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sábado, 25 de agosto de 2018

Agosto


Agosto era, por essa altura de Férias Grandes, o grande espaço de liberdade. E aventura, pensava eu.
A 15, em pré ou semi-balanço, eu concluía que não tinha acontecido nada, de novo. A 24 ou 25 do mês, temia, desesperançado, o próximo fim da aventura, porque faltava apenas uma semana para o fim do mês. O cenário, durante esses primeiros anos da minha vida, era o mesmo, em Agosto.
Mas foi preciso quase chegar ao fim da juventude, para que as aventuras acontecessem. Em 1963 ou 1964, pelas areias, então quase desertas, de A-ver-o-Mar. Seis anos mais tarde, em episódio inesperado, que aqui contei em 16/6/2010 (Bibliofilia 19). Finalmente, em 1971, numa noite de sorte.
Eu tinha (e tenho, ainda que agora rarissimamente) por costume jogar 3 vezes seguidas numa slot-machine, e depois passar a outra, a menos que tivesse tido prémio. Se me saísse dinheiro, jogava ainda uma outra vez nessa mesma máquina. Pois à terceira vez, no Casino da Póvoa, saiu-me um jackpot.
Lá repeti a operação, depois do tilintar das moedas de 2$50 a cair ter acabado. Perante a alegria de 3 dos meus cunhados, que me acompanhavam. Eis senão quando, contra todas as expectativas e estatísticas, ao premir o manípulo da máquina, novamente, sai-me o segundo jackpot.
A minha cunhada Fina quase gritou: "Tira, tira depressa, vamos embora, que a máquina deve estar avariada!" Não estava. Mas sortes destas, ou aventura, só mesmo na ficção do Rain Man e com a ajuda de Raymond Babbitt (Dustin Hoffman, que por sinal faz anos a 8 de Agosto)...
E essa foi a última aventura dos meus meses de Agosto.

domingo, 4 de outubro de 2015

Osmose 57


Na maré baixa, há sempre um espaço intermédio, um pouco húmido, entre o mar e a areia seca. É lá que, por vezes, pousam aves marinhas, sobretudo as gaivotas, bicando os despojos e detritos das águas salgadas ou, simplesmente, assenhoreando-se da área a descoberto.
Uma vez, muitos anos atrás, em A-ver-o-Mar, encontrei nesse espaço o crâneo branco e limpo de uma gaivota, que tinha uma forma quase daliniana. Talvez por isso, apanhei o despojo e trouxe-o para casa. Compacta de ossatura, a caveira pouco tempo se manteve íntegra. Os ossos desuniram-se em poucos anos.
E as peças soltas deixaram de configurar esse puzzle antigo de uma harmonia passada, extinta.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Uma transmontana que gostava do mar


Luísa Dacosta (1927-2015) faleceu a um dia de completar 88 anos. Nascida em Vila Real (Trás-os-Montes) desde cedo se encantou pela beira-mar nortenha, de que são testemunho várias crónicas exemplares sobre A-Ver-o-Mar, reunidas em livro publicado em 1980. A condição feminina e várias histórias para crianças constituem os temas dominantes da sua obra literária.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Ante-manhã


Para chegar de novo até aqui, tenho que recuar quase cinquenta anos, até uma praia do Norte, batida pelo vento, porque o vermelho ardia e parecia contagiar o azul intensíssimo, por cima. O areal quase deserto, ainda não iluminado pelo Sol. E, pouco depois, chegaram os pescadores de sargaço, uma horda gritante, com as suas jangadas de cortiça, correndo para o mar, coberto que ele estava por um tapete de algas, imenso.
Mas não havia pássaros, na altura. Hoje, três corvos, também de intensa negrura acrescentaram essa memória longínqua. Crocitaram, pesados e grandes, sobre o largo outrabandista ainda vazio de pessoas, marcando o espaço. Depois ficaram, vigilantes, dominando, no alto de dois pinheiros altos.