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sábado, 21 de outubro de 2023

Mercearias Finas 194


Creio que terei bebido o primeiro Chablis em finais dos anos 70, oferecido que me fora pelo meu grande amigo, na altura, Edgar S., e que teria sido talvez surripiado da adega, porventura especiosa, do seu tio materno e rico de Cascais. Monocasta de Chardonnay, mas produzido na região (terroir) que lhe dá o nome, tal como o nosso Bucelas, onde o Arinto ganha mais esplendor a ser produzido, ou o Riesling alemão que, nas margens do Reno e Mosela, desenvolve melhor o seu potencial de qualidade, o Chablis é um dos meus vinhos brancos estrangeiros preferido. Muito embora não tenha, até hoje, bebido mais do  que umas 5 ou 6 garrafas.



E, por isso, quando se anunciou um belo e fresco cantaril assado no forno, com quase um quilo de peso, logo decidi imolar a bem da comunidade, o único Chablis (do produtor Pierre Chanau) que me restava na garrafeira. De 2018 e com 12,5º, estava no ponto e pronto. Batatinhas novas e brócolos acompanharam, e tudo combinou na maravilha ao almoço.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Mercearias Finas 148


Não vem à colação o excurso pelo almoço, que foram costeletinhas de borrego, bem apaladadas, com esparregado e batatas fritas, acompanhadas por um Chardonnay estreme e francês. Mas porque, ao arrumar uns livros, me deparei, meio escondido, com este maneirinho (12 por 17 cm.) Caderno do Refeitório, editado em 1983, pela Barca Nova Editor e com notas de Luís Filipe Coelho.


A obrinha, com 106 páginas e ilustrações de Luís Ruas, reproduz um livro publicado, em 1887, por António Macedo Mengo e dado à estampa por David Corazzi, em Lisboa, que, por sua vez, salvava da obscuridade e esquecimento, um manuscrito conventual do século XVIII (1743?).
Para imagens e traslado, escolhi matéria prima de que gosto, particularmente.



Muito embora a época da Lampreia já tenha passado - Fevereiro e Março é o seu tempo certo - e as Perdizes, com sabor silvestre e autêntico, só lá para Outubro, com a abertura da caça, é que comecem a apetecer, regadas por um tinto com uns anitos e à maneira.

domingo, 29 de maio de 2011

Mercearias Finas 32 : Vinhos velhos


As nuvens vinham do Sul, magníficas, opacas e velozes, algumas afogueadas, quase rubras, outras de um azul célere que, ao passar, ia ficando cinzento muito escuro. Todas iam para Norte com o vento que me esfriava, na varanda a Leste, o Chardonnay da Quinta de Cidrô. Viera de Trás-os-Montes, fora até França para obter uma medalha de bronze, em 2005, e estava agora a acabar, de novo em Portugal, um pouco velho, em Maio de 2011, bendito. Para ser franco, este vinho branco da Real Companhia Velha, já conhecera melhores dias, mas ainda se comportava condignamente. Guardara uma nobreza de carácter, um frutado muito personalizado e deixava, na boca, um prolongado sabor amendoado que não era doce, mas comungava, de memória, com tempos felizes de juventude. Entenda quem souber...
O "aladino", entretanto, abriu os olhos ensonados às 21,03, ainda estremunhado, mas decidido a despertar para a noite; todavia o irmão pequeno (que HMJ comprou, há dias), o "pirilampo" só acordou mais tarde, quase 10 minutos depois - cada um é que sabe da sua própria noite... E foi aí que me lembrei do meu amigo E. S. e do primeiro Chablis que me passou pelo "estreito". Anos 70, de certeza, e pós-PREC. Até porque o guardei uns 3 ou 4 anos, depois do meu amigo mo ter oferecido. Nunca lhe perguntei, até porque era uma boa colheita, mas suspeito que ele o fanou da esplêndida adega do Tio, cavalheiro abonado e baixinho, que morava em Cascais. Devo confessar que, quando abri aquele mavioso Chablis, fiquei convertido para sempre. E foi assim que provei o primeiro monocasta Chardonnay, na minha vida.
Moral da história: às vezes, se o vinho é bom, vale a pena esperarmos e guardá-lo - ajuda a reencontrarmo-nos e a convocar tempos antigos, agradáveis. Mas não é conveniente guardar vinhos brancos portugueses mais do que 5 anos. Salvo casos muito excepcionais.