Mostrar mensagens com a etiqueta Crítica Literária. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crítica Literária. Mostrar todas as mensagens

domingo, 13 de dezembro de 2020

Esquecidos (5)


Actualmente, não é muito diferente do tempo antes de Moniz Barreto (1865-1896) o panorama da crítica literária, em Portugal. Quase não existe, isenta, e a que há é enfeudada a interesses diversos, quando não obscuros. Já Vitorino Nemésio afirmava: "A literatura portuguesa tem fraca consciência crítica." E eu acrescentaria que os portugueses raramente têm sentido crítico. Em literatura e não só.


Guilherme Joaquim de Moniz Barreto nasceu em Goa a 15 de Março de 1865, de ascendentes açorianos com origem minhota e veio a falecer em Paris, com apenas 31 anos de idade. Conviveu com Junqueiro, Nobre e Eça de Queiroz. Estudou com argúcia a Geração de 70 e, de algum modo, iniciou o ensaísmo e a crítica literária moderna em Portugal. Está hoje completamente esquecido - creio.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Cotações no mercado


Se há escritores que não perdem, após a morte, a sua popularidade e cujas obras se vão continuando a imprimir e vender, como os livros de Simenon, por exemplo, outros há em que a crítica começa logo a questionar a qualidade da sua ficção, a seguir ao falecimento do autor, como foi o caso de John Updike. Ou mesmo em vida, como parece estar a acontecer, agora, com a avaliação que se tem feito  das últimas obras de J. M. Coetzee.
Na Inglaterra, a perda de interesse pela obra de Françoise Sagan (1935-2004) tem sido progressiva (o TLS regista-a) e raros, dos seus livros, têm sido reeditados, encontrando-se esgotados na sua maioria, talvez porque esse clima fluído e leve da ficção da escritora francesa, que lembra a atmosfera cinematográfica de um Rohmer ou de um Truffaut dos anos 60/70 ( certeiro, oTLS dixit), se tenha perdido para sempre, nos dias de hoje.

sábado, 17 de novembro de 2018

No tempo em que


Sou do tempo em que havia críticos sérios e competentes. Óscar Lopes, Gaspar Simões, Mário Sacramento, por exemplo, cada um à sua maneira, dizia o que pensava, subordinado apenas a um critério estético de qualidade. Não faziam favores nem fretes, não recebiam subvenções das editoras, não se curvavam a amiguismos - em suma, tinham a consciência limpa de julgar, com isenção, os livros que iam saindo. A sua palavra era uma garantia segura, que nos prometia, à partida, uma boa leitura.
Hoje, não. Há revistas que, como os folhetos das grandes superfícies, tentam é vender os seus produtos, neste caso, as suas publicações, há críticos nitidamente enfeudados, há por aí uns blogues que se auto-intitulam de blogues literários (?) administrados por umas costureiras de retalhos, que dizem sempre bem das obras de que falam e ainda têm tempo para produzir receitas culinárias pindéricas, normalmente vegans, ou de nouvelle cuisine de paróquia interior. É a nova crítica...
Às vezes, porém, a excepção vem confirmar a regra, e eu sou surpreendido por um critério isento, na apreciação crítica de um livro. Na ípsilon, de ontem, Mário Santos, sobre uma obra de um  autor muito badalado, escreveu assim: "...o autor conseguiu fundir numa única obra, e com indesmentível e insuperável eficácia, as melhores qualidades de uma historieta de aventuras do Major Alvega e as de uma novela cor-de-rosa de Corín Tellado (que só agora li para poder comparar). Com uma única desvantagem: a ausência das vinhetas da banda desenhada."
A quem me ler, aqui, lanço um repto ou adivinha. De quem falaria Mário Santos: de Paulo Coelho? De Rodrigues dos Santos? De Rosa Montero? De John Fante? De Modiano? De Margarida Rebelo Pinto? Do valterzinho mãe? De Dan Brown?
Prometo a solução, oportunamente...

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Divagações 129


Intimamente, creio que ninguém gosta de estar sozinho, embora o provérbio popular sugira uma possibilidade contrária.
Andam nomes nas estantes e nas letras supervalorizados de forma escandalosa, bem como há autores que qualquer conselho editorial criterioso recusaria editar. Mas os livros lá aparecem editados, as entrevistas multiplicam-se com baboseiras incipientes, ditos "para entre família", apelos à simpatia, explicação de lágrimas para despertar a compaixão no leitor, numa exposição patética e infantil, por parte desses escribas que não estão, talvez, preocupados em fazer arte, mas ir vendendo o mais possível...
Tenho os meus ódios de estimação, muito embora grande parte deles não resulte de uma mera embirração caprichosa, mas da constatação do logro de qualidade artística a que os assiste. E a que a falta de sentido crítico nacional e centenário, o compadrio despudorado, o mercenarismo militante, a cegueira racional e a falta de gosto reinante dá guarida, e favorece. Vox clamantis in deserto me sinto, às vezes, ou aquele rapaz atrevido, da fábula, que gritou: o rei vai nu!
Por uma vez, e hoje, no entanto, senti a beatificação tranquila da razão, embora tardia. Senti que não estava sozinho, mas acompanhado. E com argumentos sólidos, através de uma recensão, na ípsilon.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Da leitura (5)


Há muito que a leitura de um conjunto de avaliações críticas, sobre literatura e autores portugueses, não me dava tamanho prazer. O que hoje se faz, tirando um reduzido número de críticos que se poderá contar pelos dedos de uma mão, é uma espécie de reprodução das badanas, sem critério algum e muito menos conhecimento de história literária. Para não falar da proliferação de blogues pretensamente literários, encapotadamente pagos por editoras, ou que se vendem na miserável e mediocre esperança, pequenina e paroquial, de receberem uns quantos livritos, como recompensa do seu frete pindérico e mercenário. Daí eu não me admirar de tanto sucesso literário conseguido por esse trabalho de sapa e pela eterna ausência maioritária de sentido crítico de grande parte dos ledores portugueses. Análise ou crítica literária, hoje e em Portugal, quase não existe: é como procurar agulha num palheiro...
Por isso este Régio, Casais, a «presença» e outros afins, de Jorge de Sena, publicado em 1977, me está a dar tanto prazer de leitura. Com o sabor de reencontro de uma voz amiga, sólida, que nos chega do passado, nos enriquece, nos faz pensar e nos traz a visão lúcida de quem sabia ler e distinguir a qualidade. Aqui vai um bocadinho de um dos textos de Sena:
"...Para muita gente, Régio atingiu sempre uma altitude espiritual que Torga não pode disputar-lhe; como, para outra, Torga possui uma humanidade imediata, feita de espontaneidade vital, de rudeza «telúrica», de vivência das serranias, que Régio não abarcava. O religiosismo de Régio, num país onde a poesia de índole religiosa descera ao nível das cantigas de sacristia, repugnou sempre à onda do livre-pensamento, e suscitou sempre desconfiada antipatia dos católicos - e daí que a sua consagração tenha, em grande parte, advindo dos meios universitários de tradição positivista ou agnóstica, que são hipóstases de uma análoga atitude da burguesia prudente que, por outro lado, encontrou, em Régio, e sem compromissos, as alegorias e símbolos da sua educação católica. E a pretensa espontaneidade de Torga oferecia ao anticulturalismo dos anos 30 e 40, um sabor da terra, de primitivismo, de força viril e exterior, que fazia esquecer quão obsessivamente individualista ele é também, fechado, tanto como Régio, na contemplação menos da personalidade profunda que da exemplaridade genial do indivíduo eminente. Que ambos poderiam ter existido sem Pessoa ou Sá-Carneiro até tecnicamente - apesar da maestria indiscutível de ambos - é quase inteiramente a verdade: e tão verdade que, tanto um como outro, foram sempre, até hoje, muito reticentes em proclamar em público a grandeza de Fernando Pessoa. ..."

sábado, 14 de fevereiro de 2015

O fracturante E. A. Poe


Na segunda metade do século XIX e uma boa parte do XX, Edgar Allan Poe (1809-1849) era mais apreciado em França (Baudelaire, Mallarmé, Valéry...) do que no seu próprio país, E. U. A., nascido que fora em Boston. Não sei até que ponto as suas histórias de terror e de macabro marcaram ou excluíram a sua restante obra dos puristas cânones literários americanos. É significativo o facto de, apenas em Outubro de 2014, os bostonianos terem decidido erigir-lhe uma estátua, da autoria de Stefanie Rocknack.
Alinhem-se, então, algumas opiniões (negativas) sobre a obra de E. A. Poe:
- "Não sei o que vêem no poema The Raven" - Ralph Waldo Emerson.
- "O entusiasmo por Poe denuncia um estado primitivo de reflexão" - Henry James.
- "Uma boa parte dos poemas de Poe são um amontoado de vulgaridades e lugares comuns" - Yeats.
- Aldous Huxley explicava que a admiração dos franceses por Poe se poderia explicar por eles não terem sensibilidade acústica para a língua inglesa...
- "A obra de Poe é de uma palpável vulgaridade" - Harold Bloom.
Em contraponto com estas opiniões negativas, anote-se a análise crítica meritória que T. S. Eliot sempre fez da poesia de Edgar Allan Poe.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Falar simples, falar barato


Talvez o que melhor distinga a crítica ou recensão crítica de origem anglo-saxónica é que, após a sua leitura, não se fica de todo ignorando o enredo ou tema do livro que foi analisado. Noutras críticas de origem europeia, muitas vezes, a citação erudita ou os malabarismos pseudo-intelectuais correm paralelos, mas nunca convergentes, ao teor da obra e, frequentemente, ficamos sem saber aquilo de que o livro trata, na realidade. É, talvez por essa razão, que a crítica portuguesa tem má fama. Assim, achei que talvez fosse útil traduzir e citar, do TLS (nº 5832), o início da recensão que o editor Adam Begley fez sobre o livro "The Republic of Imagination", de Azar Nafisi. Portanto, aqui vai:

Uma das muitas maneiras de ler Adventures of Huckleberry Finn é prestar cuidadosa atenção ao papel desempenhado pelos livros e pela leitura - atenção que é prontamente recompensada logo pela frase inicial do romance: "Não saberão nada de mim, se não tiverem lido um livro que tem por título The Adventures of Tom Sawyer, mas isso não será muito importante. Esse livro foi escrito pelo sr. Mark Twain e, a maior parte das vezes, ele falou verdade". Esta metaficção prepara-nos para o Capítulo II, no qual Tom Sawyer esplica aos seus rapazes amigos que irá orientar o seu bando de acordo com o sanguinário precedente estabelecido pelos "livros de piratas" e dos "livros de salteadores". Matar as suas vítimas seria o melhor, afirma Tom - mas ele aceita também o resgate, que será uma alternativa possível... Quando um dos rapazes lhe pergunta o que é um resgate, Tom confessa a sua ignorância: "Eu li isso em livros; por isso é aquilo que devemos fazer". A atrevida ironia de Mark Twain dá um nome feio à literacia. E, à medida que formos avançando na leitura, iremos  descobrir que muitas das aventuras de Huck apontam na mesma direcção: para a perniciosa influência daquilo que aprendemos nos livros que lemos. ...


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Da crítica e da Poesia maior


A crítica, em Portugal, está pela "hora da morte", ou seja, vem tarde e a más horas - que os livros de qualidade já são recenseados no JL, quase como na Colóquio: com ano(s) de atraso.
Só no último JL (nº 1146) é que foi apreciado o último livro de Echevarría (Categorias e outras paisagens), saído em Outubro do ano passado. Quantas frioleiras, entretanto, lhe passaram à frente, em recensões de compadrio, sempre muito em cima da hora? Quando não em pré-apreciação e pré-publicação. Antes que esses livros desapareçam das montras das livrarias e recolham ao refugo dos armazéns, para serem depois expostos, em saldo, nas estações de metropolitano, em fugazes lojas de qualidade duvidosa e sazonal.
Aqui fica mais um poema desta Poesia difícil, mas maior:

Tornou-se, aos poucos, sensível
a tez da velhice. A mágoa
recolheu-se ao doce timbre
de azular-se na palavra.

E a palavra desceu
ao halo feliz da tez,
com a velhice a crescer
dentro da luz que se fez.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

O regionalismo das críticas


A crítica literária portuguesa, mesmo nos seus tempos áureos e mais dignificantes (que hoje assume, quase totalmente, meros aspectos publicitários), sempre esteve mais próxima da matriz francesa do que das recensões inglesas ou alemãs, clássicas. E não sou apenas eu que o digo e observo.
A propósito da recente saída, em França, do livro Un Été avec Montaigne, de Antoine Compagnon, no último TLS (nº 5783), Henri Astier, jornalista francês que trabalha para a BBC, refere, e passo a citar, traduzindo:
" A análise literária francesa tem a reputação de uma intricada abstracção. E isto não é apenas o resultado dos anos 60 estruturalistas; lendo Le Monde des Livres mesmo hoje, é muitas vezes difícil perceber sobre aquilo que são os livros recenseados. Contudo, o apetite do público Francês pela narratologia e pelo comentário opaco não deve ser sobrestimado. O bestseller surpresa do último Verão foi um delgado volume sobre Montaigne, escrito em lúcida prosa por Antoine Compagnon. ..."

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A propósito de Óscar Lopes

Óscar Lopes (1917) completou, muito recentemente (2 de Outubro), 95 anos. Silenciado por várias razões, até de saúde, está bastante esquecido e, com ele, o seu exemplar magistério na literatura e na linguística. Mas houve um tempo (anos 60/70, sobretudo) em que as suas palavras se podiam ler, semanalmente, no suplemento ou página literária de "O Comércio do Porto" onde, com isenção, sensibilidade e intuição se pronunciava sobre os livros que iam saíndo. Hoje, no entanto, com a monocultura económica a secar tudo em volta, como os eucaliptos, os suplementos literários quase desapareceram dos jornais, ou estão reduzidos ao mínimo. E os críticos literários de qualidade, e isentos, também não abundam.
Mas não se pense que é só em Portugal - a globalização vai uniformizando tudo. Por isso, achei curiosas umas palavras de Jérome Garcin, no "Obs.", a propósito de um livro ("Le Cycliste du lundi") que recolhe antigas recensões críticas de François Nourissier (1927-2011). Diz Garcin, e passo a traduzir:
"Tudo neste livro de uma actualidade perturbante, é maravilhosamente fora de moda. Naquele tempo, com efeito, um crítico literário podia consagrar mais de 10.000 caracteres a dar-nos conta, sem urgência e sem se apressar, de um livro de um autor desconhecido; ele sentia-se menos procurador do que acompanhante; ele tinha o espírito suficientemente amplo para saúdar, com o mesmo entusiasmo, um texto que hoje se classificaria de post-moderno como também um grosso romance histórico à antiga; não punha em primeiro lugar as suas opções ideológicas, antes das questões de estética; enfim, ele obrigava-se, por cortesia, a cuidar do seu próprio estilo, lembrando assim que era um escritor, a falar sobre escritores."
Lá como cá. Por isso, e por causa de quase não haver crítica literária, é que as ervas daninhas progridem e a "literatura light" prospera...

segunda-feira, 4 de junho de 2012

A propósito das "Oeuvres" de E. M. Cioran


O que de melhor encontro, na chamada crítica inglesa, é a capacidade de compor um universo objectivo, não descurando, ao mesmo tempo, uma análise competente da obra em causa. Por outro lado, estas recensões dão-nos sempre uma ideia aproximada do objecto em questão: contam a sua "história". Seja a abordagem feita sobre ficção, pintura, até mesmo, filosofia.
Num dos últimos TLS (nº 5695), a propósito da publicação (2011), pela Gallimard, da obra completa de E. M. Cioran (1911-1995), Mairéad Hanrahan dá-nos uma síntese ("To recover from being born") do pensamento do filósofo franco-romeno, através de citações nucleares da sua própria obra.
É esse pequeno excerto que vou tentar traduzir. Segue:
"...Para Cioran, a raiz de todas «as ideologias, doutrinas e farsas sanguinárias» reside na própria força da vida, no instinto vital que leva os homens a acreditar apaixonadamente numa única coisa, em detrimento de outras. «Sinais da vida: crueldade, fanatismo, intolerância; sinais de decadência: afabilidade, compreensão, indulgência.» Uma vez que «toda a fé exerce uma forma de terror», segue-se que os cépticos são «os verdadeiros benfeitores da humanidade». Ainda que os cépticos sejam, eles próprios, fanáticos no seu cepticismo: «o homem é o ser supremo do dogmatismo". A vida é uma tragédia sem sentido que se torna terrível pelo propósito humano de lhe atribuir um significado, a fim de criar uma ilusão em que se possa acreditar. ..."
Para quem está, minimamente, familiarizado com a obra de Cioran, mesmo que não se concorde com os seus argumentos, esta súmula de Mairéad Hanrahan faz todo o sentido.