

Na RTP ou na Universidade, Vitorino Nemésio (1901-1978) era um deslumbramento, no seu verbo. As suas aulas na Faculdade de Letras, em Lisboa, eram sempre uma incógnita. Nemésio sempre foi um repentista, com uma capacidade de associação cultural quase infinita. Podia começar por evocar uma pequena tabacaria, em Alcântara, saltar para Alexandre Herculano, referir, a talhe de foice, Paris e a Inglaterra, depois regressar, modestamente, à Trafaria, para acabar, finalmente, em Raul Brandão. Saíamos do anfiteatro perguntando-nos o que deveríamos reter, pragmaticamente, para o exame final de Cultura Portuguesa...e não sabiamos a resposta. Mas, ainda entontecidos pela cascata cultural do verbo nemesiano, não nos sentíamos preocupados, nem infelizes, muito pelo contrário...
Vitorino Nemésio morreu faz hoje, precisamente, 32 anos. Lembro-o através dum dos seus mais enigmáticos e belos poemas. O que posso dizer para ajudar, eventualmente, a leitura é que «alcião» (Alcyone) é, na mitologia, uma ave fabulosa que punha os seus ovos sobre as ondas do mar. Hoje, e mais prosaicamente, é conhecido como «martim-pescador» ou maçarico, uma pequena ave com um longo bico. Com o nome de Alcyone existe, também, uma estrela da constelação "Taurus". Mas como qualquer grande poema, a sua interpretação é livre. Segue-se:
Pus-me a contar os alciões chegados
(Minha memória era água, água...)
Fez-me mal aquela alta tristeza
De bicos vagabundos,
Mas não chorei os alciões desterrados.
Sempre gostei de aves e de lágrimas.
Lágrimas, agora, não podia,
mas podia os alciões
- E dei-lhes meus olhos para ovos
(Que as fêmeas estavam cansadas
E vinham de terra fria).
Firme e condescendente,
Fechei as pálpebras pesadas
De contradição e de poesia
- E um mundo novo de alciões novos,
Esse era o meu quando as abria.