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quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Esquecidos (15)



Intermitentemente, ando a ler, com agrado, Ensaios de Domigo II (Editorial Inova, 1974). O seu autor, Mário Sacramento (1920-1969), médico e político, foi também um ensaísta e crítico literário de mérito original, e, ainda que ideologicamente alinhado, não deixava transparecer os aspectos políticos do seu pensamento, mantendo uma grande isenção nos textos literários que escrevia. 
O livro referido abrange recensões críticas a obras de 48 autores portugueses, anteriormente aparecidas em revistas e jornais, incluindo nove poetas. Dos restantes 39 prosadores cheguei à conclusão, com tolerância e alguma complacência, que 10 dos autores estavam bastante, se não totalmente, esquecidos. Vou nomeá-los: Aleixo Ribeiro, Antunes da Silva, Bento da Cruz, Castro Soromenho, Clara D'Ovar, Faure da Rosa, Manuel Mendes, Mário Braga, Nelson de Matos e Vasco Branco. Nos anos 60/70 eram escritores falados, conhecidos e lidos. Muitos deles, há muito que nem sequer são reeditados.
E será que Mário Sacramento, hoje, ainda será conhecido e lido? Deixem-me duvidar, infelizmente...

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Osmose 95


Creio que alguns de nós, uma vez por outra, temos a tentação de ser árbitros de gosto.  E acontece surpreendermo-nos com algumas escolhas dos outros, ao supervalorizarem obras que nos parecem medíocres. Pessoalmente, abomino o uso do verbo adorar, para exprimir uma predilecção. É um verbo de uso litúrgico, de que a imprensa rósea abusou, pecaminosamente, e, de tão usado, hoje pouco vale ou nada significa, na minha modesta opinião.
Emitirmos uma opinião ou uma crítica, seja ela favorável ou não, sobre alguma coisa, parece colocar-nos, ainda que teoricamente, numa posição superior ao objecto, ou - o que é pior - num patamar de avaliação de aparente superioridade em relação ao autor-criador dessa obra.
Quando o faço, muitas vezes sinto, momentaneamente, um certo mal-estar, ou incomodidade interior que demora algum tempo a passar. Tudo isto se passa na esfera do racional, às vezes até com argumentos suficientemente lógicos que justificam essa avaliação que fizemos.
Um poema, um romance, uma pintura, um filme que suscitem uma clarificação do nosso gosto ou desapreço, podem assim também desencadear, por reflexo, um problema ético de justiça, nosso, subjectivo. E penso que dizer apenas gosto ou não gosto, torna tudo muito mais simples. E anódino.
Perdoa-se, quase sempre, tudo melhor ao sentimento...

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Divagações 113


Num dos últimos TLS, que li, perguntava-se para que serve um crítico, partindo de uma premissa de Baudelaire. No mesmo jornal literário inglês, mas noutro artigo, citava-se o crítico de arte Robert Walser: There is no elegance without a certain nonchalence. Hesitei em traduzir, para mim mesmo, este nonchalence por desprendimento ou indiferença.
Supervisor do gosto, a isenção do crítico, do meu ponto de vista, sofreu um certo abalo nos últimos tempos, porque raramente deixámos de perguntar se o crítico não estará a soldo de alguém - de uma editora, de uma galeria ou, pelo menos, de uma ideologia. Neste último caso - o menos perturbador - o facto é aceitável, desde que haja uma declaração  de interesses...
Académicos, autodidactas ou simplesmente dotados de uma estética própria, os críticos respondem a uma necessidade, do meu ponto de vista: mondar o mau gosto, com frequência, prevalecente nas maiorias. Não é pequena a importância da função.