Todos os temos ou tivemos. Terrestres, aéreos ou aquáticos. Rastejantes, trotadores, cantantes, se não os temos, já os tivemos, pelo menos, na infância. E, se não foi ao vivo, pelo menos de peluche, andaram ao nosso colo, dormiram connosco, viveram parte das nossas aventuras imaginadas... O meu é o canário e o último que tive dava, pelo menos, um conto ou uma fábula.
O primeiro ofereceu-mo o meu tio Joaquim que tinha uma enorme criação de pássaros. E cantava lindamente, logo pela manhã, ao nascer do sol.
Dos literários, Eliot escolheu o(s) gato(s) ("Old Possum's Book of Practical Cats"), Cristovam Pavia fez uma belíssima e sentida elegia à morte do seu cão e Torga, que era caçador, devia ter, em particular estima, os cães, também. Nicolau Tolentino tem aquele soneto admirável intitulado "Deitando um cavalo à margem". Mas Juan Ramón Jimenez fez mais : universalizou o seu animal preferido em "Platero y yo". Aqui vai o início, para quem não saiba ou não se lembre da história desse burrito simpático.
"Platero é pequeno, peludo, suave; tão macio, que dir-se-ia todo de algodão, que não tem ossos. Só os espelhos de azeviche dos seus olhos são duros como dois escaravelhos de cristal negro. Deixo-o solto, e vai para o prado, e acaricia levemente com o focinho, mal as roçando, as florinhas róseas, azuis-celestes e amarelas... Chamo-o docemente: «Platero», e ele vem até mim com um trote curto e alegre que parece rir em não sei que guizalhar ideal... Come o que lhe dou. Gosta de tangerinas, das uvas moscatéis, todas de âmbar, dos figos roxos, com a sua cristalina gotita de mel... É terno e mimoso como um menino, como uma menina...; mas forte e seco como de pedra."