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sábado, 31 de agosto de 2024

Diálogo de final de Agosto



O patrocínio de Cícero (103-43 a. C.) impunha-se até por questões geriátricas, na conversa. Antes, viera o nome e dois poemas de Eugénio. Ao tribuno romano, seguiu-se, naturalmente, Beauvoir por causa de La Vieillesse, na minha opinião, obra bem mais conseguida na caracterização dessa idade. Lembrei-me também do mau envelhecer de Yeats. No diálogo de amigos, Camilo foi referido, nas leituras recíprocas; do outro lado, Sara, de Olga Gonçalves. E releituras que já íamos fazendo, por este final de Agosto.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Um cheirinho a Primavera


A Chanfana, saboreada na esplanada, estava deliciosa. E o Palmela, na sua rudeza simples, acompanhou bem. Depois, para esmoer, descemos os degraus até ao rio. Os 22º suaves de temperatura acariciavam o ar da tarde. Normais, para nós, para os estrangeiros eram uma benção. Algumas jovens abandonavam-se, sentadas, num físico nirvana e de olhos fechados, em direcção ao Sol ameno. O que prova que há místicos, para lá dos alumbramentos sul-europeus...
O meu - já conhecido - pato negro selvagem, hoje viúvo, patrulhava, solitário e rasteiro, as águas do Tejo. Até que se cansou e mergulhou deliciado nas águas, e veio à margem, parecendo acompanhar, paralelamente e à bolina, as nossas deambulações dialogantes e digestivas. Quando A. se decidia a falar do seu avô algarvio, 4 ou 5 pequenas aves, que me pareceram codornizes fizeram a sua aparição. Apontei-as ao meu Amigo, e logo apareceram mais. Fizeram um grupo de 11, no total, debicando, meticulosamente, os limos das pedras ribeirinhas. Serão andorinhas do mar?, perguntei eu. Uma velhota simpática, também as olhava, curiosa e interrogativa, mas eu não a soube esclarecer. Porque, para alfaiates, tinham o bico demasiado pequeno...
Mas aquele colarzinho negro, incompleto, à moda das rolas, mais corpulentas, e que o têm completo, era uma pista segura.
Em casa, e com ajuda dos livros, esclareci o mistério: eram perdizes do mar. Que, de Março a Setembro, frequentam as margens do Tejo. E foram as primeiras que vi, na minha vida. Devem ter vindo com a Primavera... Mas ainda faltam as andorinhas.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Um poeta quase centenário, vivo


Até hoje, creio, nunca tinha ouvido falar do poeta brasileiro Manoel de Barros, nascido em Dezembro de 1916. E, se não fosse o meu amigo A. G. de Sousa, o escritor continuaria a ser, para mim, desconhecido.
Mas o meu Amigo fez-lhe um rasgado elogio, como Drummond de Andrade fez, ao considerá-lo o maior poeta brasileiro, e de qualidade superior à dele. Convenhamos que não é pouco, entre pares.
Isso me basta. Na breve busca a que procedi, encontrei um poema em que Manoel de Barros fala de Lisboa, indirectamente (Alfama). Pertence ao livro "O Guardador das Águas" e é a quarta estância do poema intitulado Retrato quase apagado em que se pode ver perfeitamente nada. Aqui vai o poema:

IV

Alfama é uma palavra obscura de olhos baixos.
Ela pode ser o germe de uma apagada existência.
Só trolhas e andarilhos poderão achá-la.
Palavras têm espessuras várias: vou-lhes ao nu, ao
fóssil, ao ouro que trazem da boca ao chão.
Andei nas pedras negras de Alfama.
Errante e preso por uma fonte recôndita.
Sob aqueles sobrados sujos vi os arcanos em flor.

domingo, 8 de abril de 2012

As surpresas da memória no domingo de Páscoa


Não foram as madalenas de Proust, que o levaram à "procura do tempo perdido", nem por ser domingo de Páscoa me veio à memória o Pão-de-ló de Margaride que, no dia de hoje, se pode comprar em qualquer confeitaria de Guimarães, que se preze de o ser. Nem sequer me lembrei dos pequenos bolos arredondados recobertos a linhas curvas sinuosas de calda de açúcar, esbranquiçados por fora, amarelinhos e tenros por dentro. Não. Ao pequeno almoço, o que me veio à lembrança foi o paladar das cavacas duras e escuras por dentro, que eu detestava, mas que havia sempre na mesa pascal. Mas pelo lado mais simpático, porque eram feitas com imensas raspas de casca de limão. E foi esse o sabor que me veio à boca da memória, ao tomar o pequeno almoço. Como essa memória atravessou tantos anos e quilómetros, não o sei dizer.
Eu tinha, durante a noite, sonhado com a casa de Eça, em França. Acompanhava-me, logicamente, o meu amigo A. G. de S., estudioso da sua obra. Mas a tudo se acrescentou uma sardanisca (lagartixa) minhota que mais parecia o sapo de Lucas Cranach, que postei há dias no Arpose - foi uma transposição, decerto. Depois, no sonho, aparecia também alguém (feminino) que lavava louça na cozinha da casa francesa de Eça de Queiroz. Mas quanto a cavacas, nada. Por isso não havia antecedentes, para esse sabor que me veio à boca. Talvez a geleia de limão sobre a mesa, que HMJ fez, magnífica... Ou, então, o cesto de vime repleto de limões, que nos ofereceram, e que estava em cima do aparador. Talvez, por aí, me tivessem chegado as detestadas e duras cavacas pascais e vimaranenses, à memória, nesta manhã de Páscoa. Devo estar na pista certa...
Para o almoço, o tradicional anho, que já rescende no forno. Mas ainda tenho de escolher o vinho, porque ontem estava indeciso. Sinto-me inclinado para um Douro, talvez o "Quinta de la Rosa", sempre garantido como boa escolha para assados. E, para sobremesa, à falta do Pão-de-ló de Margaride, ainda há um resto do de Alfeizerão, gentilmente trazido e oferecido pelo H. N., sempre generoso. Só falta o compasso e o vinho fino para o dia ser completo. As cavacas de Guimarães, dispenso-as perfeitamente.