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domingo, 19 de setembro de 2010

Os fumos do Tempo : best-sellers...


Os 2 livros cujas capas se mostram, em imagem, foram best-sellers, no tempo em que se publicaram (1903 e 1908). Um, porque tinha um perfume de escândalo, na época. Falo do "Marquêz da Bacalhôa", que foi reeditado há pouco tempo. A personagem principal era identificada, de uma forma geral, por leitores e colunistas sociais, como sendo o rei D. Carlos.
O segundo, "Ambrósio das Mercês", de Aníbal Soares, porque fora escrito por um jornalista muito conhecido - o equivalente, hoje, talvez, ao nosso simpático José Rodrigues dos Santos. O livro, creio, que não terá sido reeditado, recentemente.
Quem terá a pachorra "arqueológica" de os ler, hoje? Eu tive, penosamente, diga-se... Há uns anos atrás, mas já não me lembro de nada. A não ser do sacrifício da leitura.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

"Oito luas fatais fitam o espaço"


O título deste poste tirei-o de um poema que Fernando Pessoa dedicou a António Duarte Gomes Leal (1848-1921), também ele poeta, e a quem, no amplo sentido "verlaineano" do termo, poderíamos apelidar de "maldito". Na idade adulta, vivendo de expedientes ou da colaboração em jornais republicanos, mas também do património que o Pai - morto jovem - deixara, e que sua Mãe, parcimoniosamente, moeda a moeda lhe ia dando, após a morte dela, em pouco tempo, delapidou o que sobrara. Os restantes 11 anos, viveu-os Gomes Leal em decadência gradual até à sua morte, em casa do amigo Ladislau Batalha, na Rua do Telhal. Vagabundeou muito, antes. Pode dizer-se que foi um sem-abrigo, "avant la lettre", e muitas vezes, sem dinheiro para pagar um quarto, adormecia nos bancos do Rossio ou da Avenida da Liberdade. Mas assim como esbanjou dinheiro, também esbanjou talento. Dos seus versos se sente o eco em Cesário e Nobre, e um pouco menos em Pascoaes.
Era consensualmente admirado como poeta. Quando já quase indigente, a República, pelo seu Parlamento, votou-lhe uma tença, no melhor exemplo camoniano - pagavam-na tarde e a más horas... E Aníbal Soares, monárquico convicto, também lhe arranjou um subsídio, provavelmente, do seu próprio bolso. Dele, na literatura e antigas selectas, ficou memória do poema "A Duquesa de Brabante" que Gomes Leal dedicou a Alberto Osório de Castro. Opto pelo soneto "Fantasias" onde se notam "raízes" do que, depois, Cesário Verde viria a fazer com outra elegância e geometria...

Tenho, às vezes, desejos delirantes
De a todos te roubar, meu lírio amado!...
E levar-te, em um vôo arrebatado,
Aos países fantásticos, distantes.

À Índia, China ou Irão, e os meus instantes
Passá-los a teus pés, grave e encruzado,
Num tapete chinês aveludado,
Com flores ideais e extravagantes.

Nossa vida seria - ó pomba minha! -
Mais leve do que a asa da andorinha,
E, nas horas calmosas, eu e tu...

Olhando o mar sereno, o mar unido,
Comeríamos os dois arroz cozido...
- Embalados num junco de bambu!