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quarta-feira, 3 de julho de 2019

De um manuscrito dos reservados da BGUC


Dos vários cartapácios, que consultei, há dias, na secção dos Reservados da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, encontrava-se uma miscelânea manuscrita, muito provavelmente do século XVIII. Constituída sobretudo por poesias, algumas atribuídas, outras não. De Gregório de Matos, alcunhado de Boca do Inferno pela sua língua desbragada, de António Lobo de Carvalho, poeta vimaranense, que migrou para Lisboa e pela sua morada lhe chamavam o Lobo da Madragoa. Bem como alguns poemas de um tal Francisco Pereira de Viveiros de quem, até agora, nada consegui saber. É dele a poesia cujo início reproduzo em imagem, em que ele fala de uma Maricas, porventura incontinente e pouco discreta nas suas manifestações...

domingo, 21 de maio de 2017

Bibliofilia 153


Os manuscritos têm quase sempre o seu lado interessante e curioso, quando não de mistério insolúvel. Não sendo eu especialista na matéria, os poucos que tenho, na minha biblioteca, proporcionaram-me, no entanto, horas aprazíveis de concentração e entretenimento, depois de os adquirir. Na decifração dos textos e diferenças em relação aos eventuais originais (impressos em livro), na tentativa (por vezes, inglória) de identificação dos autores, na interpretação de pequenas notas também escritas à mão, quando existem, nas margens de páginas envelhecidas e devotadas à perpetuação no tempo, feitas por escribas dedicados e anónimos.

Este manuscrito de 36 páginas inumeradas, que ora se apresenta, tê-lo-ei comprado em finais do século XX, num alfarrabista de Lisboa, mas já não me recordo de quanto paguei por ele. Por várias circunstâncias e indícios, sou levado a crer que deve ter sido escrito na segunda metade do século XVIII, sem grande margem de erro. Desencadernado, provavelmente terá integrado uma miscelânea mais volumosa. Em mediocres condições de conservação, apesar do papel ter marca de água e ser encorpado, ao seu corpo íntegro deverão faltar, pelo menos, as duas folhas iniciais.



O conjunto manuscrito contém obras poéticas (vários sonetos, por exemplo) do vimaranense António Lobo de Carvalho (1730?-1787), poeta boémio e fescenino já referido aqui no Arpose (postes de 14/7/2010 e de 26/10/2011), conhecido pela alcunha de Lobo da Madragoa, bem como quintilhas e outros poemas de Nicolau Tolentino de Almeida (1740-1811). O teor das composições é, maioritariamente, satírico. De algumas outras poesias não consegui identificar os seus autores, e é possível que se trate de escritores menores e/ou ignorados, que não chegaram a ter as suas poesias publicadas. Dá-se, finalmente, a transcrição de um soneto (talvez inédito) dirigido a Alexo Botelho, cujo autor desconheço (A. Lobo de Carvalho?), actualizando a sua ortografia:

Ginja peralta falador Botelho
Potro infeliz que segues as belezas
Não te embasbaquem ainda as gentilezas
Porque amor não faz ninho em tronco velho.

Não de escritos dá-lhe um bom conselho
Não têm preço com rugas as finezas
E se este que te dou néscio dispensas
Tira a peruca, vê-te a um espelho.

Verás polvilhada uma caveira
Em que os ossos nos mostram claramente
Entre caruncho uma alma galhofeira.

Casquilho de um vestido unicamente
Ai se o Manique sabe desta asneira
Prega-te no castelo certamente.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Um poeta satírico vimaranense



É uma bonita edição, esta de 1904, com 40 gravuras, que Alberto Pimentel dedicou a efabular a vida do poeta vimaranense António Lobo de Carvalho que nasceu por volta de 1730 e veio a morrer em Lisboa, a 26 de Outubro de 1787. Chamavam-lhe o "Lobo da Madragoa", por lá viver, e Castilho disse dele: "... o Lobo / sem capa, bolsa, ou lar, mordendo em todos."
Para o lembrar aqui fica um soneto e uma décima, não tão "contundentes" como grande parte da sua obra.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Os cornos da Lua

Tenho para mim que, de algum modo, a poesia satírica, no séc. XVIII português, é bem mais conseguida do que a poesia lírica, em qualidade. Estou a pensar, sobretudo, em Jazente, Cruz e Silva, Tolentino, Bocage, António Lobo de Carvalho...
Vem isto a propósito dum soneto, manuscrito (Ms. 8582, pg. 156, da BNP), ridicularizando o poeta Alvarenga Peixoto (1744?-1793), por este ter usado, num soneto, o verso: "Por mais que os alvos cornos curve a Lua". O soneto satírico, de autor desconhecido, é o seguinte:

Certo aldeão de Sintra se apeava
Do jumento, e a beber o conduzia;
Bebeu o burro, e à volta pretendia
Montar no dono, e nisto porfiava.

- Burro atrevido, - o aldeão gritava -
Donde te veio a ti tanta ousadia?
- Tenho alma como tu, e não sabia
Que espírito tão nobre me animava!

- Tu tens alma, ó burro? Mais preclaro
És entre os burros. - Não é como a tua,
Imortal, mas meu juízo é claro.

- Quem te deu pois ou te emprestou a sua?
- Quem foi? : aquele espírito tão raro
O grão Doutor que cornos deu à Lua. 

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Bibliofilia 22 : um poeta pouco recomendável...



De António Lobo de Carvalho (1730-1787), poeta de origem vimaranense, sabe-se pouco. Seria bacharel em Direito e viveu grande parte da sua vida em Lisboa, onde era conhecido por Lobo da Madragoa, por lá viver. Era grande amigo de João Xavier de Matos. Os seus poemas, em grande parte, são fesceninos ou mordazes. Alberto Pimentel romanceou-lhe a vida no livro "O Lobo da Madragôa" (1904) que se lê sem fastio.
As suas obras saíram, postumamente, em 1852 ("Poesias Joviaes e Satyricas"), de forma quase clandestina pelo seu conteúdo, e com falso lugar de impressão - Cadix. Na verdade, terão sido impressas em Lisboa. O livro tem prefácio e uns "Apontamentos para a Biographia do Auctor", mas não refere quem os escreveu. O volume é muito raro aparecer à venda. O meu exemplar, encadernado e em razoável estado, foi comprado em Lisboa, em meados dos anos 80, por Esc. 2.500$00 (cca. euros 12,50). Em Outubro/Novembro de 1989, num leilão da Soares & Mendonça (lote 2166), um volume semelhante ao meu vendeu-se por Esc. 17.000$00.
Nota: já depois de colocado este poste, tive oportunidade de confirmar que o prefácio do livro acima referido se deve a Inocêncio Francisco da Silva. O que indicia que, possivelmente, os apontamentos biográficos e a edição do livro se lhe devem, também.