Uma vez que a palavra sonho se intrometeu neste discurso, eu direi de passagem que nos tempos modernos, e a partir do romantismo, se estabeleceu uma certa confusão, bastante explicável, entre a noção de sonho e a da poesia. Nem o sonho nem a fantasia (rêverie) são necessariamente poéticos; podem-no ser: mas as figuras formadas pelo acaso não são ocasionalmente figuras harmónicas.
Desde sempre a nossa lembrança dos sonhos nos ensina, por uma experiência comum e frequente, que a nossa consciência pode ser invadida, inteiramente saturada pela produção de uma existência, cujos seres e objectos parecem os mesmos que existem na vigília; mas o seu significado, as suas relações e os seus modos de variação e substituição são outros e apresentam-se, sem dúvida, como símbolos ou alegorias, nas flutuações imediatas da nossa sensibilidade geral, não controlada pela sensibilidade dos nossos sentidos especializados. É assim também que, de algum modo, o estado poético se instala, desenvolve, e enfim se desagrega em nós.
O que é dizer que este estado de poesia é perfeitamente irregular, involuntário, frágil, quer quando o obtemos, quer quando o perdemos por mero acidente. Mas este estado não basta para fazer um poeta, muito menos é suficiente ver um tesouro em sonhos para o vir a reencontrar, no despertar, deslumbrante junto da nossa cama.
Um poeta - e não fiquem chocados com o meu propósito - não tem por obrigação reflectir o estado poético: isso é um assunto privado. Ele tem por função criá-lo nos outros. Reconhece-se um poeta - ou pelo menos, cada um reconhece o seu - pelo simples facto de que ele transforma o leitor num inspirado.
Paul Valéry, in Variété V (pgs. 137/8).