É ponto assente, na opinião da crítica inglesa, que, a partir da I Grande Guerra e, com muito maior intensidade, a partir do final da II G. G., o cenário da ficção britânica passou a ser mais citadino, quando, anteriormente, tinha um predomínio campestre. A transumância das populações para as cidades, com a Revolução Industrial, foi apenas o início de um processo, que a ficção, e até mesmo a poesia, acompanharam de perto.
Em Portugal, Eça foi sobretudo um ficcionista de cidade, se exceptuarmos A Ilustre Casa de Ramires e o híbrido A Cidade e as Serras, mas quase toda a ficção camiliana é situadamente campestre, como grande parte da literatura portuguesa anterior. O Neo-realismo privilegiou largamente os campos (Redol, Manuel da Fonseca) e as zonas ribeirinhas ( Soeiro Pereira Gomes e Loureiro Botas) e, que me lembre, apenas Tavares Rodrigues e Namora (na sua segunda fase) se atreveram a devassar as ruas mais escuras e escusas da cidade. Ainda hoje, no entanto, Rentes de Carvalho e Riço Direitinho encenam as suas ficções campestres, em algumas obras.
Embora eu frequente, pouco e mal, a ficção portuguesa de agora, julgo que os cenários são, maioritariamente, citadinos. Passou o tempo de Aquilino, embora o Mestre tenha situado alguns dos seus romances em Lisboa. Como, de algum modo, Miguéis, mais cosmopolita, porém. A obra de Carlos de Oliveira divide-se, ambivalente. Mas, para os novos escritores, o cenário é urbano, até porque são, na maioria, citadinos os seus leitores e a vivência de ambos. E o regresso da alguns vegans aos campos e à natureza, bem como a fruste troca da cidade pelo campo, de alguns jovens casais idealistas, não irá alterar o cenário das ficções portuguesas - creio eu.