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segunda-feira, 6 de maio de 2013

Borborigmos, ou a Dobrada em Poesia


Ninguém, conhecedor de Poesia, esquecerá a queixa de Pessoa, num poema, por lhe terem servido, e mal, Dobrada fria. Mas também Alexandre O'Neill (1924-1986) se queixou, no poema As Voltas da Poesia, dos borborigmos resultantes da sua difícil digestão. Aqui vai o poema, para que conste:

Borborigmo a expensas da dobrada.
Para uns, é alma alanceada;
para outros, quilo tão ronceiro
que lhes dá resmoneio o dia inteiro,
a conversa visceral fiada
que os versos são, primeiro.

Em qualquer dos casos, venham mas é versos,
bem tirados, acabados, tersos,
que a dobrada, essa, se por lá traquina,
é para coisa que se veja, chula ou fina.

Alexandre O'Neill, in Feira Cabisbaixa (1965).


quarta-feira, 1 de maio de 2013

A ironia de Camilo


Nem sempre o pathos camiliano deve ser tomado à letra mas, por vezes, no meio dos avassaladores sentimentos dos seus romances, torna-se difícil destrinçar o que é verdadeiramente sério daquilo que é um abuso lúdico e irónico do Escritor. Em tempos (anos 60), Alexandre Cabral teve o mérito de reunir em livro As Polémicas de Camilo, que foram editadas pela Portugália. Em 1851, e na sua polémica com Miguel Sotto-Mayor e Azeredo, Camilo faz algumas considerações sobre as composições poéticas daquele autor, hoje desconhecido e ignorado. Aqui vai uma pequena parte da diatribe camiliana:
"...O Sr. Azeredo poetou. Sobre a coluna do Pirata e da Miscelânea a trova pendia-lhe do estro torneada, gentil, graciosa e perfumada, como o primeiro beijo que treme pudibundo nos lábios escarlates de uma virgem qual a sonham poetas da força fantástica do Sr. Azeredo. A prosa, como jorro cristalino de Vaucluse, derivava-se-lhe de fonte inspirada, com quanta limpidez, lhaneza, e harmonia os bons prosadores do século XVI nos preparavam estes sonos infinitos, que tão saboreados exprimimos em desleixados bocejos e deliciosos espreguiçamentos do século XIX. Era de uma fertilidade fabulosa a musa do Sr. Azeredo! O génio parecia carpir-se-lhe nos abismos da alma, por não achar mais rimas para trovar, como um grande conquistador chorara ao ver cerrarem-se-lhe os horizontes do mundo. Librada sobre as páginas do Cândido Lusitano, aquela alma sequiosa de reduzir como Mascarillo, a madrigais a história «da sua terra natal» prometia uma prostração lastimosa depois dos estorcimentos inspirados de uma abrasada vertigem de metrificação. Ainda assim, o verso grande, e o pequeno, e o pequenino floreavam-lhe espontâneos à superfície, como àquele Ovídio tão seu amado..."