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quinta-feira, 5 de março de 2026

António Lobo Antunes (1942-2026)

 

Não sendo um autor da minha eleição, não quero deixar de assinalar o desaparecimento de um dos poucos grandes criadores de ficção (e crónicas) deste nosso tempo, tão escasso em valores literários credíveis. 

quinta-feira, 30 de maio de 2024

Poucos os escolhidos



São raros os artistas portugueses a merecerem destaque ou recensão crítica nas páginas de  Le Monde des Livres. Estou a lembrar-me dos escritores contemporâneos Mário de Carvalho, Mia Couto, J. E.  Agualusa e pouco mais. Por isso é de dar notícia que o livro "L'Autre Rive de la mer" (A outra margem do mar, 2019), de António Lobo Antunes (1942), mereceu uma recensão positiva (em que até o Nobel é aflorado...) de Florence Noiville, no suplemento literário do jornal francês de 10/5/2024.

terça-feira, 9 de agosto de 2022

Dar notícia



Não sendo dos meus escritores portugueses preferidos, há que referir que o jornal Le Monde (1/7/22) dedicou uma página inteira ao lançamento do último livro de A. Lobo Antunes (1942), em tradução francesa, de La Dernière Porte avant la Nuit, em versão de Dominique Nédellec. A recensão crítica ao romance, de Florence Noiville, é francamente favorável ao romancista português.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Rearrumações


Camilo mudou de sítio e a Revista de Guimarães ganhou região autónoma, na nova estante do átrio. No entretanto, não consegui descobrir os dois primeiros Lobo Antunes, que ainda li, e não mais comprei. No local certo, das antigas estantes, não os encontro. Reapareceram-me, no entanto, obras esquecidas, como uns contos de Tchekhov (1860-1904), editados pela Atlântida (Coimbra, 1962), que agora ando a ler (ou reler?) com gosto e devagar, embora sejam bem pequenas as narrativas.
As novas estantes, milagrosas, não estão ainda cheias, mas olho, com algum desconsolo, para a secretária onde repousa uma parafernália de coisas e restos soltos que tenho dificuldade em voltar a arrumar em sítios convenientes. E que também não consigo imaginar-me a pôr no lixo...

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

A democratização da glória


O nosso tempo está carregado de pressa e sofreguidão. Não se compadece com as minudências do rigor nem com o olhar desapaixonado da distância. A reflexão ponderada, para muitos, é pura perda de tempo e uma inutilidade dispensável.
E a própria e prestigiada colecção La Pléiade, da Gallimard, começa a parecer-se, cada vez mais, com os panteões e os nóbeis, que entraram num processo acelerado de banalização democrática.
O escritor português António Lobo Antunes (1942) vai integrar, também, La Pléiade. Não sei se fico contente... Mas, pelo menos, Fernando Pessoa não ficará sozinho, nas estantes da Gallimard, a falar com os seus botões ou com os seus heterónimos, em português. E Pessoa merece tudo. Mesmo as más companhias.

terça-feira, 10 de julho de 2018

A propósito do cinquentenário do Booker Prize Award


Com o patrocínio edipiano de Freud, em literatura, há muitos jovens aspirantes a escritores que, para  tentarem ganhar notoriedade, atacam os consagrados. Lembro-me, por cá, de Lobo Antunes escrever uns dislates sobre Vergílio Ferreira, que era uma espécie de monstro sagrado, com uma reputação literária à prova de bala, na altura. Creio que o escritor de Aparição não se incomodou muito com os dichotes juvenis...
Mas também acontece que alguns escritores, no outono da vida e com a sua vida literária já feita, não tendo já nada a perder, resolvem dizer umas verdades cruas sobre a obra de seus confrades, que foram calando anteriormente, talvez por amabilidade e diplomacia, ou por não se sentirem com audição credível suficiente para serem ouvidos. Os exemplos são inúmeros, nas repúblicas das letras...
Na Grã-Bretanha, talvez o mais importante galardão literário de ficção seja o Booker Prize Award que, presentemente, representa um prémio de 50.000 libras, e que é atribuido anualmente a uma obra de ficção escrita e editada em língua inglesa, desde 1969. E que pode contemplar escritores da Commonwealth, como foram os casos de Nadine Gordimer, Salman Rushdie ou Coetzee, este, por duas vezes.
O TLS (nº 6014), pela passagem do cinquentenário do Booker Prize Award, pediu depoimentos a anteriores galardoados, sobre o valor de escritores e confrades, quer tivessem sido premiados ou não. V. S. Naipaul (1932), que recebeu o prémio em 1971, começa o seu texto (a tradução é minha) assim:
Jane Austen é pura coscuvilhice. Ela atingiu proeminência, porque escreveu numa altura em que o Império Britânico tinha atingido os píncaros do seu poder. Se ela tivesse sido uma escritora croata, ninguém teria dado por ela. A sua obra é sentimental, provinciana e confinada ao reduzido espectro duma sociedade inglesa rural.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Os capatazes dos jornalecos


Um director barbado de gauche, dissimulador, dum dos jornais portugueses de referência, que já atribuiu a Lobo Antunes um verso que era de Sá de Miranda, tem, como se poderá imaginar, uma memória muito curta. E não guarda, ao que parece, muito respeito ao PR piador e penúltimo. Há dias, até lhe desfechou uma frechada, para disfarçar. Mas tenta fazer-se esquecer de assessor, que foi, venerador e obrigado de tal criatura - deus lhe pague!
Hoje, afirma no seu couto privado: O futebol entra a pés juntos sobre a democracia - em palavras atiladas de virgem ofendida. Como se fosse a primeira vez que isto acontece... Será que, com aquele sorriso de yuppy serôdio, ele não se atirou, também, de mergulho, da prancha carunchosa do cavaquismo, para a piscina voluptuosa e mirífica das grandes superfícies tablóides? Porque, valha a verdade, o Público já foi outra coisa, em tempos mais limpos e remotos...

sábado, 8 de julho de 2017

O seu a seu dono


Eu bem sei que os actuais directores de jornais são muito diferentes dos antigos. Que tinham, normalmente, uma cultura sólida, escreviam bem e eram competentes. Hoje, estes sujeitos são muito mais ligeiros, muito voluntaristas e simpáticos, pouco lidos e, decerto, confiantes na estupidez e ignorância dos leitores. No Público, e depois de Vicente Jorge Silva, digno representante da classe de jornalistas, tem sido sempre a descer, impiedosamente...
Atribuir a Lobo Antunes, por título de crónica ou editorial (viva o luxo!), um verso de Sá de Miranda, é um dislate. Literário, mas dislate. Mesmo que seja para alardear cultura, alarvemente, e a propósito de incêndios. Até já Gastão Cruz  tinha epigrafado o verso, em itálico, num soneto, em livro de 1969 (As Aves), referindo o Autor. Porque o romance de A. Lobo Antunes, com esse título, plagiado, saíu apenas em 2001. Mas estes directores de jornais são uns neófitos ainda imberbes, quanto a literatura pátria. Lembram-se de ontem, mal e de outiva, unicamente. Resultado dos programas escolares dos últimos anos? Não sei.
Porque ainda há poucos dias, também, um provecto e reformado amador de letras pátrias proclamava, pomposamente, Adolescente (1942) como sendo o primeiro livro de Eugénio de Andrade. Não é, é Narciso (1940) que, tal como a sua terceira obra (Pureza, 1945), o Poeta viria a renegar, anos mais tarde. Por isso, quanto a jornalistas, sejam eles directores ou aposentados críticos literários, hoje, estamos conversados. E o problema é que estas asneiras deixam rasto e fazem carreira. E vão sendo repetidas pelos ignorantes e distraidos, numa ladainha servil e acarneirada. Deus nos valha!...

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

2 achegas para a bibliografia de E. de A.


Não serão obras muito frequentes em território nacional, uma vez que ambos os livros se destinaram a um público leitor estrangeiro. O primeiro voluminho (5 Poemas...), da Campo das Letras, de 1997, foi editado com o objectivo de ser distribuído na Feira do Livro de Frankfurt, e tem uma introdução breve de Arnaldo Saraiva, para apresentar a obra poética de Eugénio de Andrade (1923-2005). Nesse ano, recorde-se, Portugal foi o País-Tema, ou convidado. O segundo livro, editado em 2001, por L'Escampette, é uma tradução de Os Lugares do Lume (1998), efectuada por Michel Chandaigne. E tem um interessante prefácio de António Lobo Antunes, intitulado Bonjour, Eugénio.
Ambos os volumes foram adquiridos, ontem, no meu alfarrabista de referência, por preço módico.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Para uma melhor caracterização das personagens


Com a habitual lucidez que o caracteriza, António Guerreiro, na revista ípsilon, do jornal Público de hoje, comenta, na sua crónica O escritor e o seu duplo, a última entrevista de António Lobo Antunes, dada à jornalista Isabel Lucas, na mesma revista e na semana passada. Dêmos-lhe a palavra, através dum pequeno excerto, que me parece significativo:

"O discurso de António Lobo Antunes obriga-nos a uma metódica suspeita: lido em primeiro grau, em que o pressuposto é o de que ele acredita nas suas próprias palavras e se situa num registo de verdade, teríamos o mais ingénuo dos escritores; lido em segundo grau, em que o pressuposto é o da distância em relação às suas próprias palavras, teríamos o mais teatral e parodiante dos escritores, quando sobe ao palco das entrevistas. A segunda hipótese é muito mais interessante do que a primeira, e a mais verosímil. ..."

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Um encontro : George Steiner / António Lobo Antunes


O vídeo, que ora coloquei, é longo - cerca de 1h15. Mas bem interessante. No Youtube, teria tido, até ao momento, 1.905 visitantes. Será para se ir vendo e ouvindo - como farei - à medida do tempo, vontade e disponibilidade... Mas aqui fica, porque eu não queria perder este documento humano importante.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Tudo e coisa nenhuma


Acontece que, ontem e por mero acaso, em cerca de uma hora de leitura se me acasalaram, no tempo e local, cerca de 15 páginas do romance (?) de um bento plumitivo luso, mas recente ave de arribação islandesa, que nidifica nas Caxinas, e um diálogo soberbo entre António Lobo Antunes e George Steiner, em Cambridge, acontecido em 2011, creio. Entre a vacuidade da noveleta provinciana paupérrima, de que nada restou na minha memória, e o frutuoso diálogo entre os dois pensantes humanos, que marcou e irradiou para o meu dia, há a diferença entre o tudo e a coisa nenhuma. Aqui dou uma pequena amostra, possível, da leitura desse diálogo:
" (...)
G. S. - Mas o poema, podemo-lo aprender de cor. É isso.
A. L. A. - É isso.
G. S. - E aquilo que aprendemos de cor, com o coração e não com o cérebro...
A. L. A. - Isso, saber de cor.
G. S. - É uma expressão importante, de cor. Porque aprender prosa de cor é difícil. Mas poesia, um poema, é possível, e levámo-lo connosco. É esta a bagagem essencial da alma, a pequena mala que levamos connosco, o poema. (...)"

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Destaque


Não faço questão de me congratular, mesmo que o autor não seja da minha eleição. Por isso anote-se, aqui, uma crítica muito favorável à obra de Lobo Antunes, "La Nébuleuse de l'Insomnie" (O Arquipélago da Insónia), traduzida para o francês por Dominique Nédellec.
A recensão vem em "Le Monde" de 29/6/12 e, embora não use da parcimónia objectiva das críticas inglesas, aqui vai um excerto do elogio barroco de Macha Séry: "... (Lobo Antunes) dá numa língua sensorial e numa espessura memorial dimensão aos pesadelos. No mesmo sopro, faz palpitar as palavras e as emoções, cerzindo-as em som e furor."

sábado, 16 de junho de 2012

Hegel, Bergson, o suicídio e George Steiner


"Hegel, que podia ser muito mau, como todos os grandes pensadores, tinha a seguinte piada: «Porque é que o judeu nunca se mata? Porque quer ler o jornal do dia seguinte.» No fundo, isto é muito profundo. Já passei por momentos, como todo o ser humano, de terrível depressão: o sentido da mediocridade, a grande decepção - queria ter sido como você, escritor, e não um crítico, não um professor. Vivi momentos muito negros, mas, de facto, sempre quis ler o jornal do dia. Sou um apaixonado pela realidade, pelo movimento da realidade, pelo élan, como dizia Bergson, o élan da duração. Ora matar-se significa nunca mais ler o jornal. E isso é muito..."
George Steiner em conversa com Lobo Antunes, in Revista Ler (nº 107, Novembro 2011).

terça-feira, 20 de julho de 2010

Dylan Thomas, em sequência (II)


Dylan Marlais Thomas (1914-1953), galês, cuja poesia foi sempre escrita em inglês, é ainda hoje um poeta que divide a opinião dos críticos literários. Uns consideram-no um dos melhores poetas do séc. XX inglês, outros acham-no excessivamente retórico e demasiado popular.
Certo é que Igor Stravinsky compôs o "In Memoriam of D. T.", Donovan e John Cale o cantaram e, mais recentemente, em 2000, António Lobo Antunes publicou um livro cujo título sugere, de imediato, (apesar da ligeira mudança de algumas palavras) o início de um dos mais célebres poemas de Dylan Thomas - "Não entres tão depressa nessa noite escura". É precisamente esse poema que iremos traduzir, desse galês de vida excessiva que morreu aos 39 anos, em Nova Iorque.
No poema, sem título, Dylan Thomas incita o pai, octogenário, frágil e quase cego (mas que fora um homem robusto e forte), a resistir, com raiva, à morte - lutando, como fizera toda a sua vida. O poeta utilizou, na composição, a forma "villanelle", frequente em França, no séc. XVI, e que tem um esquema rimático simples. Seis estrofes, cinco das quais são tercetos com rima "aba"; a sexta e última estrofe, uma quadra, com a rima: "abaa". Na tradução, que se segue, não respeitei esse esquema rimático, tentando, no entanto, trair o menos possível o espírito do poema.

Não vás p'la noite mansa, assim, tão complacente,
A velhice deveria arder com raiva até ao fim do dia;
Raiva, raiva contra a luz que vai morrendo.

Embora os sensatos saibam que a treva os espera,
Porque as suas palavras já não têm o fulgor de outrora
Não vás p'la noite mansa, assim, tão complacente.

Homens bons, submersos na última vaga, invocando
As suas débeis façanhas que ondulam na verde baía,
Raiva, raiva contra a luz que vai morrendo.

Homens rudes que prenderam o sol e o cantaram no seu voo
E aprenderam, tão tarde, como lhe ofenderam o destino,
Não vás p'la noite mansa, assim, tão complacente.

Homens sérios, perto da morte, que vêem no olhar turvo
Da cegueira como podem arder, meteoros, e ser felizes,
Raiva, raiva contra a luz que vai morrendo.

E tu, meu pai, aí nas tristes alturas, amaldiçoa,
E abençoa-me agora com as tuas lágrimas ardentes, peço-te.
Não vás p'la noite mansa, assim, tão complacente.
Raiva, raiva contra a luz que vai morrendo.