiu até à Boca do Inferno.
De onde se atirou ao mar. Dizem que foi uma história de Paixão. E, como estamos próximos da Páscoa, talvez mereça ter sido lembrada, agora.
Grande parte da biblioteca de Guilherme de Faria ficou para o irmão (mais tarde,Frei) Francisco Leite de Faria, grande estudioso da História do Livro, falecido há poucos anos. Mas este exemplar de "O Livro de Cesário Verde" foi parar às mãos de outro dos vários irmãos, de nome, Miguel de Faria. Que lhe colou o seu ex-libris. O volume tem uma encadernação bonita, em pele, e está bem conservado. Custou-me, nos anos 90 do século passado, e na mesma Rua do Alecrim, por onde Guilherme de Faria desceu, pela última vez e em direcção à Morte, Esc. 2.200$oo, ou seja cerca de euros 11,00. Por isso eu dizia que tinha, para mim, um grande valor estimativo. E há-de acompanhar-me até "sempre".