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sábado, 12 de novembro de 2016

A par e passo 178


Um livro tem valor a meus olhos pelo número e pela novidade de questões que levanta, anima ou reanima no meu pensamento. As obras que impõem ou postulam a passividade do leitor não são do meu agrado. Eu espero das minhas leituras que elas me provoquem observações, reflexões, daquelas paragens súbitas que suspendem o olhar, iluminam perspectivas e despertam a nossa curiosidade profunda, os interesses particulares das nossas investigações pessoais e o sentimento imediato da nossa presença de estarmos vivos.

Paul Valéry, in Variété V (pg. 269).


Nota pessoal: terminámos, hoje e por aqui, as transcrições e traduções de excertos, que temos vindo a fazer, desta obra de Paul Valéry. Bem como, pelo menos, esta fase da rubrica "A par e passo".

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

A par e passo 177


Assim coexistem em muitos espíritos quer a curiosidade quer a esperança, que muitas vezes nos surpreendem. O racional e o irracional combinam-se de forma bizarra. Homens como Leibniz ou Bayle podem parecer-nos excessivamente ricos em inquietações muito diversas; e a associação no mesmo Newton da interpretação do Apocalipse (através de hipóteses sobre a astronomia dos Argonautas), em simultâneo com a invenção do cálculo das fluxões e da teoria da atracção universal, acaba por nos desconcertar. Mas o seu século abunda em pesquisas sobre todas as vias, e a paixão do rigor, o culto da observação e da experiência não descartam as tentações e seduções que também lhe propõem as doutrinas e as práticas misteriosamente transmitidas pela tradição.

Paul Valéry, in Variété V (pg. 265).

terça-feira, 11 de outubro de 2016

A par e passo 176


Seguro de existir, Descartes acredita supor que não há outra certeza. Mas há muitas outras, desde que ele comece a meditar. Ele julga, inovador como é, que deve manter a atitude, tradicional em metafísica, duma dúvida universal que está ligada à vontade, quer ao início, quer à saída de tudo aquilo que se pensa. E isto é uma atitude profissional. Ei-lo, no entanto, a braços com um problema sério. A experiência do sonho, os erros da percepção, as ilusões do tacto e do olhar, as alucinações de tipo diverso, engendraram desde tempos imemoriais, esta questão teórica - tão positivamente teórica que se poderá perguntar, à parte, se ela não será puramente verbal.

Paul Valéry, in Variété V (pg. 234).

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A par e passo 175


Descartes acertou as suas contas com a filosofia, - dos outros. Definiu ou determinou o seu sistema de vida. Ele tinha confiança plena no seu conjunto de modelos e ideais matemáticos e podia, no seu presente, sem necessitar de ir ao passado, sem olhar a nenhuma tradição, empenhar-se na sua luta que seria a sua vontade de clareza e de organização do conhecimento contra a incerteza, o acidental, o confuso e o inconsequente que são os atributos mais prováveis de grande parte dos nossos pensamentos.
Posiciona-se numa primeira certeza; afirma "que é necessário rejeitar como absolutamente falso aquilo que podia provocar a menor dúvida, de modo a descobrir se não existiria, depois disto, alguma coisa na sua crença que fosse inteiramente indubitável". E alega, fundando-se na sua experiência que nós temos sonhos, e que tudo pode ser talvez apenas sonho. Só a sua famosa proposição: Je pense, donc je suis, lhe parece uma verdade indestrutível, que é preciso tomar como primeiro princípio, e que lhe revela, por outro lado, que é, em si, uma base donde toda a essência se pode pensar, independentemente do corpo, do lugar, de toda a coisa material.

Paul Valéry, in Variété V (pgs. 229/30).

domingo, 11 de setembro de 2016

A par e passo 174


Pensem também que, de entre todas as artes, a nossa (poesia) é talvez a que coordena o maior conjunto de componentes ou factores independentes: o som, o sentido, o real e o imaginário, a lógica, a sintaxe e a dupla invenção do fundo e da forma... e tudo isto por intermédio desse meio essencialmente prático, perpetuamente alterado, por vezes manchado, conjugando todos os ofícios, da linguagem comum, com a exigência de se obter uma Voz pura, ideal, capaz de comunicar sem fraquezas, sem esforço aparente, sem perturbar a nossa audição e sem romper a esfera instantânea do universo poético, uma ideia singular de um  eu maravilhosamente superior ao Eu.

Paul Valéry, in Variété V (pg. 162).

terça-feira, 30 de agosto de 2016

A par e passo 173


O poeta desperta no homem por um acontecimento inesperado, um incidente exterior ou interior; uma árvore, um rosto, um assunto, uma emoção, uma palavra. E, depois, é uma vontade, de expressão que começa à partida, uma necessidade de traduzir o que se sente, mas de súbito é, ao inverso, um elemento de forma, um esquisso de expressão que procura a sua causa, que busca um sentido no espaço da minha alma... Observem bem esta dualidade passível de entrar em jogo: por vezes qualquer coisa quer ganhar expressão, por vezes, algum meio de expressão quer ganhar um sentido.

Paul Valéry, in Variété V (pgs. 160/1).

domingo, 14 de agosto de 2016

A par e passo 172


Na verdade, um poema é uma espécie de máquina capaz de produzir o estado poético através de palavras. O efeito desta máquina é incerto, porque nada garante a sua acção sobre os espíritos. Mas, qualquer que seja o resultado e a sua incerteza, a construção da máquina exige a solução de uma quantidade de problemas. Se a palavra máquina vos choca; se a minha composição mecânica vos parece grosseira, queiram notar que a duração do elaborar de um poema, mesmo que seja curto, pode absorver o trabalho de anos, enquanto o efeito de um poema sobre o leitor durará apenas alguns minutos.

Paul Valéry, in Variété V (pg. 159).

quarta-feira, 27 de julho de 2016

A par e passo 171


Do meu ponto de vista, a mais autêntica filosofia não se encontra nos objectos da nossa reflexão, mas sobretudo no próprio acto do pensamento e nas suas movimentações. Retire-se à metafísica todos os seus termos predilectos e temáticos, todo o seu vocabulário tradicional, e talvez possamos concluir que não empobrecemos o seu pensamento específico.

Paul Valéry, in Variété V (pg. 157).

domingo, 10 de julho de 2016

A par e passo 170


Na realidade existe no poeta uma espécie de energia espiritual de natureza própria: manifesta-se nele e revela-se-lhe em certos momentos de importância infinita. Infinita para ele...
E eu digo: infinita para ele, porque a experiência, no fundo, ensina-nos que esses instantes que nos parecem de valor universal são, muitas vezes, sem futuro, e fazem-nos meditar nesta máxima: o que vale para um único não vale nada. É a lei aérea da Literatura.
Mas todo o verdadeiro poeta é necessariamente um crítico de primeira ordem. (...) O espírito é terrivelmente volúvel, enganador e enganado, fértil em problemas insolúveis e soluções ilusórias. Como é que uma obra notável poderá sair deste caos, se este caos que contém tudo aquilo que continha também aquelas oportunidades de se conhecer a si mesmo e de escolher o que pode e deve ser retirado desse mesmo pequeno instante e ser cuidadosamente utilizado?

Paul Valéry, in Variété V (pgs. 156/7).

quarta-feira, 22 de junho de 2016

A par e passo 169


O pensamento é, em suma, o trabalho que faz viver em nós aquilo que não existe, que lhe empresta, queiramos ou não, as nossas forças actuais, que nos faz tomar a parte pelo todo, a imagem pela realidade, e que nos dá a ilusão de ver, de agir, de experimentar, de possuir independentemente do nosso velho e querido corpo, que nós deixámos, com o seu cigarro, na cadeira, esperando retomá-lo bruscamente, se o telefone tocar, ou por ordem, mais prosaica, do nosso estômago que reclama algum subsídio nutritivo...

Paul Valéry, in Variété V (pg. 169).

quinta-feira, 9 de junho de 2016

A par e passo 168


Pensemos numa pequena criança: esta criança traz em si um conjunto de possibilidades. Ao fim de alguns meses de vida, ela aprendeu, quase simultaneamente, a falar e a andar. Adquiriu, assim, dois tipos de competências. Isto é, possui agora duas espécies de possibilidades, cujas circunstâncias acidentais de cada instante fornecerão resposta às suas necessidades e imaginações diversas.
Tendo aprendido a utilizar as pernas, essa criança virá a descobrir que não só pode andar, mas também correr; e não somente andar e correr, mas ainda dançar. E isto é um grande acontecimento. Ela inventou e descobriu, ao mesmo tempo, uma espécie de utilidade de segunda ordem, para os seus membros inferiores, uma generalização da sua fórmula de movimento. Com efeito, enquanto a marcha é, em suma, uma actividade monótona e pouco especializada, esta nova forma de acção, a Dança, permite uma infinidade de criações, de variações e até de figuração.

Paul Valéry, in Variéte V (pgs. 148/9).

Nota: a pintura de P. Valéry, que encima o poste, é um auto-retrato.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

A par e passo (167)


Quanto a mim, tal como sou, confesso que presto mais atenção à formação e fabricação das obras, do que às obras em si; tenho o hábito de não apreciar as obras senão como acções. Um poeta é, a meus olhos, um homem que, a partir de um determinado acidente, sofre uma transformação interior. Ele distancia-se do seu estado normal de disponibilidade geral, e eu vejo-o a transformar-se num agente, um sistema vivo produtor de versos. Tal como os animais que se podem constituir como hábeis caçadores, construtores de ninhos, fazedores de pontes, perfuradores de túneis e de galerias, vemos surgir nesse homem um sistema organizado que aplica as suas funções a uma obra determinada.

Paul Valéry, in Variété V (pg. 148).

segunda-feira, 9 de maio de 2016

A par e passo 166


E aqui vai a contraprova da nossa pequena experiência: se, numa sala de concertos, enquanto se ouve e domina uma sinfonia, acontecer uma cadeira cair, uma pessoa tossir, ou uma porta fechar-se com ruído, nós temos de imediato a sensação de uma ruptura. Que perturba, concretamente, pelo seu quê de indefinível, a natureza do encanto de um cristal de Veneza que de súbito se quebrou...
O universo poético não é tão poderoso ou tão facilmente assim criado. Ele existe, mas o poeta está privado das imensas vantagens que possui o musical. Embora ele tenha à mão os meios necessários para sua arte. No entanto, ele terá que pedir de empréstimo a linguagem - a voz pública, essa colecção de termos e regras tradicionais e irracionais, bizarramente classificados e transformados, e muito diversamente entendidos e pronunciados. (...) Nada de puro: mas uma mescla de excitações auditivas, psíquicas, perfeitamente incoerentes. Cada palavra é uma mistura instantânea de um som e de um sentido, cuja relação, à partida, não existe entre eles.

Paul Valéry, in Variété V (pgs. 146/7).

quarta-feira, 13 de abril de 2016

A par e passo 164


Saí de minha casa para espairecer através da marcha e dos olhares variados que ela traz consigo. Quando avançava pela rua onde moro, fui subitamente possuído por um ritmo que se impunha a mim próprio, e que me provocava a impressão de um funcionamento estranho. Como se alguém se servisse da minha máquina de viver. Um outro ritmo veio então acrescentar-se ao primeiro e combinar-se com ele; e aí se estabeleceram não sei que tipo de relações transversais entre estas duas leis (tento explicar-me o melhor que posso). Este combinava o movimento das minhas pernas andantes com não sei que canto que eu ia murmurando ou, antes, que se murmurava por meio de mim. Esta composição tornou-se mais e mais complicada, e ultrapassou em breve na sua complexidade tudo aquilo que eu poderia, racionalmente, produzir segundo as minhas faculdades rítmicas normais e úteis. Então, a sensação de estranheza, de que falei, tornou-se penosa, quase inquietante.
Eu não sou músico; ignoro inteiramente a técnica musical; e eis que eu estava em vias de um desenvolvimento em várias partes, de uma complicação que mesmo um poeta tem dificuldade em imaginar. Dizia-me que deveria ter havido um erro na pessoa escolhida, que esta graça se enganara no ser, porque eu nada poderia fazer desse dom - que, num músico, teria o seu valor próprio, forma e duração, enquanto que estas partes, que se misturavam e delineavam, me ofereciam, inadequadamente, uma produção cuja sequência sábia e organizada me maravilhava, mas desesperava também a minha ignorância.

Paul Valéry, in Variété V (pgs. 139/40).


Nota: na minha leitura, este texto de Valéry tenta tornar consciente e compreensível o fenómeno da criação poética. Nas suas duas formas, de algum modo, inconscientes: do ritmo e também das palavras nascentes.

segunda-feira, 28 de março de 2016

A par e passo 163


Uma vez que a palavra sonho se intrometeu neste discurso, eu direi de passagem que nos tempos modernos, e a partir do romantismo, se estabeleceu uma certa confusão, bastante explicável, entre a noção de sonho e a da poesia. Nem o sonho nem a fantasia (rêverie) são necessariamente poéticos; podem-no ser: mas as figuras formadas pelo acaso não são ocasionalmente figuras harmónicas.
Desde sempre a nossa lembrança dos sonhos nos ensina, por uma experiência comum e frequente, que a nossa consciência pode ser invadida, inteiramente saturada pela produção de uma existência, cujos seres e objectos parecem os mesmos que existem na vigília; mas o seu significado, as suas relações e os seus modos de variação e substituição são outros e apresentam-se, sem dúvida, como símbolos ou alegorias, nas flutuações imediatas da nossa sensibilidade geral, não controlada pela sensibilidade dos nossos sentidos especializados. É assim também que, de algum modo, o estado poético se instala, desenvolve, e enfim se desagrega em nós.
O que é dizer que este estado de poesia é perfeitamente irregular, involuntário, frágil, quer quando o obtemos, quer quando o perdemos por mero acidente. Mas este estado não basta para fazer um poeta, muito menos é suficiente ver um tesouro em sonhos para o vir a reencontrar, no despertar, deslumbrante junto da nossa cama.
Um poeta - e não fiquem chocados com o meu propósito - não tem por obrigação reflectir o estado poético: isso é um assunto privado. Ele tem por função criá-lo nos outros. Reconhece-se um poeta - ou pelo menos, cada um reconhece o seu - pelo simples facto de que ele transforma o leitor num inspirado.

Paul Valéry, in Variété V (pgs. 137/8).

terça-feira, 15 de março de 2016

A par e passo 162


... a Poesia é uma arte da Linguagem; algumas combinações de palavras podem produzir uma emoção que outras não produzem, e a que nós chamamos poética. O que é esta espécie de emoção?
Eu conheço-a em mim sob o aspecto de que todos os objectos possíveis do mundo normal, exterior ou interior, os seres, os acontecimentos, os sentimentos e os actos que são normais quanto às suas aparências, se reflectem subitamente numa relação indefinível, mas maravilhosamente justa para com os modos da nossa sensibilidade geral. Isto é, que estas coisas e estes seres conhecidos - ou antes, as ideias que eles representam - transformam-se de alguma maneira no que diz respeito ao seu valor intrínseco. Atraem-se uns aos outros, associam-se de outro modo, diferente do normal; eles encontram-se (permita-se-me a expressão) musicalizados, ressoam entre um e outro, numa correspondência harmónica. O universo poético assim definido apresenta grandes analogias com aquilo que nós supomos ser o universo do sonho.

Paul Valéry, in Variété V (pg. 137).

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

A par e passo 161


Eu observei, por diversas vezes, que um incidente não menos insignificante causava - ou parecia causar - um desvio muito diferente, um afastamento da natureza e um outro resultado. Por exemplo, uma aproximação brusca de ideias, uma analogia que me assaltava, como um sinal de alerta no interior duma floresta que nos faz levantar a orelha, e nos orienta virtualmente todos os músculos que se sentem convocados para algum ponto no espaço e para a profundidade da folhagem. Mas desta vez em lugar de um poema, era uma análise desta sensação intelectual súbita que se apossava de mim. Nada de versos que se destacassem, mais ou menos facilmente, do interior desta fase; mas alguma proposição que se destinava a incorporar nos meus hábitos de pensar, qualquer fórmula que devia, a partir daí, servir de instrumento às minhas pesquisas posteriores...

Paul Valéry, in Variété V (pg. 135).

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A par e passo 160


Mas como fazer para pensar - quero eu dizer: para repensar, para aprofundar aquilo que parece merecer ser aprofundado - se nós temos a linguagem por essencialmente provisória, como é provisória uma nota de banco ou um cheque, a que nós chamamos "valor", que exige o esquecimento da sua mesma natureza, e que é apenas a de um bocado de papel habitualmente sujo? Este papel que já passou por tantas mãos... Mas as palavras que também já passaram por tantas bocas, por tantas frases, por tantos usos e abusos, que as preocupações mais sérias se impõem para evitar uma excessiva confusão nos nossos espíritos, entre aquilo que pensamos e procuramos pensar e o que o dicionário, os autores e, de resto, todo o género humano, desde a origem da língua, querem que nós pensemos...

Paul Valéry, in Variété V (pgs. 133/4).

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

A par e passo 159


As questões de filosofia e estética estão tão ricamente obscurecidas pela quantidade, diversidade, pela antiguidade da pesquisa, das disputas, das soluções que foram produzidas no contexto de um vocabulário muito restrito, de que cada autor explora as palavras segundo as suas tendências, que o conjunto destes trabalhos me dá a impressão de um bairro, especialmente reservado a espíritos profundos, nos Infernos da antiguidade. Há por lá Danaides, Ixions, Sísifos que trabalham eternamente para encher tonéis sem fundo, fazer subir a rocha deslizante, isto é, redefinir a mesma dúzia de palavras cujas combinações constituem o tesouro do Conhecimento Especulativo.

Paul Valéry, in Variété V (pgs. 131/2).

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

A par e passo 158


Advirto que é preciso ter atenção aos primeiros contactos com um problema que surge no nosso espírito. É necessário ser cuidadoso com as primeiras palavras que parecem identificar-se com uma questão do nosso pensamento. Uma nova questão aparece em nós de forma pueril; balbucia: não encontra senão termos estranhos, todos eles carregados de valores e de associações acidentais; sendo obrigada a pedi-los de empréstimo. Mas, por isso mesmo, altera insensivelmente a nossa necessidade verdadeira. Renunciámos assim, e sem dar por isso, ao nosso problema original, e acreditámos ter optado por uma opinião pessoal muito nossa, esquecendo que essa escolha não se exerceu senão sobre um conjunto de opiniões que fazem parte da obra, mais ou menos cega, do resto dos homens e do acaso. Assim se passa também com os programas dos partidos políticos, dos quais nenhum é (e não poderia ser) aquele que corresponde exactamente à nossa sensibilidade e aos nossos interesses.

Paul Valéry, in Variété V (pg. 131).