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sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

O CAM em tirocínio para MAAT



Felizmente, o núcleo central do Museu Calouste Gulbenkian manteve-se inalterável. Rembrandt, Guardi, Lalique continuam a poder ser vistos pelos visitantes. Conserva o bom gosto e qualidade do Sr. Calouste.
Mas no CAM, estes novos curadores e administradores foleiros tinham que meter o pé na poça e, a exemplo dos gerentes das grandes superfícies de distribuição, dar nas vistas, e mudar as arrumações, para os chefes baterem palmas e aprovarem as suas palermices. Introduzindo artistas de muito duvidosa qualidade artística.
Assim, deixamos de poder ver Almada, os Galgos de Souza-Cardoso, José de Guimarães, Pedro Chorão... foi tudo para as reservas escondidas.
Este Feijó é, realmente, um grande esteta cómico!
Bem merece, a seguir, ir para o MAAT, bugiar.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Catálogos e enumerações


Confesso-me um leitor interessado por bibliografias, catálogos de leilões, por listas enumerando produtos culturais diversificados. Sobretudo, se essas relações vêm enriquecidas de notas apropriadas, ilustrando a descrição e qualidade dos objectos através de um aparato crítico elucidativo. A enumeração pura e simples deixa-me quase sempre insatisfeito pela aridez que, muitas vezes, se assemelha a um balanço ou inventário burocrático de um armazém comercial, anódino.


Foi, por isso, que com agradável surpresa vim a descobrir, por entre os meus CD arrumados, um inesperado catálogo de edições de música erudita que a FNAC produziu, em anos recuados, e que eu guardei, pela qualidade desse pequeno livro de publicidade nobre. A selecção inclui 258 obras gravadas de música erudita, capa com reprodução de um quadro de Amadeu Souza-Cardozo, e colaboração de Rui Vieira Nery. Bem como um glossário musical, biografias de compositores e apreciação crítica das gravações.
Ainda bem que o guardei!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Na Casa da Cerca


E porque não um passeio pré ou post-natalício, até à Outra banda?!
Pelo menos, Amadeo merece.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Amadeo


É um hábito enraizadamente humano, este de, para melhor localizar ou identificar alguém, o apresentador dizer: "Conhece? É filho de Fulano..." ou "Sabe, é a esposa de Beltrano!" Nestes casos, a pessoa apresentada é, normalmente, menos célebre que o parente referido. O jornal Le Monde não foge à regra e, como se pode ver, pelo título em imagem, socorreu-se de Modiglini, para configurar o nosso outro Amadeo... Quanto ao adjectivo maudit, eu creio que se poderia aplicar a ambos. Porque morreram os dois na flor da vida e com pouco mais de trinta anos, no mesmo ano de 1920. Amadeo de Souza-Cardoso, em Espinho, da gripe espanhola, e Amedeo Modigliani, de meningite tuberculosa, em Paris.
Embora conviventes e amigos, em França, a obra de cada um, no entanto, difere muito. A força da pincelada do português (embora com desenhos de traço muito fino, que parecem pressagiar o traço agressivo de Bernard Buffet) afasta-se da elegância florentina da pintura do italiano. Ambos singularíssimos, naquilo que fizeram e precursores, inimitáveis, do que estava para vir, na pintura europeia do século XX. O jornal Le Monde (28/4/2016) dá nota da magnífica exposição, no Grand Palais (Paris), de parte da obra de Amadeo Souza-Cardoso, composta por três centenas de quadros e documentos, e que estará aberta ao público até 18 de Julho do presente ano.

domingo, 20 de abril de 2014

A Páscoa rural, segundo Aquilino


...Nesse ledo clima de outrora, e até ainda durante a guerra, por toda a Quadragésima, as aldeias ouviam reboar as matracas a chamar os fiéis para a Via-Sacra. A um sinal tão áspero como estranho cada um montava o seu corcel fogoso e ala, fantasia. Como é que Deus se deixava matar por meia dúzia de safardanas?! (...)
Nesses dias de treva as janelas das casas, em observância com a pragmática, fechavam as portadas. O comércio aderia. O senhor Pereira pesava o bacalhau em voz baixa, com gestos comedidos, e os caixeiros que tinham gravata preta punham-na. E como não, se à noite, no afogo das cerimónias quaresmais, se encontravam com as meninas e ia morrer um Deus?! Os altares estavam velados com crepes e lençarias pintadas, pois não seria decoroso que a jucunda graça da Senhora dos Remédios, o manto garrido do S. João, a estola sarapintada de estrelas de Santa Catarina continuassem a alegrar os olhos e a perfumar o mundo na hora lacrimosa. (...)
Abril quase no termo, antecipava-se em seu advento o sol estival. As rolas, o cuco e a poupa cantavam e recantavam no coruto dos pinheiros. De quando em quando o marantéu lançava sobre a natureza amodorrada o seu gorgeio vibrante, amarelo como ele, como o sol, como o fogo, como as flores mais plebeias dos prados. Os gaios pinchavam nas casticeiras, que se recobriam de rebentos primaveris, penugem verde-amarela, breve e imponderável como uma musselina, e travavam com aqueles o provável despique:
- Viste lo abade?
- Lá o vi, lá o vi.
- Com'ia vestido?
- Ia com'a mi.
- Comeste-lhos figos?
- Pois comi, comi!

(...) Domingo de Páscoa, manhã alta, perpassava ao cabo da rua braçada rúbida de camélias. Uma, a mais vermelha, ia o juiz da igreja entalá-la na cruz de prata de guizeiras entre a aspa e o braço do justiçado. E, assim guarnecida, o senhor padre dava a beijar às famílias ajoelhadas Cristo e a Primavera:
- Aleluia! Aleluia!
(...)
Aquilino Ribeiro, in Aldeia - Terra, Gente e Bichos (pgs. 65, 67, 71).

domingo, 27 de novembro de 2011

Produtos Nacionais 2 : Fado / Património


É, no mínimo, uma ironia do destino que uma criação genuinamente portuguesa, que está ligada (ou estava) à nostalgia - para não dizer à tristeza -, hoje, nos tenha provocado uma alegria.

Que o Fado tenha sido, nesta época de usurpação e desânimo, considerado Património Imaterial da Humanidade, pela Unesco, dá-nos alguma consolação e alento, mas pouco mais que isso.

E talvez seja bom lembrar que o fado veio de baixo, de muito baixo, de vozes melhores ou piores, anónimas umas, muitas já esquecidas, numa cadeia de gerações, para chegar até aqui, hoje.

sábado, 12 de novembro de 2011

Pinacoteca Pessoal 20 : Georges Braque


Este não é, seguramente, o meu quadro preferido de Georges Braque (1882-1963), mas tem uma particularidade muito especial: está relacionado com Portugal. Foi pintado em 1911 e pertence, hoje, ao acervo do Kunstmuseum  Basel (Basileia), na Suiça. A partir daqui, começam as interrogações. Os alemães intitulam a tela: "Die Portugiesin" (Moderne Kunst, de Trewin Copplestone, Ed. R. Löwit . Wiesbaden, 1962). A tradução do título do quadro seria, portanto: "A Portuguesa". Mas os franceses já lhe chamam "Le Portugais", ou seja, "O Português". E até há quem acrescente "L'Émigrant". A ser fidedigno este título, poder-se-ia especular se não terá sido inspirado ou sugerido por Amadeo Souza-Cardoso que, nesse ano de 1911, até expôs no "Salon des Independents", em Paris. Seja como for, terá sido por alguma razão que Georges Braque lhe deu a "nacionalidade portuguesa", masculina ou feminina. E no centro da tela, ao fundo, esboçou uma guitarra...

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Adagiário XXXVI : Páscoa




1. Altas ou baixas, em Abril vem as Páscoas.


2. Ramos (domingo de) molhados, anos melhorados.


3. Páscoas de longe desejadas, num dia são passadas.


4. Não há Entrudo sem lua nova, nem Páscoa sem lua cheia.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Favoritos XLII : Amadeo Souza-Cardoso



Amadeo Souza-Cardoso nasceu em Amarante, a 14 de Novembro de 1887 e veio a morrer, vítima da pneumónica, em Espinho, a 25 de Outubro de 1918.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Mário de Sá-Carneiro




Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), poeta e prosador notável, nasceu precisamente há 120 anos. É, com Almada e Pessoa, a trindade magnífica do modernismo português. O facto de ter morrido jovem não lhe permitiu libertar-se totalmente de algumas influências (Nobre e Pessanha, principalmente) para aceder a uma voz mais pessoal. Muito embora a exuberância quase barroca ( que prenuncia o surrealismo) e alguma estridência de tom identifiquem muitos dos seus poemas. Será uma evidência repetí-lo, mas sendo tão impressivo o poema, obviamente aqui o lembramos nos versos de "Fim":

Quando eu morrer batam em latas
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro!

domingo, 24 de janeiro de 2010

Há 90 anos : "amour fou"








Amedeo Modigliani (1884-1920), pintor e amigo de Souza-Cardoso, morre tuberculoso em Paris, a 24 de Janeiro de 1920. Um dia depois, a 25 de Janeiro, Jeanne Hébuterne (1898-1920), sua companheira, suicida-se, atirando-se do 5º andar, da casa onde viviam, para a rua.