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sábado, 16 de junho de 2012

Nortenhas e populares (quadras) 17


Seguem as três últimas quadras da selecção que tenho vindo a fazer do vol. IV da monografia "Entre Homem e Cávado", de Domingos Maria da Silva, editada em Braga, entre 1951 e 1981. Seguem:

O cuco penica a cuca,
Tira-lhe as penas da crista,
O cuco vai degredado
A cuca foi p'ra justiça.

O teu olhar desleal
Corações queima por gosto
Vou chamá-lo ao tribunal
Por crime de fogo posto.

Lavadeira tem mais brio,
Já vais na quarta paixão;
Olha que não lavas no rio
As nódoas do coração.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Nortenhas e populares (quadras) 16


Mais uma pequena selecção de quadras populares da região de Amares, do distrito de Braga:

Menina, prenda o seu melro,
Que me vai à minha horta,
Esgravatar o cebolo
C'o sentido na minhoca.

Semeei na minha horta
Bacalhau frito às postas;
Nasceu-me um velho careca
Com uma marrancha às costas.

As nuvens correm depressa
A lua vai devagar;
Cedo começa a tristeza
Tarda a ventura a chegar.

Nota: raras, mas muito interessantes, as quadras que, por vezes, têm um "non-sense" inesperado, quase surrealista no seu tom, como é o caso da 2ª quadra. Pouco usual, a palavra "marrancha" que tem o significado de leitoa, ou porca pequena.

sábado, 7 de abril de 2012

Nortenhas e populares (quadras) 14


Desta vez, as quadras populares são da freguesia de Santa Marta de Bouro, no concelho de Amares - donde foram retiradas as anteriores constantes desta rubrica. Seguem, da selecção feita, mais três:

Ó tocador da viola,
Que tocas na perfeição,
Quando pões a mão nas cordas
Tocas no meu coração.

O meu coração não dorme
Que não lhe chega o vagar,
É soldado sempre alerta
No seu posto para amar.

A mulher é sombra e luz,
Noite escura ou estrela d'alva,
Ora descanso, ora cruz,
Tanto perde como salva.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Nortenhas e populares (quadras) 13


O meu amor e o teu
Andam na fresca ribeira:
O meu anda à erva doce,
O teu à erva cidreira.

Oh! minha mãe, hoje em dia
Não se pode ser mulher:
Se é linda deitam-lhe fama,
Se é feia, ninguém a quer.

De enganos e desenganos
Se faz a teia da vida:
Mal uma esperança acabada
Já outra de novo urdida.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Nortenhas e populares (quadras) 12


Os olhos do meu amor
São duas azeitoninhas:
Alumiam toda a noite
Como duas candeiínhas.

Quem me dera ser colete,
Quem me dera ser botão,
Para andar amarradinha
Junto do teu coração.

Fui-me deitar a dormir
Entre verdes laranjais,
Para ver se me esquecias,
Cada vez me lembras mais.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Nortenhas e populares (quadras) 11


Desta vez as quadras populares, seleccionadas do mesmo livro referido anteriormente, nesta rubrica, foram recolhidas na freguesia de Carrazedo (Amares). Seguem:

Uma menina bonita
Nunca devia nascer,
É como a pera madura,
Todos a querem colher.

Ó meu amor, vai e vem,
À vinda vem por aqui;
Eu baixarei os meus olhos
E farei que te não vi.

Quem me dera a liberdade
Que o galo tem no poleiro;
Namorava as moças todas,
Ficava sempre solteiro.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Nortenhas e populares (quadras) 10


Quem me dera ir a Braga,
Ou em Braga ter alguém;
Quem me dera a liberdade
Que as moças de Braga tem.

Os olhos do meu amor
São duas bolinhas pretas
De namorar ao luar
Debaixo das violetas.

Da janela do meu pai
Vejo o pomar do meu sogro,
Antes queria ver o filho
Que a fruta do pomar todo.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Nortenhas e populares (quadras) 9


Hoje, as quadras são da freguesia de Caldelas, das termas afamadas e da tenra vitela dos pastos verdejantes. Retirados os versos, como habitualmente, da Monografia da região de Amares, intitulada "Entre-Homem e Cávado" (1981). Aí vão três quadras:

Amor, não me escrevas cartas,
Bem sabes que não sei ler;
Se tu sentires saudades,
Perde um dia, vem-me ver.

Esta noite choveu papas,
Ó moços, tragam colheres;
Quem quiser ouvir mentiras
Chegue-se ao pé das mulheres.

Entre a salsa e o coentro
Hei-de plantar a cebola;
Mais vale feia engraçada
Que uma bonita mas tonta.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Nortenhas e populares (quadras) 8


Desta vez são da freguesia de Rendufe (Amares), as quadras populares que se transcrevem da mesma Monografia que tenho vindo a utilizar.

Fui à figueira dos figos,
Ataquei-me de laranjas;
Veio o dono das ameixas...
- Quem te deu tantas castanhas?

Amor de chapéu de palha
Ninguém me fale para ele,
Ele anda por minha conta,
Eu ando por conta dele.

Olhos pretos, roubadores,
Porque não vos confessais
Dos delitos que fazeis,
Dos corações que roubais.

Nota pessoal: achei particularmente curiosa a 1ª das quadras com o seu quê de surrealismo naïf.

sábado, 5 de novembro de 2011

Nortenhas e populares (quadras) 7


Ainda da freguesia de Barreiros, Amares, e retiradas da anteriormente citada Monografia, estas quadras populares de sabor campestre:

A minha viola nova
Tem dezoito caravelhas,
Para levar uma ronda
À menina das ovelhas.

Coração que a dois ama,
Neles ambos quer entrar;
Por muito bem que lhes queira
Um deles tem de deixar.

Quatro com cinco são nove,
Para doze faltam três;
Se algum dia te deixei,
Aqui me tens outra vez.

sábado, 8 de outubro de 2011

Nortenhas e populares (quadras) 6


Da região de Amares, mais concretamente de Barreiros, retiradas da Monografia antes referida, mais 3 quadras:

O mar pediu a Deus peixe
Para andar acompanhado:
Quando o mar quer companhia
Que fará um desgraçado.

Ó rosa de Alexandria,
Onde perdeste o cheiro?
- Perdi-o na tua cama,
Na renda do travesseiro.

Tenho sono de galinha,
Galinha dorme de pé;
Tenho meu sentido vário,
Ninguém sabe por quem é.

domingo, 4 de setembro de 2011

Nortenhas e populares (quadras) 5


Da região de Amares (Minho) e retiradas da Monografia já referida, anteriormente, mais 3 quadras populares:

Se os beijinhos espigassem
Como espiga o alecrim,
A cara das raparigas
Era um formoso jardim.

Com pena peguei na pena
Com pena escrevi um S,
Com pena mandei dizer
Ao meu amor que viesse.

Dei um ai, tu não ouviste,
Dei outro, não deste fé:
O meu coração é teu,
O teu não sei de quem é.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Nortenhas e populares (quadras) 4


Ainda da Monografia, já referida nesta rubrica, mais 3 quadras populares (provavelmente de autoria feminina):

Meu amor por tua vida,
Ou por tua caridade,
Tira-me deste degredo,
Leva-me para a cidade.

Fui ao céu por uma linha,
Desci por um cacho d'uvas:
Ninguém se fie nos homens,
São mais falsos do que Judas.

O meu amor é de Braga,
É de Braga cidadão,
Vem afeito ao molete,
Não me quer comer o pão.

Nota pessoal: em alguns locais do Norte, a palavra molete tem o significado de carcaça ou pão pequeno.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Nortenhas e populares (quadras) 3


Mais 3 quadras populares retiradas da Monografia de que se mostra, em imagem, a capa do volume I.

A silva nasceu-me em casa,
Deu volta pela cantareira:
Arranje Pai quem o sirva
Qu'eu já tenho quem me queira.

Vem cantar uma cantiga,
Que eu bem sei como se canta,
Dá-se um jeitinho à boca,
Revoltea-se a garganta.

Julgavas qu'eu te queria,
Já te andavas a gabar;
Vai à mãe que te dê mama,
Que te acabe de criar.

sábado, 28 de maio de 2011

Nortenhas e populares (quadras) 2


Retiradas da Monografia (4 volumes), na imagem, aqui vão mais umas quadras populares, frescas e singelas, desta vez provenientes da freguesia de Bico (S. Vicente), do concelho de Amares, cujo mapa reproduzi no poste 1, sobre este mesmo tema. Seguem: 

Não te encostes à parede
É de barro, larga pó:
Encosta-te ao meu peito,
Sou solteira, durmo só.

Moro à beira do rio,
Meus vizinhos são penedos:
Da janela do meu quarto
Ouço cantar os morcegos.

O loureiro bate à porta,
- Ó salsa vai ver quem é:
São os ladrões dos teus olhos
Que roubam à falsa fé. 

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Nortenhas e populares (quadras) 1



Muitas das desgarradas, no Norte, quadras e cantigas populares têm uma singeleza rústica que merece ser lembrada e, os romanceiros tradicionais, uma frescura natural que, muitas vezes, nos prende e encanta. São ritmos que vêm de longe, de um veio lírico profundo, outras vezes, de uma brejeirice marota ou com segundos sentidos. Até Fernando Pessoa, todo ele citadino e mental, não resistiu a "praticar" a quadra (de gosto) popular. Há dias, reencontrei na zona de Monografias da minha biblioteca uns volumes, publicados, em Braga, entre 1958 e 1981, intitulados: "Entre Homem e Cávado", de Domingos Maria da Silva. O IV volume é inteiramente preenchido por "Cantigas" desta zona territorial de entre-os-rios minhotos. Das suas quadras, irei dando conta (2 a 2), por aqui, escolhendo as que mais me satisfizerem o gosto. Aí vão as primeiras:

Minha mãe mandou-me à fonte
Pela hora do calor;
Eu quebrei a cantarinha
A dar água ao meu amor.

Não tenho mais que te dar
Nem tu mais que me pedir:
Um cravo meio aberto
Um suspiro por abrir.