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segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Salão de Recusados XXV : A Fénix Renascida (4, e último)


A uns olhos tortos

Travessos olhos, que na travessia
Deixais todos os olhos derrubados,
Contra quem só três dedos cavalgados
São na manhã remédio a todo o dia:
Dos milagres, que fez Santa Luzia,
Nenhum sabemos de olhos enfrestados
E mais olhos que são tão namorados,
Que olham um para o outro à mor porfia:
Ciosos olhos, pois, essas meninas
Escondeis no mais alto das capelas,
Não consintais haver delas suspeita:
Torcei-lhe a condição de pequeninas,
Porque nunca se possa dizer delas
Quem torto nasce, tarde se endireita.

António Barbosa Bacelar


Pragas se chorar mais por uma Dama cruel

Não sossegue eu mais, que um bonifrate,
De urina sobre mim se vase um pote,
As galas que eu vestir sejam picote,
Com sede me deem água em açafate.
Se jogar o xadrez, me deem mate,
E jogando às trezentas um capote,
Faltem-me consoantes para um mote,
E sem o ser me tenham por orate.
Os licores, que beba, sejam mornos,
Os manjares, que coma, sejam frios,
Não passe mais na rua, que a dos fornos.
E para minhas chagas faltem fios,
Na cabeça por plumas traga cornos,
Se meus olhos por ti mais forem rios.


Tomás de Noronha


domingo, 12 de setembro de 2010

Salão de Recusados XXIV : A Fénix Renascida (3)


A uns noivos, que se foram receber, levando ele os vestidos emprestados, e indo ela muito doente, e chagada

Saíu a noiva muito bem trajada,
Saíu o noivo muito bem trajado,
O noivo em tudo muito conchegado,
A noiva em tudo muito conchagada.
Ela uma anágua muito bem bordada,
Ele um capote muito bem bordado,
Do mais do noivo tudo d'emprestado,
Do mais da noiva tudo d'emprastada.
Folgamos todos os amigos seus
De ver o noivo assim com tanto brio,
De ver a noiva assim com tantos brios.
Disse-lhe o Cura então: Confio em Deus,
E respondeu o noivo, e eu confio,
E respondeu a noiva, e eu com fios.

Tomás de Noronha


Soneto Moral

Não desejes mais honras que virtudes,
Não faças nada por respeito humano,
Ouve mal da lisonja o doce engano,
Obrando bem, do que dirão não cuides.
A todos na aflição benigno ajudes,
Usa sem fingimento um trato lhano,
Vence do próprio amor o grande dano,
Nas sortes ambas o ânimo não mudes.
Podendo escusar, a ninguém peças,
Arroja-te com glória ao precipício,
Não ocupes lugar que não mereças:
Paga com outro maior o benefício,
O fim olha das cousas que começas,
Louva o alheio bem, nota o teu vício.

Francisco de Brito Freire

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Salão de Recusados XXIII : A Fénix Renascida (2)


A fragilidade da vida humana

Esse baixel nas praias derrotado
Foi nas ondas Narciso presumido:
Esse farol nos Céus escurecido
Foi do monte libré, gala do prado:
Esse nácar em cinzas desatado
Foi vistoso pavão de Abril florido:
Esse Estio em Vesúvios encendido
Foi Zéfiro suave em doce agrado:
Se a nau, o sol, a rosa, a Primavera
Estrago, eclipse, cinza, ardor cruel
Sentem nos auges de um alento vago:
Olha, cego mortal, e considera
Que és rosa, Primavera, Sol, baixel
Para ser cinza, eclipse, incêndio, estrago.

Francisco de Vasconcelos


A F. que comia barro

Dizem-me que estais doente
De doença tão pesada,
Que por ser de barro é nada,
E só no peso se sente:
Crede-me que estou contente,
Pois quando a Terra comeis,
Mais eterna vos fazeis,
Pois se a terra os corpos come,
E se a comeis vós com fome,
Quem vos coma não tereis.

Jerónimo Baía

sábado, 21 de agosto de 2010

Salão de Recusados XXII : A Fénix Renascida (1)


Ao cavalo do Conde de Sabugal, que fazia grandes curvetas


Galhardo bruto, teu bizarro alento
Música é nova, com que aos olhos cantas,
Pois na harmonia de cadências tantas
É clave o freio, é solfa o movimento:
Ao compasso da rédea, ao instrumento
Do chão, que tocas, quando a vista encantas,
Já baixas grave, e agudo já levantas,
Onde o pisar é som, e o andar consento:
Cantam teus pés, e teu meneio pronto,
Nas fugas, não, nas cláusulas medido,
Mil consonâncias forma em cada ponto:
Pois em falsas airosas suspendido
Ergues em cada quebro um contraponto,
Fazes em cada passo um sustenido.

Anónimo


A F. por alcunha o Cardeal que morreu de repente estando comendo

Pouco Santo mostrou ser
Este que a terra consome:
Os Santos morrem de fome,
Este morreu por comer:
Veio o Cardeal a morrer
Que ninguém da morte escapa,
E por baixo da sua capa,
Dizem não com pouco espanto,
Se não morreu como Santo,
Que teve morte de papa.

Jerónimo Baía (1620?-1688).

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Bibliofilia 26 : A Fénix Renascida



Muito embora a qualidade de grande parte das poesias, incluídas na colectânea "A Fenis Renascida", deixe muito a desejar, os 5 tomos da obra são raros, muito procurados e bastante caros - quando completos. A publicação destes poemas, maioritariamente do séc. XVII, deve-se aos esforços de Mathias Pereyra da Sylva que mandou imprimir os 5 volumes, entre 1716 e 1728. Dado o sucesso de venda, em 1746, Mathias P. da Sylva fez uma segunda edição, com acrescentamento de poesias.
É esta 2ª edição que possuo, bem como o tomo IV (1721) da primeira impressão. A colectânea, completa, demorou-me anos a reunir. Dois volumes comprei-os na antiga Livraria Histórica e Ultramarina do saudoso Sr. Almarjão, graças à atenção e reserva que me fizera o Sr. Beckmeier. Vários anos depois, consegui adquirir mais 4 tomos - conseguindo completar toda a segunda edição - num leilão do Palácio do Correio Velho. Daí ter o IV tomo na 1ª e 2ª edições. A obra completa, hoje, não deverá custar menos de 400 euros. E será preciso que apareça à venda...