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segunda-feira, 15 de maio de 2017

Mercearias Finas 122


A Norte, em tempos imemoriais da minha vida, no Sábado de Páscoa, e depois de vermos a Queima do Judas, ao meio-dia, na rua da Rainha, antes de entrarmos na Praça vimaranense para ir comprar o cabritinho, no talho do Zé Bento, passávamos por duas ou três bancas onde se espraiavam, ao ar livre, sobre imaculados panos brancos, o Pão-de-Ló de Margaride, as Cavacas e uns bolinhos redondos pintalgados de açúcar que, vim a saber depois, se chamavam Bolos de Gemas, e que faziam as minhas delícias de infância com o café com leite do lanche, sorvido em pequenos goles demorados.
Bem os procurei, no Sul, mais tarde, mas em vão, por várias vezes.



Ora, ultimamente, aqui pelos subúrbios, tem havido, embora de forma irregular, umas feiras, aonde acorrem vendedores-produtores de viandas de província e outras guloseimas de fabrico artesanal e de boa qualidade. Vêm do Minho, de Trás-os-Montes, das Beiras. Trazem queijos, produtos de fumeiro, doces regionais, presuntos e, às vezes, vinhos de produção pequena e rótulos desconhecidos.
No antepenúltimo fim-de-semana, a Trafaria acolheu um grupo numeroso destes feirantes regionais, com grande diversidade de produtos. E lá consegui encontrar e comprar os meus apetecidos e saudosos Bolos de Gema nortenhos, com a sua macieza de pão-de-ló interior e a estaladiça cobertura de açúcar, esbranquiçada, por fora. Para matar saudades e  gula.


quarta-feira, 6 de abril de 2016

"Não corras para o mar, Tâmega, tanto..."


Para quem vem de Lisboa, Chaves é um sossego inesperado. Mesmo que se venha em busca de um "Compromisso (...) da Misericórdia", de 1516, que poucos sabiam existir. Existe, realmente, e embora lhe falte uma gravura, encontra-se em razoável estado de conservação. Passados 500 anos.
Ocorreu-me o início do soneto de Jazente (1719-1789), para título do poste, ao saber das quatro pontes sobre o Tâmega, em Chaves, pese embora, por aqui, ele passar pachorrento, como o vi, hoje. Talvez por Amarante e nos tempos do Abade poeta, o rio fosse mais lançado e jovem. Mas cruzam-se assim os diversos tempos, desde a ponte romana até à que nos anos 50, do século passado, foi construída para as gentes de Aquae Flaviae. Como se cruzam no largo equilibrado e simpático, que terá sido Forum romano, os maneirismos tímidos com a renascença clara, mesmo quando absorve uns restos quase apagados do que foi uma igreja românica.
O núcleo museológico é que deixa muito a desejar. Já de si diminuto, ainda se divide por três  pólos distintos, embora próximos: arqueológico, arte sacra e militar, na torre que foi de menagem do primeiro duque de Bragança, D. Afonso. Tirando a parte castreja, o resto é prontamente esquecível, pela banalidade das peças. Valeu-me para memória futura a Vénus de Vidago, tosca escultura insólita, mas pessoalíssima, de algum ignorado artista de outras eras. Destaque para a sua pétrea gravidez, com uma posição de pés, impossível, que o escultor, na sua primitiva liberdade de criação, assim projectou para lhe melhorar a base de sustentação...


segunda-feira, 30 de maio de 2011

O(s) Pobre(s) Tolo(s)


 Em pequenos aglomerados populacionais, eles são notórios, apontados e, por vezes, ridicularizados, sem piedade. No seio de famílias com algumas posses, são escondidos em casas sombrias ou quintas afastadas - ou eram... Os últimos que vi, quase quotidianamente, foi numa vila dos subúrbios de Lisboa, acompanhados, na rua e de mão dada, pelas mães já velhas. Uma delas vestia o deficiente mental, sempre, como se ele fosse um eterno adolescente, embora ele já tivesse quase 40 anos. E trouxesse na mão, invariavelmente, um pequeno alguidar de plástico ou uma panela de alumínio onde chocalhava botões, moedas em desuso, pedrinhas ou outros pequenos objectos estridentes. Há, habitualmente, uma vergonha genética ou familiar que os esconde mas, há também, às vezes, uma cegueira maternal que, a nós, quase nos parece um exibicionismo despudorado e gritante. Mas não é, com certeza.
Lembrei-me dos pobres tolos quando postei, por amável envio de ms, no Arpose, o final do excelente filme "Sib (A Maçã)" de Samira Makhmalbaf. A belíssima e límpida fotografia clássica do vídeo, porém, não consegue afastar o lado pesado, sem saída aparente, de um fatídico destino desta família paupérrima persa. São realmente outros mundos que não conseguimos imaginar, encerrados num cemitério ainda sem cruzes de uma Natureza madrasta (para não falar em deuses), condenados a um labirinto de pesadelo. Sempre achei também curioso que, ao tema de "O Pobre Tolo", Teixeira de Pascoaes (1877-1952) tivesse dedicado dois livros. Não satisfeito com o volume em prosa (de 1924), veio a refundí-lo em poesia (1930), ou elegia satírica, mais tarde. Não tenho a menor dúvida que havia deficientes mentais, em Amarante. E, Pascoaes, deve tê-los visto, muitas vezes...

"Na tua velha ponte, São Gonçalo,
Contempla um pobre tolo, as duas margens
Do Tâmega. ..."