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terça-feira, 22 de março de 2022

Ideias fixas 67


A exiguidade de reacções, na blogosfera, ao desaparecimento de António Osório (1933-2021) e, mais recentemente, de Gastão Cruz (1941-2022), demostram à exaustão o desinteresse (ou crassa ignorância)  dos blogonautas pela poesia. Apesar dos protestos de amor que fingem encenar, de bom tom, por alguns poetas... 

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

António Osório (1933-2021)



O Canto do Cisne 

Nunca o ouvi.
Que seja inextinguível.
Ou então silencioso
por pudor ou tremendo
de raiva.
E que dure o bastante
para que nada fique por cantar.


António Osório, in A Luz Fraterna (2009).

domingo, 20 de agosto de 2017

Últimas aquisições


Em pleno Agosto, mais dois livros: um do discreto poeta bissexto Luís Amaro (1935) e outro do também poeta António Osório (1933), ilustre advogado de profissão, com uma espécie de memórias mescladas de poesias e sua explicação, cuja leitura me foi decepcionante ... Veremos Luís Amaro.
Comprei os dois livros em muito bom estado e usados, naturalmente, mas ambos com dedicatórias a uma mesma senhora...


segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

António Osório


Os Calceteiros

Escrevem na rua:
juntam
cuidadosamente
palavras.

Pegam-lhes
sílaba a sílaba,
escolhem, unem,
completam,
tocam
ao de leve por cima
e continuam.

Com o maço
e o suor
assinam.

António Osório (1933), in A Ignorância da Morte (1978).

domingo, 8 de maio de 2011

Miguel Lupi


Só depois dos 30 anos, Miguel Ângelo Lupi, nascido a 8 de Maio de 1826, conseguiu ter oportunidade para estudar Pintura, que era a sua vocação natural. Filho de pai italiano e mãe portuguesa, foi em Itália também, através de uma Bolsa, que se pôde aperfeiçoar na sua Arte preferida. Não será muito conhecido, hoje, mas tem obra vasta, é um pintor estimável embora, predominantemente, retratista de figuras importantes do séc. XIX português. E está bem representado no Museu do Chiado, existindo também, no Tribunal de Contas, um retrato de D. Pedro V, de sua autoria. Lupi faleceu em Fevereiro de 1883. Retratou, entre outros, Alfredo Keil, D. Fernando II e o poeta Bulhão Pato. Uma sua neta, Maria Valupi (pseudónimo de Maria Dulce Lupi Cohen Osório de Castro, 1905-1977), poetisa que se correspondeu com Cecília Meireles, era tia, por afinidade, de António Osório (1933). Possivelmente, por isso, o poeta dedicou a Miguel Lupi o poema (do livro "Ignorância da Morte", 1963) que se transcreve a seguir:
Salmo à pasta de desenhos de Miguel Ângelo Lupi
A cor das lágrimas
procuro na tua pasta de desenhos.
Retiro os papéis de seda, pardos já de rola,
por ti dobrados, e toco nas tuas mãos,
escaldam, comovem.
Apenas eu pronuncio esse nome
como teu pai, com nostalgia de Itália, te chamava.
A pintura não tem a cor das lágrimas
nem do exílio ou desaparição,
e à poesia falta a palavra que sobreleve o abismo.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Poesia, no dia d' Ela


Quando sinto de noite
o teu calor dormente
e devagar
para que não despertes
digo: cedro azul,
terra vegetal,
ou só
amor, amor;
quando te acaricio
e devagar
para que não despertes
tomo na mão direita
as duas fontes, iguais, da vida,
procuro a nascente
e adormeço
nela essa mão depositando.

António Osório (1933), in O Lugar do Amor (pg.17),1981.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Memória 38 : Camilo Pessanha


O desejo de aniquilamento ou, com mais rigor, de apagamento, é uma das matrizes mais constantes da poesia de Camilo Pessanha (1867-1926). Já o gravara, em epígrafe, no início de "Clepsidra": "...No chão sumir-se como faz um verme..." Não sei se essa vontade parte da desesperança de um amor desencontrado por uma ascendente do poeta António Osório, ou se, com o próprio ópio - de que usava e abusava -, era apenas uma expressão exterior que correspondia a um desejo mais profundo, a uma acédia (vide: Cioran e Fernando Pinto de Amaral), que já crescera com ele. Que sabemos nós dos poetas e dos homens? Que lemos, quando lemos os poetas, senão a nós mesmos, também? Procurando, talvez (e tantas vezes), uma sobreposição imprecisa, o ajuste com o nosso negativo fotográfico (revelado), um reequilíbrio, uma certeza - sobre a Vida.
Ainda descendente desse Almirante Pessanha que veio de Itália, no tempo de el-rei D. Dinis, para reorganizar a nossa Marinha, as idas e vindas que Camilo Pessanha fez (não muitas, aliás) de e para Macau, terão talvez suscitado, no seu olhar visionário, uma sobreposição genética e ancestral com o seu antepassado medieval. No dia de aniversário do seu nascimento, foi assim a razão de ter optado por este belo soneto.

Singra o navio. Sob a água clara
Vê-se o fundo do mar, de areia fina...
- Impecável figura peregrina,
A distância sem fim que nos separa!

Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente cor-de-rosa,
Na fria transparência luminosa
Repousam, fundos, sob a água plana.

E a vista sonda, reconstrói, compara.
Tantos naufrágios, perdições, destroços!
- Ó fúlgida visão, linda mentira!

Róseas unhinhas que a maré partira...
Dentinhos que o vaivém desengastara...
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos...

quinta-feira, 4 de março de 2010

Animais de estimação literários 2






Na sequência do anterior "post" com o mesmo tema e da gentil contribuição de MR (com António Osório - gato) e HMJ (com o rouxinol de Bernardim Ribeiro), nos comentários, a quem agradeço, verifiquei um esquecimento imperdoável e injusto, da minha parte. Então não é que me esqueci do "Porquinho-da-Índia" de Manuel Bandeira?! Em desagravo do Poeta brasileiro e em agradecimento às contribuintes do "Arpose", aqui vai o poema:

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-Índia.
Que dor de coração eu tinha
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não se importava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...


- O meu porquinho-da-Índia foi a minha primeira namorada.