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quinta-feira, 13 de maio de 2010

Gottfried Benn e Chopin




Mão amiga me trouxe, ontem, uma voz desconhecida para mim: Gottfried Benn (1886-1956), poeta alemão. Os poemas são traduzidos por Vasco da Graça Moura e, embora não cotejados com os originais, as versões parecem-me de grande qualidade. Escolhi "Chopin".
Não muito fecundo na conversa,
as ideias não eram o seu forte,
as ideias vão de roda,
quando Delacroix desenvolvia teorias
ele ficava inquieto, por seu lado
não podia dar razões para os Nocturnos.
Fraco amante:
sombra em Nohant
onde os filhos de George Sand
nenhum conselho proveitoso
lhe aceitavam.

Doente dos pulmões,
com hemorragias e formação de cicatrizes
naquele modo que se arrasta;
morte tranquila
ao contrário de uma
com paroxismos de dor
ou com salvas de tiros:
encostaram o piano (Erard) à porta
e Delphine Potocka
na hora extrema
cantou-lhe um Veilchenlied.
Viajou para Inglaterra com três pianos:
Pleyel, Erard, Broadwood,
tocava a vinte guinéus por noite
um quarto de hora
nos Rothschilds, Wellington, em Strafford House
e perante inúmeras jarreteiras;
sombrio de fadiga e do acercar da morte
voltava para casa
no Square d'Orléans.
Depois queimou os seus esboços
e manuscritos,
sobretudo nenhuns restos, fragmentos, notas,
esses indícios traiçoeiros -
e disse no fim:
«As minhas tentativas consumaram-se à medida
do que me era possível alcançar».
Cada dedo devia tocar
com a força correspondente à sua estrutura,
o quarto é o mais fraco
(só irmão siamês do dedo médio).
Quando começava, pousava-os
em mi, fá sustenido, lá sustenido, dó.
Quem dele já ouviu
certos Prelúdios,
seja em casas de campo ou
em colinas
ou por portas abertas de terraços,
por exemplo, de um sanatório,
dificilmente o esquecerá.
Nunca compôs uma ópera,
nenhuma sinfonia,
só estas progressões trágicas
de convicção artística
e com uma mão pequena.

Nota breve: G. Benn exerceu durante a sua vida a profissão de médico. Enquanto lia este poema não pude deixar de pensar na "Arte de Música" de Jorge de Sena.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Música e Poesia IV : Vermelho, Branco e Azul


A trilogia de Krzysztof Kieslowski (1941-1996): "Vermelho", "Branco" e "Azul" tem, por origem simbólica, as cores da bandeira francesa, usadas pelo cineasta polaco. A Polónia "emprestou" à França, pelo menos, dois artistas notáveis: Chopin e Kieslowski. Mas também não posso deixar de comparar a figura do juiz reformado, desempenhada por Jean-Louis Trintignant, com a do juiz-penitente de "A Queda" de Albert Camus. As obras de arte nunca são tão simples nem tão isoladas de influência como, às vezes, parecem...