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quarta-feira, 14 de maio de 2025

Bibliofilia 222

 

Houve um tempo em que foi moda a fotobiografia sobre escritores, depois acabaram por se terem esgotado os fotografáveis merecedores. Esta obra acima, com imagem de capa, de António Nobre (1867-1900), foi editada em Setembro de 2001, com orientação competente de Mário Cláudio (1941). Textos e citações do poeta apropriados, e com um aparato iconográfico notável, bem merece ser recordada aqui, pela sua qualidade.
Ou não fosse Nobre um dos meus poetas portugueses preferidos.

sexta-feira, 21 de março de 2025

Dia Mundial da Poesia



Oportuna lembrança esta que a casa Vicente Leilões promoveu, hoje, para o Dia da Poesia, levando a leilão mais de uma centena de livros de poemas, alguns de grande raridade. Resolvi escolher quatro deles, bem como a sua estimativa de preço, para destacar, neste poste.
Acima, este primeiro livro de Raul Leal (lote 99) que tinha uma base inicial de 120 euros.



A segunda, é a única primeira emissão que eu não tenho e que foi editada em Paris, em 1892, numa tiragem de apenas 250 exemplares, por António Nobre. Mas possuo a edição facsimilada que José Augusto Seabra (1937-2004) mandou fazer pelo centenário da obra, em 1982. A edição original tem uma estimativa de 1.000 euros (lote 112), neste leilão.


Há muito na minha posse, está a edição primeira  de Clepsydra (1920), de Camilo Pessanha. Que, neste leilão (lote 123), tem uma estimativa de 500 euros. Em Outubro de 1994, um exemplar semelhante, muito bem encadernado, custou-me Esc. 20.000$00,  num alfarrabista da rua do Alecrim.



Finalmente o lote 139, de António Diniz da Cruz e Silva, O Hyssope (1802), com local de impressão em Londres mas, na realidade, impresso em Paris, na sua edição original, tem uma estimativa de venda de 50 euros iniciais.






sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Memória 141



A correspondência antiga na sua forma clássica  e formal é, muitas vezes, uma fonte inesgotável de informação e pormenores ligados à realidade. Presente e futuro, pelas circunstâncias conhecidas, não prometem grandes correspondências...
O postal (em imagens), datado de 12/7/1933, foi enviado de Bruxelas pelo diplomata e poeta Alberto d'Oliveira (1873-1940) para a sua filha, Maria d'Oliveira Reis, em Lisboa (rua da Escola Politécnica 195), tendo sido reexpedido (13/7/1933) para o Estoril (Hotel Palácio), onde porventura a dita Senhora passava férias de praia, nessa altura do Verão.
Adquiri o bilhete postal, nos anos 80, na rua do Alecrim, porque na época ia a meio de um pequeno trabalho sobre o poeta António Nobre (1867-1900), de quem Alberto d'Oliveira fora grande amigo. E ambos tinham habitado, enquanto estudantes da universidade de Coimbra, a conhecida Torre de Anto, que Oliveira conservou alugada até 1939. A Torre vem impressa, em jeito de ex-libris, no verso do postal. Na caligrafia, algo críptica de Oliveira, consegui descortinar uma referência ao escritor Carlos Malheiro Dias (1875-1941).


domingo, 13 de junho de 2021

Uma louvável iniciativa 60

 


São inúmeras, até hoje, as edições do , de António Nobre (1867-1900), desde que o poeta, em Paris, resolveu entregar os cuidados da edição original ao editor León Vanier (1847-1896), em Março de 1892. Nobre fê-lo porventura porque o conceituado impressor parisiense era o preferido de Verlaine, bem como de uma boa parte dos simbolistas, decadentistas e modernos: Rimbaud, Laforgue, Mallarmé...
A tiragem do livro foi de 230 exemplares, muitos dos quais oferecidos, mas é hoje caro e raro, quando  aparece à venda em leilões e alfarrabistas.



Não tendo a impressão primeira, à minha conta possuo as seguintes edições: 3ª (1913), muito bonita e ilustrada, a 7ª de 1944, e 11ª (1959). Mas não só. Em 1992, por feliz iniciativa do poeta e diplomata (Unesco) José Augusto Seabra (1937-2004), e com alguns patrocínios, convergindo com o século da publicação da obra-prima de António Nobre, foi editada uma edição fac-similada feita com base no exemplar que fora do autor, pertença do acervo da BPMP. E com as correcções manuscritas de António Nobre. Importante, por isso. Aqui deixo, do meu exemplar, algumas  imagens, para o efeito.


sábado, 6 de abril de 2019

Memória de Belas


De Belas, eu poderia dizer muita coisa, mas vou ater-me ao essencial que me ficou, definitivo. Até porque - pecado meu original - não consigo lembrar-me da primeira vez que lá fui. Mas sou ainda do tempo em que, por Setembro, lá iam estadiar, em quintas frondosas, algumas famílias ricas de Lisboa, até venderem os terrenos para urbanizações selvagens e mais rendosas aos empreiteiros saloios que já tinham destruído a natureza primitiva e singular do Monte Abraão. Onde num Agosto solitário veio a morrer Ruy Belo - acrescente-se - num andar anónimo por entre a floresta de betão, alcantilada.
Depois, vem-me à memória, e em caminho, um chalet derruído, debruçado sobre a ribeira do Jamor, que foi pertença ancestral da família do meu amigo J. N.. Por essas bandas, tive também lições de condução, por dias e dias que me pareceram, na altura, intermináveis e fastidiosos. Adiante.
Agora, há um tempo que por lá não passo. Nem sei se o pitoresco mercado ainda existe ou se a estação de Correios, em cenário antigo de decoração datada, ainda funciona. A modesta pastelaria dos Fofos de Belas é que ainda pode adoçar a boca dos passantes, se por lá pararem, antes de seguirem pela estrada da Idanha ou, em retorno, quiserem voltar a Queluz. Percurso este que me traz afectuosas recordações de um princípio de tarde primaveril...



Por Belas andei, também, em busca de vestígios de António Nobre, para um artigo que foi publicado no nº 8 dos "Cadernos do Tâmega", de Dezembro  de 1992. Um velho barbeiro, ainda em exercício, localizou-me o edifício de um dos hotéis (modestíssimo) onde se hospedara o poeta do , quando, em busca de ares lavados e de saúde para a sua tuberculose terminal, por lá se aboletou. Expulso, devido às hemoptises frequentes, e por causa de outros clientes, viera depois hospedar-se na York House, às Janelas Verdes, em Lisboa.
Da torre antiga dos Coelhos, e do Paço de D. Pedro I, mas que D. Duarte ainda habitou, julgo-a hoje integrada na Quinta do Senhor da Serra que, outrora, era anualmente franqueada ao povo, para uma romaria afamada. Até que os senhores Marqueses de Belas se cansaram da devastação a que os seus campos eram sujeitos sob pretextos religiosos. E do lixo que ficava dos piqueniques populares, nesses domingos de reinação ruana...


Entretanto, a vila ganhou o sossego dos condomínios fechados e o golfe aristocrático dos campos relvados a perder de vista, em zonas reservadas, tornando-se cada vez mais igual a outros espaços, que abundam por aí.
Foi perdendo, aos poucos, o seu encanto primitivo e que eu apreciava tanto.

domingo, 20 de março de 2016

Desconversa de Domingo


Letão é o habitante da Letónia, se dúvidas houvesse, bastaria lembrarmo-nos do título do primeiro livro de Simenon, em que entra Maigret. Quanto à Lituânia, é seguro que é povoada pelos lituanos; mas, em relação ao Burkina Faso, não estou certo. Será que era mais fácil quando o país se chamava Alto Volta?
Ao que parece, Rilke considerava os gatos uma espécie de animais imateriais, pelas suas aparições e desaparições súbitas. No que dizia respeito aos cães era, porém, mais severo. Considerava-os uns bichos híbridos ou, nas suas palavras: "nem homem nem besta: um mestiço lamentável e comovente."
As datas de morte de escritores, quando se nos conscencializam na cabeça trazem-nos (pelo menos, a mim) alguma perplexidade. Saber que Cervantes morreu no mesmo ano que Shakespeare (1616), é estranho. Ou que Eça, Nobre e Oscar Wilde faleceram, os 3, em 1900, pode parecer improvável. Qual nos parece mais antigo? E qual, o mais moderno?

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

De uma carta de António Nobre, sobre os ingleses


Em carta para o amigo Alfredo de Campos, datada de Coimbra e de 3/5/1890, António Nobre (1867-1900) tece, a propósito da leitura do livro "Notes sur l'Angleterre", de Taine, algumas considerações pitorescas sobre os ingleses, de que aqui deixamos uns excertos mais significativos:
"...O melhor organismo da Europa, a Inglaterra. (...) Aquella vida ingleza tão recta, originalissima, que faz corpos como o de Apollo, e fez o maior poeta do Mundo, como é differente da que leva ha um punhado de séculos, a Nossa Senhora da Raça Latina, fazendo blagues, comendo macarroni, correndo toros,... copiando tudo isto! Lê o Taine. Ficas encantado com aquelle paiz: - com a sua ordem e aceio, com os seus lares, com as suas Universidades. O unico  paiz que tem a Linha.Ninguem, lá, é gôche, nenhum anglo sua: d'ahi o singular dominio que mesmo sobre altas creaturas exerce, um simples «squire», com o seu collar de neve, ou um «shake-hands» da sua mão aceiada. Nunca observaste, em Leça, a colonia mediocre da grande Ilha-Fria. Não achas n'esses simples comerciantes, muitos delles estupidos, por certo, e más-Almas, talvez - um Ar, um quê differente dos nossos compatriotas, sempre de côco, ainda com a poeira do «americano», fazendo má figura na Agua, à hora do banho, não tendo firmeza nos pés com que andam, não alevantando mais a cabeça, como quem amargamente scisma que não é quem foi?... Oh! a Renascença..."

domingo, 1 de novembro de 2015

Da leitura (7)


O que nos move a ler um livro? Basicamente, julgo que 3 motivos: o entretenimento, a curiosidade ou um enriquecimento pessoal. Esta última razão aplicar-se-á, sobretudo, a obras temáticas: História, Monografias, Filosofia, Ensaio, Sociologia, etc..
Adolfo Casais Monteiro (1908-1972), na sua introdução a Cartas Inéditas de António Nobre (Edições Presença, 1934), dá o seu contributo para esta questão, em termos específicos. Assim:
"...É certo, porém, que existem espécies diversas de leitores de memórias, diários e correspondências: há, principalmente, aqueles a quem, tam sòmente, a sofreguidão do romanesco conduz; aqueles a quem atrai uma doentia curiosidade bisbilhoteira; e ainda os eruditos, para quem uma qualquer data nua vale tanto como um lance trágico duma vida...;"

sábado, 31 de outubro de 2015

A colheita da manhã


Há muito que eu não via (pelo menos desde o tempo da saudosa Livraria Barateira) um estendal tão numeroso de livros policiais, usados, à venda. Principalmente, das colecções XIS e Vampiro. Foi na feira dos Sábados, na rua Anchieta. Uma banca enorme e coalhada de policiais, a bom preço. Acerquei-me, saquei da minha lista de faltas e comecei a confrontar títulos, autores e números: vieram 10. António Nobre e Borges vieram, também, para completar a dúzia. 


quarta-feira, 29 de julho de 2015

António Nobre caracteriza Lisboa, numa carta de 1894


"... Tu não imaginas quanto Lisboa me entedia e tambem me entristece. É bem uma cidade em funeraes. Por toda a parte cautelleiros, capilé, empregados publicos, e carros do Jacinto... E depois que cheiro a secretaria, que nem a maresia do Tejo consegue disfarçar. ..."

A. Nobre (1867-1900), em carta a Vasco da Rocha e Castro (Revista de Portugal, Outubro de 1938)

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Leilão de Outono


Sob a direcção de Pedro de Azevedo, inicia-se a nova temporada de leilões de livros. Como habitualmente, esta almoeda terá lugar no Amazónia Lisboa Hotel, no próximo dia 6 de Outubro de 2014, pelas 19h30.
A sua importância decorre de virem a ser leiloadas obras que pertenceram à biblioteca de Carolina Michaelis e seu marido, Joaquim de Vasconcelos. Do acervo, e pessoalmente, eu destacaria os seguintes lotes:
146 - Frei Luiz de Sousa, de Almeida Garrett, na sua edição primeira de 1844, com uma estimativa de venda de 200/ 300 euros.
217 - Poesias, de Sá de Miranda, edição de Halle, 1885. Exemplar de trabalho, com anotações manuscritas de Carolina Michaelis. Com preço previsto de venda entre 800,00 e 1.200,00 euros.
230 - Só, de António Nobre, na sua edição original de 1892, impressa em Paris. O livro tem dedicatória manuscrita do Poeta, para António Cândido. Tendo uma estimativa de venda de 1.200/ 1.800 euros.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Leilão em Março


Mais um importante leilão de livros (e manuscritos, postais, moedas...) a realizar entre 13 e 18 de Março, no Palácio da Independência, promovido por José Manuel Rodrigues (Livraria Antiquária do Calhariz). De destacar um boa queiroziana e uma camiliana extensa, bem como a obra de Miguel Torga, em primeiras edições. O lote 1048 corresponde à 1ª edição de (Paris, 1892), de António Nobre, com uma estimativa de venda entre 3.000 e 5.000 euros. Não menos interessante, a edição original de O Livro de Cesário Verde (1887), no seu exemplar nº 5 (de 200), que foi pertença de Columbano Bordalo Pinheiro. E com valor de venda previsto (lote 1586) de 2.000/ 4.000 euros.
Muito mais haveria a referir, mas fiquemo-nos por aqui, hoje.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Bibliofilia 94


A tarefa morosa de rearrumar livros - para quem tenha muitos, sobretudo - traz algumas surpresas e compensações generosas. Foi o caso de um livro de Paul Fort (1872-1960), poeta simbolista francês, que redescobri ontem, numa prateleira e em segunda fila, recuada, e de que já não me lembrava. Terá sido comprado nos anos 80, em Lisboa, por Esc. 200$00.
De uma tiragem de 1.300 exemplares, L'Arbre A Poèmes, com 75 (o meu tem o número 69) em edição numerada e em papel especial, tem dedicatória ao poeta português Alberto de Oliveira (1873-1940), grande amigo que foi de António Nobre. É da edição primeira e original e foi publicado no ano de 1922, em Paris.
Em rápida pesquisa por alfarrabistas, na Net, encontrei mais dois exemplares à venda, ambos em França. Um, por 56,63 dólares e outro por 134,50, mas da tiragem normal e sem dedicatórias.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O francês e a sua perda de influência


Do século XVII e até à primeira metade do século XX, o francês era, por excelência, a língua usada na diplomacia, como língua franca entre os diplomatas dos diversos países. Mas não só, e, em Portugal, era o segundo idioma, a partir do séc. XVIII, falado pelas famílias de mais posses e pelas elites cultas do país. Em Coimbra, Alberto de Oliveira, grande amigo de António Nobre, comprava, no próprio ano de saída, as obras poéticas de Verlaine, vindas de França.
E sempre foi assim, quase até aos anos 80 do século passado, quando, inexplicavelmente, a sua influência começou a declinar, ano após ano. O inglês(-americano) absorveu, por inteiro, o espaço criado. Hoje em dia, são raros os portugueses, com menos de 40 anos, que saibam falar e ler francês.
Deixo, por curiosidade e em imagem, um livro do poeta francês Guilevic, saído em 1949, que Alexandre O'Neill terá lido em 1953, pela sua marca de posse, manuscrita. E que faz parte da minha biblioteca, desde Julho de 2008. Comprado num alfarrabista de Lisboa, o livro foi baratíssimo, porque os livreiros, nos nossos dias, têm já alguma dificuldade em vender livros em francês, usados. E põem-nos, frequentemente, a baixo preço.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Divagações 47


Nem todos os poetas, quando publicam livros, datam os seus poemas. António Nobre fazia-o normalmente, Jorge de Sena, algumas vezes. Eugénio de Andrade, muito raramente.
Dentro de cada livro, nem sempre a arrumação dos poemas segue a ordem cronológica, mas uma orientação pessoal, estética e de gosto do autor. Um crescendo, uma evolução interior que, porventura, nada tem a ver com o Tempo. Será isto um pormenor despiciendo para o leitor comum, mas para um crítico literário, um investigador, a datação dos poemas permitirá observar melhor a evolução do autor e, muitas vezes, cotejando a biografia, situar, talvez, a razão do poema ou a origem do acto criador. E, por aí, descortinar  melhor aspectos da sensibilidade e susceptibilidade do Poeta, em relação ao real.
O poema, em imagem, é de Jorge de Sena. Está incluído em "Visão Perpétua", e já foi aqui referido.

domingo, 24 de março de 2013

A palavra e a cor "lazúli"


Pouco tempo depois de colocar o poste anterior, perguntei-me: donde virá a palavra lazúli?
Lembro-me, perfeitamente, que a primeira vez que deparei com ela - teria 11 ou 12 anos - foi num soneto de António Nobre (Na praia lá da Boa Nova, um dia,/ Edifiquei (foi esse o grande mal)/ Alto Castelo, o que é a fantasia,/ Todo de lápis-lazúli e coral! ...).
Cerca de seis ou sete anos, mais tarde, ao frequentar a cadeira de História de Arte, orientada pelo saudoso Prof. Mário Chicó, a palavra surgiu novamente. A propósito da Igreja de S. Roque, em Lisboa, onde D. João V fez construir a capela de S. João Baptista, do lado esquerdo do altar-mor, com materiais, maioritariamente, vindos de Itália: alabastro, mármore de Carrara e lápis-lazúli. A capela, em si, é excessivamente barroca, para o meu gosto. Mas vale muito a pena conhecê-la.
Concretamente, esta pedra fina e bonita chama-se lazulite. Tem uma cor azul-violeta, com brilho vítreo.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Descubra as diferenças!


Há dias em que o mais improvável pode acontecer. Então , não é que leio, no jornal de hoje que, numa assembleia geral do Sporting C. de P., em Alvalade, o psiquiatra dr. Daniel Sampaio, para o efeito e na altura, vice-presidente da assembleia geral (AG), não só foi insultado, como também foi atingido por ovos, ontem...
Depois, há aquelas inusitadas search words mirabolantes que aqui chegam. Imagine-se que um cibernauta lança, como pista de pesquisa, a seguinte charada: "eu votico tico shacha" (sic) - será que a culpa é do A. O.? Mas o Google não se perturbou, e deu-lhe como chave do enigma o poste, aqui do Blogue: "O sistema iníquo, os cartéis e a lâmpada eléctrica", de 9/6/2011.
Mas, para mim, o mais insólito, foi o luso (ou lusa) cibernauta ter lançado ao motor de busca, como repto e base de pesquisa: "imagens salsichas nobre com 7"; e o Google lhe ter indicado, pressuroso e cultural: poste "Bibliofilia 45 : o «Só», de António Nobre", aqui colocado em 18/4/2011. Não lembraria ao diabo...

quinta-feira, 8 de março de 2012

O'Neill sobre Nobre



Respigo, de "Coração Acordeão" (2004), algumas considerações e influência de António Nobre sobre poetas portugueses, referidas por Alexandre O'Neill, no seu habitual bom humor:
"Pode dizer-se que António Nobre inaugura na poesia portuguesa certa «conversa» ainda muito actual. Pode dizer-se que, a este nível, é mais moderno que Cesário. (...)
O Nobre influenciou todos nós. Até o Boi da Paciência do Ramos Rosa é Nobre, só que lavra papel costaneiro em vez de terra friável. Até o Herbert Hélder é Nobre, com a sua anarcolírica. Até a Sophia é Nobre, com quinta no mar e charrete puxada a gaivotas. Até o Eugénio é Nobre, assim tão só! E se calhar não será Nobre o Cesariny, tão lusitânia no Bairro latino? E o Melo e Castro? Que Nobre! E o Egito Gonçalves, tão neo-Nobre? E o Carlos de Oliveira?
Todos somos Nobres, menos um: Gomes Ferreira, que é Junqueiro (Pátria) - ou será Raul Brandão, o remorso que sobrou do remorso de Raul Brandão? (...)"

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O 31 de Janeiro, num soneto de António Nobre



A história é breve. Por uma feliz coincidência, em finais dos anos 80, apercebi-me do paralelismo entre uma carta de António Nobre, enviada a Alberto de Oliveira, e o soneto 12 da segunda edição do "Só". A carta foi escrita em Paris, a 2 de Fevereiro de 1891, e o soneto viria a ser escrito mais tarde, em Colónia, em Novembro do mesmo ano. Transcrevo a parte mais importante da carta que revela, de algum modo, as raízes do futuro soneto: "...Alberto, manda-me notícias! Jornais aos montes, recheados de tipo normando, crivados de pormenores, com a cópia de quantos telegramas têm nestes dias atravessado os fios de arame que eu vejo além, meu Deus! sob um lindo céu cheio de sol, atacadinhos de pardais de todo alheados do "pronunciamento", nem por isso lhe oscilando as patas sobre as palavras - Revolução! 30 mortos! 100 feridos!... - que passam. ..."
António Nobre queria saber notícias do 31 de Janeiro (1891), no Porto, onde teriam entrado os seus amigos Basílio Teles e Sampaio Bruno. O soneto foi feito, já a frio e mais tarde, na Alemanha, mas tem imagens que aproveitou desta carta. Vai o poema, para cotejo,  reproduzido da edição do "Só", fac-similada (da edição corrigida por Nobre), promovida por José Augusto Seabra, em Paris, para celebração do centenário (1992) da publicação do livro. 

Nota pessoal: o tema desta minha feliz descoberta foi tratado, desenvolvidamente, e publicado em "Cadernos do Tâmega", nº 8, de Dezembro de 1992.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Mário Dionísio


Pouca gente deverá saber que, para obter a sua licenciatura, Mário Dionísio (1916-1993) teve que apresentar 2 teses, a exame. Da primeira vez (1938), abordou Fernando Pessoa: "Introdução à leitura da Ode Marítima" - a estreia, em Portugal, como tese, de um trabalho sobre o autor de "Mensagem". Mas o júri, que integrava Agostinho de Campos (a quem, com graça, António Nobre apelidava de: Dona Agostinha - segundo conta Jorge de Sena), acabou por chumbar Mário Dionísio. Cerca de um ano depois, o Escritor apresenta uma segunda tese, desta vez sobre Érico Veríssimo, intitulada "Um Romancista Brasileiro", e desta vez ficou aprovado. Mário Dionísio foi, pouco depois do 25 de Abril de 1974, professor universitário, regendo a cadeira de Técnicas de Expressão de Português. Ironias do tempo...