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terça-feira, 3 de setembro de 2024

Divagações 196



Pouca gente hoje, mesmo da élite cultural diminuta nacional, fará a menor ideia da grande influência ideológica que António Sérgio (1883-1969), durante a segunda metade do século XX, exerceu sobre uma boa parte da esquerda portuguesa.
Assisti na RTP Memória, há pouco, a um programa, bem feito, sobre este ensaísta, com testemunhos interessantes de Vasco da Gama Fernandes, Raul Rêgo, João de Freitas Branco, A. José Saraiva, mas podia lembrar também a reverência intelectual que Mário Castrim lhe dedicava, como pude verificar, pessoalmente.
Era ontem. Hoje, quem sabe de António Sérgio?

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Evocação



Mais do que o Viver com os Outros (1964), de Isabel da Nóbrega (1925-2021) eu lembro-me sobretudo das suas crónicas no jornal A Capital (Quadratim), que eu lia sempre com prazer. Ou de um jantar num restaurante esquecido entre a Baixa e o miradouro de Santa Luzia em que, por mero acaso, fiquei sentado ao lado dela, na honrosa vizinhança de Óscar Lopes, Eduardo Lourenço e do já também falecido, meu querido amigo António de Almeida Mattos. À falta de melhor conversa, na altura, sei que lhe adivinhei o signo (Caranguejo), facto que a surpreendeu imenso. Expliquei-lhe que a proximidade com Gaspar Simões (Peixes) e Saramago (Escorpião) explicariam, talvez, o terceiro dos signos da Água. Foi isto ainda em finais do século XX, depois de uma sessão de homenagem, no Café Martinho, a António José Saraiva. 
Isabel da Nóbrega faleceu ontem.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Em defesa e proveito do nome


Quem deixou família, ainda tem quem o defenda ou proteja de barbaridades póstumas e apropriações indevidas e malfeitorias mal atribuídas.
É o caso de um poema de Sophia, fracote, que corre mundo pela net, como se fosse dela, não sendo. E é o que, normalmente, acontece quando não se cruzam dados e, à falta de biblioteca, se recorre a empresas de cultura barata e pindérica da net, como "O Pensador", "O Citador" e quejandos, para referir textos consagrados de autores célebres. Não se julgue porém que figuras prestigiadas, por preguiça académica, não copiam também de outros, às vezes, incorrendo assim no erro e pecado original. António José Saraiva, por exemplo, num trabalho, para a Clássicos Sá da Costa, atribuiu a Correia Garção alguns sonetos que são, realmente, de Cruz e Silva. E Jacinto do Prado Coelho, copiando de Júlio de Castilho, produziu algumas incorrecções num pequeno ensaio sobre o Abade de Jazente (Paulino António Cabral). No melhor pano cai a nódoa...
Dizia eu, no início, que sorte tem quem deixou família. Porque uma das filhas de Sophia tem procurado limpar o nome da Mãe, de excrecências menores que, falsamente, lhe são atribuídas por esses amadores rasteiros de poesia, que pululam neste mundo ignaro. Eugénio de Andrade não teve essa sorte, mas por outros motivos. Bem mesquinhos - diga-se.
Leio, no TLS (nº 6043), que Jane Austen conta, presentemente, com 330 descendentes. Sorte dela! E deles, ao mesmo tempo. Que lhe vão aproveitando a marca e o nome, para ir ganhando fama e para ir produzindo publicações menores e até produtos comerciais, que têm tido grande sucesso à custa da célebre romancista, cujo bicentenário da morte se comemorou, recentemente.
Isto, para o comércio, não há ninguém como os ingleses!... 

domingo, 15 de abril de 2018

Osmose 92


Ando à volta de um manuscrito de António Diniz da Cruz e Silva (1731-1799), que adquiri no ano passado. Não será um autógrafo, mas é com certeza um documento do século XVIII. O meu zelo e cuidado vai todo no sentido de ser exacto e essencial, no poste que fizer e, por isso, não será para amanhã que ele irá ser publicado no Arpose. Por outro lado, o Poeta-juiz é dos poucos vates portugueses de minha estimação fiel, há muito tempo. Raro eu descia as Escadinhas do Duque (Lisboa), sem me lembrar dele, que lá morou, segundo nos informa Júlio Castilho. Depois, sempre considerei que é um poeta português subavaliadíssimo. Tem, por exemplo, umas Metamorfoses, escritas no Brasil, muito interessantes, para além de 4 ou 5 sonetos, dos muitos que fez, que vale a pena ler. Da ignorância sobre a sua obra, basta falar de alguns poemas que António José Saraiva, descuidadosamente, atribuiu a Garção, na edição dos Clássicos Sá da Costa...
É um poste, se vier a sair, que - prevejo - dificilmente terá comentários de visitantes do Blogue. A inter-acção, entre nós, é o que é. Mas isso, pouco me preocupa. Interessa-me sobretudo pôr em ordem algumas ideias que tenho sobre Elpino Nonacriense, o grande dinamizador da Arcádia Lusitana. E que, na sua vertente de magistrado, no Brasil, teve de julgar alguns amigos, também poetas, implicados na Inconfidência Mineira. Importa-me, também, tentar perceber melhor o Homem, para além do poeta, que estimo.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Óscar Lopes



Dos ensaístas e críticos portugueses, há um que particularmente estimo - Óscar Lopes (1917). Muita coisa aprendi com ele, quer através da sua imensa cultura, quer pela sua fina intuição ao descobrir-me os pequenos sinais que, nas obras literárias, às vezes se escondem, por intenção velada dos autores. Três vezes me cruzei com ele, uma delas num jantar em Lisboa, para os lados de Alfama, num restaurante modesto não muito longe de S. Vicente de Fora. Óscar Lopes passou a refeição em diálogo intenso com Eduardo Lourenço que abancara em frente, na mesa. Os dois humanistas falaram, sobretudo, de António José Saraiva que tinha morrido, havia pouco tempo, e repentinamente. Há alguns anos atrás, Eugénio de Andrade escreveu-lhe o retrato e, entre outras coisas, disse: "...gostaria ainda de falar, a propósito de Óscar Lopes, de simplicidade e de pudor, pois nele é o que imediatamente vem à tona". A idade avançada faz recolher ao silêncio a maior parte dos homens - silêncio próprio, e dos outros. E, esse limbo é, também muitas vezes, a antecâmara do esquecimento. Espero que isto não aconteça a quem o não merece, por tudo aquilo que fez na vida. E pelos outros.

para o António, que comigo partilha a estima e a admiração.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Salão de Recusados VIII : Cruz e Silva


António Dinis da Cruz e Silva (1731-1799), Juíz e poeta cuja obra lírica foi sufocada pelo sucesso de "O Hissope", nasceu em Lisboa e faleceu no Rio de Janeiro quando se preparava para regressar a Portugal. No Brasil desempenhou funções de Desembargador da Relação do Rio e teve a seu cargo o julgamento da "Inconfidência Mineira" em que foram réus os seus amigos: Tomás António Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa e Alvarenga Peixoto, para além de "Tiradentes", considerado o chefe da rebelião.

A obra lírica de Cruz e Silva é tão mal conhecida que correm 2 sonetos seus como sendo de Correia Garção, integrados nos "Clássicos Sá da Costa" cuja edição foi preparada e seleccionada (mal) por António José Saraiva.

A sua atribulada viagem de Portugal para o Brasil mereceu-lhe um interessante soneto que transcrevo abaixo.

Saimos pela barra com bom vento,
Mas ao terceiro dia de viagem
Se alçou de Noroeste tal aragem
Que as vagas arrojava ao firmamento:

Socegado este horrendo movimento,
Em que roncava o mar como um selvagem;
Vimos ao sexto dia de passagem
A vinosa Madeira a barlavento.

Na barba da cruel Serra Leoa
Oito dias sofremos calmaria,
E o crebro fusilar com que o Céu troa:

Passamos logo a linha ao quarto dia,
E surgimos com toda a gente boa
Aos sessenta do Rio na baía.